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BLOGUE DO MANEL

A vida tem muito para contar e partilhar com os demais. Esta é a minha rede social para partilhar histórias, momentos e pensamentos, a horas ou fora de horas, com e sem pés nem cabeça. Blogue de Manuel Pereira de Sousa

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A vida tem muito para contar e partilhar com os demais. Esta é a minha rede social para partilhar histórias, momentos e pensamentos, a horas ou fora de horas, com e sem pés nem cabeça. Blogue de Manuel Pereira de Sousa

ALGUÉM ME ARRANJA UM GABINETE?

Manuel Pereira de Sousa, 19.11.14

Vi na televisão, mas li com mais detalhe no site do Observador, algo que pode indignar muitos dos portugueses e que moralmente é pouco aceite num país em crise e com enormes dificuldades de controlo da despesa pública. O Sr. Presidente da Republica vai para o Convento de Alcântara depois de deixar a Presidência da Republica, em 2016. Bem, dito assim até podem pensar que vai para um tempo de silêncio e clausura - isso já vive no Palácio de Belém (precisamos tanto que falasse e estivesse ao lado dos portugueses e só ouvimos silêncio). Na realidade trata-se do novo gabinete onde vai trabalhar (em quê?). Pelos vistos, as obras vão avançar. Até este ponto nada de anormal; porém, estamos perante obras que podem chegar a 475 mil euros e... e pago pelos contribuintes.

Sim, vamos todos pagar as obras e posteriormente o funcionamento do novo gabinete. Ainda que se trate de Património do Estado e que merece ser recuperado, a finalidade das obras é questionável. Eu fiquei espantado. Segundo a Presidência da República terá sido uma decisão pela opção mais funcional e económica entre as várias opções existentes - 475 mil Euros. A mais económica? Quando se trata de obras para um gabinete que ocupa 10% do Convento?
E baixar a despesa do Estado para aliviar a carga fiscal dos Portugueses?

Para além do gabinete, o Estado pagará a manutenção do mesmo, uma secretária, um assessor, um carro, um motorista e combustível. Coisa pouca? Parece que sim.
E baixar a despesa do Estado?

Trata-se de um costume dos Ex-Presidentes da Republica. Segundo o Observador, Jorge Sampaio, instalado na Casa do Regalo, teve obras de intervenção que ficaram por 750 mil Euros, há dez anos. Mário Soares encontra-se em instalações cedidas pela Câmara Municipal de Lisboa e recebe da Presidência um valor para pagamento de despesas que não é especificado. Ao que se sabe, Ramalho Eanes é o mais contido nas despesas, contenta-se com um andar arrendado.

Os três ex-Presidentes da Republica custam aos cofres do Estado um milhão de Euros. Sim. Um milhão de Euros. Onde estão as preocupações em conter a despesa pública?

Acredito que muita gente ao ler o artigo ou ao ouvir a notícia na televisão tenha sentido alguma revolta - comparando com as dificuldades que atravessa no seu dia-a-dia. Há muita preocupação com os gastos das pensões de reforma ou com os pagamentos dos salários. Porém, vejo pouca preocupação com estas despesas, que não beneficiam propriamente a recuperação do património, mas alimentam os caprichos - se assim não fosse, os locais não eram recuperados e ficariam ao abandono.

Será que quando terminar o meu mandato como deputado na Assembleia Municipal também terei direito a um gabinete para trabalhar ou será que a empresa para quem trabalho, há vários anos, me pode oferecer como presente um gabinete como reconhecimento pelo meu trabalho?

Alguém me arranja um gabinete? Mas, não um qualquer...

SOMOS OS ETERNOS CULPADOS PELO COLAPSO DO BES E DA PT?

Manuel Pereira de Sousa, 25.10.14

O que está a acontecer com o Grupo PT é aterrador para a economia portuguesa e uma confirmação: durante muitos anos a imagem de empresas sólidas era apenas uma imagem de fachada, onde se escondia o pior da economia.
Isto explica o que se passa com a economia do país. Este caso explica porque chegamos a este ponto. Quando durante tanto tempo andaram a culpar os portugueses por terem gasto mais do que deviam e que lhes era permitido, sabemos bem que por detrás desta teoria – usada só para nos sacrificar com mais cortes, impostos e dificuldades – estava uma bolha sob pressão que mantinha os grandes grupos à tona da crise.

