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NO NATAL LEMBRO-ME SEMPRE O TIO MANEL

por Manuel Joaquim Sousa, em 23.12.14

Já se passaram tantos, mas tantos anos e a memória vem sempre à cabeça nesta época natalícia. Lembro-me do Tio Manel. Era um homem que já não está entre nós há quase vinte anos. Conheci-o já com longa idade. Dele existe a memória de ter sempre um sorriso, que marca a sua cara com as fortes rugas de expressão e aquela boina preta, que comprara na Galiza - ainda naqueles tempos em que as fronteiras eram fechadas. O Tio Manel era o padrasto da minha mãe. Vivia sozinho numa casa pequena, muito velha. Era o fiel de uma empresa de hotéis lá na terra e, se bem me lembro, tinha como trabalho cuidar dos jardins, limpar o parque que existia numa das unidades. A sua casa dentro dos terrenos desses hotéis tenha um canteiro de plantas a toda a sua volta até à entrada que ele tão bem cuidava.
Eu e o meu irmão tínhamos por hábito em dia de consoada ir buscar o tio Manel para vir jantar a nossa casa - o tradicional bacalhau com batatas cozidas e couves. Saímos de casa ao fim da tarde e depressa chegávamos a sua casa que ficava a poucos metros da nossa; eram 15 minutos no nosso passo apressado de traquinas, mas que conseguíamos fazer em cinco minutos porque a meio do caminho saltávamos o muro e descíamos como verdadeiros alpinistas habituados a fazer aquele caminho de tantas as vezes que íamos a casa do Tio Manel. Tínhamos de ir cedo porque gostávamos de conversar com ele e, além disso, era necessário convencê-lo a vir jantar connosco porque tinha na ideia que não queria chatear ninguém. Não chateava. É certo que, às vezes, bebia um copito a mais, mas como eu gostava tanto dele, ficava todo contente em ter o Tio Manel lá em casa. Depois de o convencermos, já a noite tinha caído, lembro-me de que apagava a fogueirinha que acendia dentro de casa para se aquecer, vestia um casaco já muito antigo, de tecido grosso, que mais parecia fazenda, punha a boina na cabeça, apagava a luz e saíamos a caminho de casa. Claro que com a idade o caminho demorava um pouco, mas depressa chegávamos a casa e já o jantar se estava a fazer.
Hoje, a casa que era do tio Manel - depois de muitos anos ao abandono - foi recuperada pela empresa e tornou-se num bar, que cheguei a frequentar. Dos jardins dele nem sombra porque o terreno foi dividido para passar uma estrada.

Hoje o tio Manel não está entre nós, mas fica a memória de ter passado connosco muitas consoadas, num ritual anual que nunca me cansei que acontecesse. Mas em cada história com ele, fica a memória daquele sorriso de um velho de boina que gostava muito de nós.

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