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CARTEIRISTAS ESTÃO A ACABAR. QUEM NOS ROUBA HOJE? Parte 2

por Manuel Joaquim Sousa, em 28.07.14

"Porém, aos olhos da justiça e até da sociedade, o Pedrinho é mais criminoso, arrisca-se a um julgamento rápido e a uma pena de prisão pesada, enquanto que os carteiristas modernos fintam a justiça e facilmente se inocentam perante a opinião pública – são bons samaritanos."

 

O Pedrinho era um jovem que andava sempre com um ar estranho. Tinha um certo ar de quem tomava conta de toda a gente como que à procura de alguma coisa importante para agarrar. O Pedrinho já era conhecido por muitos como o maior carteirista da zona. Por ser conhecido era um rapaz respeitador, pois só roubava quem era de fora daquela zona e aqueles que achava terem muito dinheiro – os outros que pareciam uns pobres ele tinha pena. Tinha uma capacidade de mestre. Ninguém dava por nada. Os seus dedos entravam com uma rapidez nos bolsos dos casacos ou nas carteira abertas como um piscar de olhos. Já eram anos e anos de profissão. Eram muitas as técnicas de assalto. Por incrível que pareça, nunca as pessoas se aperceberam na hora que eram roubadas. Das carteiras que roubava, fazia questão de deixar os documentos visíveis em algumas vitrinas com publicidade ou mesmo junto aos editais da junta de freguesia – achava ser a melhor forma de entregar alguma coisa a quem roubou.

Com o passar dos anos, o Pedrinho ia-se queixando das dificuldades em roubar porque as pessoas praticamente já não trazem dinheiro na carteira – só cartões e talões, que de nada lhe servem. Os anos de escola alguma coisa lhe ensinou, mas nunca lhe deu qualquer valor e hoje arrepende-se disso mesmo porque poderia ter investido numa outra forma de ganhar a vida, mesmo que a roubar. Os carteiristas da atualidade ganham muito dinheiro, mas não a roubar pequenas carteiras de gente comum, ou apenas de uma meia dúzia. São profissionais licenciados e doutorados que chegam à alta finança, dos negócios especulativos. Sim, esses são os carteiristas. Alguns com nomes de grandes famílias. Para esta profissão já é digno de classe, como se “brincassem aos pobrezinhos”.

O Pedrinho se aproveitasse os estudos e a sua veia de sacar carteiras, hoje estaria a vestir bons fatos, usaria boa marca de charuto, teria um carro topo de gama e até motorista. Poderia até negociar e preparar os seus assaltos durante almoços em locais de luxo. Certamente que não atuaria sozinho, mas teria toda uma equipa de pessoas a quem entregaria todo o dinheiro para seguir viagem aos paraísos offshore.

Os carteiristas de hoje são de topo, negoceiam milhões e não meros cêntimos ou euros como o Pedrinho que a esta hora abre a mão para contar a meia-dúzia de moedas que conseguiu ao fim de uma manhã, para poder comer a sua sopa.

Porém, aos olhos da justiça e até da sociedade, o Pedrinho é mais criminoso, arrisca-se a um julgamento rápido e a uma pena de prisão pesada, enquanto que os carteiristas modernos fintam a justiça e facilmente se inocentam perante a opinião pública – são bons samaritanos.

O Pedrinho terá sempre a sua vida por um fio e será sempre o carteirista mais conhecido da zona.

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