Ao comum dos portugueses, como eu, que vem assistindo ao evoluir da situação do país para uma situação cada vez mais precária e sem acreditar muito que existe uma luz ao fundo do túnel, ficamos à espera das consequências futuras do colapso de um Banco e de uma Operadora, que eram os grandes senhores disto tudo. Vamos todos pagar o que está a acontecer. Sairá do nosso bolso. Quando sair do bolso será o governo a dizer que somos os culpados para justificar o motivo de termos de pagar.
O comum contribuinte, seja ele funcionário público ou privado, terá sempre as culpas de tudo o que acontece de mal à economia. Somos piegas – diz o nosso primeiro-ministro. Somos preguiçosos se criticamos o Orçamento de Estado – diz o mesmo senhor arrogante. Mas, não sabe o Senhor Primeiro-Ministro o quanto trabalham muitos portugueses para conseguirem ganhar a sua migalha para ter pão em casa e manter uma casa ou uma família de pé.

Sim. Seremos os eternos culpados. Assim nos passam a mensagem. E nós, bem comportados que somos, aceitamos o que estes cretinos nos fazem.

PAGAM TODOS PARA O NOVO BANCO

Manuel Pereira de Sousa, 10.08.14

Já referi neste espaço que a economia portuguesa sofre do Ébola há muito tempo. Na última semana o PSI20 caiu 7% acumulando perdas de 17% desde Janeiro deste ano. As crise no BES e todas as alterações que estão a decorrer na sua salvação fizeram-se sentir em perdas acentuadas nos restantes bancos – ainda que estejam numa situação aparentemente mais segura. BPI caiu 15,5%, Millennium BCP 17% e Banif 22%. São dados preocupantes. A banca portuguesa vale neste momento 1400 milhões de Euros. O empréstimo do Estado é de 3,9 mil milhões.

O Novo Banco – criado em tempo recorde, enquanto a restante banca descansava o seu fim de semana – precisa de uma injeção de dinheiro superior ao que se esperava e superior à almofada que o BES dizia existir de 2,1 mil milhões de Euros. Uma almofada que não dá conforto – é muito baixa.

A opção de se criar o Novo Banco - o lado bom do BES - e separar o lixo tóxico - que fica no mau banco – foi a solução que o Banco de Portugal criou como forma de salvar o que ainda resta do BES e para segurar os clientes. É a solução que o tempo dirá se boa se má. Alguma coisa tinha de ser feita rapidamente. Muito tempo já se perdeu com esta história.

Durante a semana que passou a comissão parlamentar permanente – se assim se chama – ouviu de Maria Luís Albuquerque esclarecimentos que não foram novidades perante o que já havia sido dito numa entrevista à SIC. Desde sempre reiterou que a decisão foi do Banco de Portugal, que o governo nada decidiu. Aquilo que a Sra. Ministra das Finanças disse foi que o governo “sacode a água do capote” e despe-se de todas as responsabilidades presentes e futuras dos acontecimentos. Por essa razão, o Sr. Primeiro-Ministro continuou as suas férias. O Governo dá assim a impressão de normalidade e de que o assunto é da economia privada. Errado. O Governo tem responsabilidades no assunto. Quem gere o dinheiro da Troika? O Governo. Quem vai emprestar 3,9 mil milhões ao Novo Banco? O Governo. Quem vai pagar parte do juros deste empréstimo? O contribuinte. Quem gere o que os contribuintes pagam de impostos e juros dos empréstimos da troika? O Governo. Concluindo: o Governo é responsável na gestão do caso do BES. Poderei ter cometido erros pelo meio do meu raciocínio de perguntas e respostas, mas é desta forma que a informação nos chega e é desta forma que faço a relação entre tudo.

O juro a ser pago pelo Novo Banco por este empréstimo é baixo, o que pode obrigar o Estado a pagar a diferença desse juro com o juro real aplicado pela troika. Significa isto que os portugueses terão de pagar através dos seus impostos uma boa parte para salvar a banca. É justo? Não, não é. Nem para os clientes como eu. Nem para os que não são clientes. Todos estarão a pagar por um prejuízo do qual não têm responsabilidades.

Mesmo que parte do dinheiro venha do tal fundo de resolução pago pela banca para estas situações criticas, não deixa de ser um imposto que cada cliente paga ao Estado através da Banca e a Banca vê neste fundo um investimento futuro para uma aquisição – o Novo Banco é esse investimento. Se esse investimento não fosse assim tão rentável não estariam agora interessados no reforço do fundo de resolução.

O Novo Banco pode nascer mais seguro. Há dinheiro fresco. Qual a garantia do seu sucesso? Se o pânico dos depositantes levar a levantamentos sucessivos? Deixa de ter clientes, dinheiro em caixa, deixa de ter valor comercial, crédito, deixa de conseguir pagar o empréstimo. O sucesso é incerto e há sempre o risco dos portugueses terem de carregar mais este prejuízo nas suas vidas e nas suas economias, independentemente do banco a que pertencem.

Há muitas interrogações que não se resolveram na criação do Novo Banco porque há bens e pessoas que podem ingressar no Novo Banco. Poderá não ser assim tão linear porque bens e imóveis a quem pertencem? Servem de garantia ao Novo Banco ou ao banco mau?

A distinção entre ativos para o banco bom e ativos tóxicos para o banco mau baseiam-se em quê? Se eu tivesse um ativo que ficasse no banco mau teria todo o direito de saber com que critério e poderia recorrer à justiça para um reclassificação desse ativo porque no fundo entraram como poupanças e com garantias. Assim se podem criar processos sucessivos de inúmeros clientes inconformados. Assim se pode contaminar o banco bom com prejuízos. Assim 3,9 mil milhões se podem tornar em muito pouco. Assim o banco mau se torna bom.

São inúmeras as interrogações e incertezas que os contribuintes gostariam de ver acautelados para sua segurança. São as explicações que todos têm direito já que todos pagarão mais um prejuízo com maior impacto que o BPN. São negócios de risco como aqueles que ditaram o fim do BES.

O ÉBOLA CONTAMINA A ECONOMIA E A OPINIÃO PÚBLICA.

Manuel Pereira de Sousa, 09.08.14

O vírus Ébola parece ter chegado a Portugal, muito antes dos recentes acontecimentos em África. Há muito que ele contamina a economia portuguesa, que a cada sinal de retoma cai de seguida por mais uma crise em alguma empresa que domina o sistema. Já o disse: a economia portuguesa é muito pequena e vacila quando uma das grandes empresas passa por um momento menos bons ou quando uma pessoa que era Dona Disto Todo cai em desgraça pública, pelos erros que cometeu alegadamente em favor de si próprio e da sua família santa.

Poderia dizer que já chega de tantos artigos sobre a história do BES e de Ricardo Salgado, mas sendo este um assunto que domina a economia do país, que interessa a todos os portugueses – não apenas aos clientes – e que a cada dia que passa tem cada vez mais contornos económicos e políticos, interessa sempre falar dele as vezes que forem necessárias. As opiniões que passam pela opinião pública são óbvias e todos concordam, mas são tão necessárias como a necessidade de nos lembrarmos sempre do assunto porque os segredos duraram tempos demais para nosso prejuízo. Um prejuízo que agora sai caro a todos.

Agora que “a corda rebentou” somos todos economistas de bancada e com créditos de opinião como se fizéssemos diferente do que fez o Governo, o Banco de Portugal, a CMVM ou a Justiça. Até poderíamos fazer porque todos tinham possibilidade de agir em tempo próprio. Porém, para quem está de fora a visão das coisas é sempre muito diferente daquela que se tem quando se está dentro - as circunstâncias do momento e os jogos de poder são fundamentais, determinantes e condicionam a movimentação das estratégias.

Prefiro criticar, mas sempre com a reserva de que essa critica vale o que vale perante a verdade dos factos e o calor do momento. Até porque seria sínico se dissesse que este assunto não me tem interessado. Tem todo o meu interesse pelas circunstâncias que envolve o meu dinheiro como cliente e como fiel contribuinte deste Estado.

Por vezes, somos “8 ou 80” – passivos demais ou extremistas. Corre nas vais. É a manifestação do vírus. Aquele que contamina a economia do país.

SALGADO - O POBRE

Manuel Pereira de Sousa, 08.08.14

Eles sabem fazer bem as coisas. São gente esperta. Quando alguém tenta apanhar alguma coisa já vai tarde. É o que dá para pensar quando vejo nas notícias que Ricardo Salgado não tem qualquer bem em seu nome – nem um carro. Aquele que era o Dono Disto Tudo transforma-se num pobre sem nada. Mesmo assim tem uma sala num hotel para trabalhar. Mesmo assim deve ter um motorista, uma casa onde viver e continua a alimentar-se. Não é caridade certamente. Sabem bem como colocar os seus bens a salvo de finanças, tribunais e de todos os que lhe possam cobrar pela gestão danosa que fez. Gestão danosa para os outros porque para si soube ter cuidados. O ex-Dono Disto Tudo agora deve rir de toda a “roda viva” em torno do banco e empresas do grupo, sem que um tostão do seu dinheiro sofra qualquer dano. Por vezes, há injustiças, mas é assim a vida…

EU TAMBÉM SOU CLIENTE DO BES

Manuel Pereira de Sousa, 04.08.14

Sou cliente do BES. Mas, daqueles clientes bem pequenos, que olha para os seus tostões, enquanto os acionistas olham para os milhões que acumularam durante anos. Sinto preocupação com o que se está na passar no banco em que confiei desde sempre as minhas parcas economias. A banca é assim mesmo. Há aqueles que entregam o pouco que conseguem poupar em vez de guardar no colchão e aqueles que investem o dinheiro em investimentos de risco, investimentos em dívida com o objectivo de ganhar muito mais. Por vezes, fico confuso: quem gere melhor o dinheiro? Eu que me fico com uma conta a prazo ou pessoas experientes, como os gestores da PT, que deixaram 700 milhões de Euros escaparem?

Apesar de cliente e preocupado com as minhas economias - ainda que seguras pelo fundo de garantia do Estado - compreendo os demais que são contra qualquer intervenção do Estado no banco, acabando os portugueses por pagarem um prejuízo que não lhes é devido – aconteceu com o BPN. Se o Estado investir dinheiro no banco para tapar os mais de 3 mil milhões de euros de prejuízo significa que esse dinheiro vai faltar noutras áreas essenciais ao país e aos cidadãos. Receio que o Estado possa negociar e vender o “BES bom” e ficar com o “BES mau”.

Quem deveria pagar o buraco financeiro e os respetivos prejuízos às pessoas lesadas seriam os investidores que utilizaram as entregas dos depositantes para investimentos tóxicos, alguns sem qualquer autorização dos clientes. Quem deveria pagar seriam os que financiaram empresas do grupo GES – grandes buracos que serviram para alimentar a família.

A economia portuguesa não pode ficar dependente da banca e dos seus prejuízos. Os portugueses não têm que sentir os impostos subirem ou não têm que carregar penosamente para o seu futuro os erros dos abutres. A justiça teria que ser mais penosa ou estes casos estarão sempre a suceder.

Aconselho a leitura de um artigo muito interessante, de
Raquel Varela.

O FIM DE UM REGIME

Manuel Pereira de Sousa, 01.08.14

Num verão pouco quente em relação a incêndios florestais (ainda bem), há outros incêndios graves a marcar os acontecimentos e as notícias - o fim de um regime. 
 
"O Fim De Um Regime" é o título de uma reportagem, da autoria de Pedro Santos Guerreiro, na Revista do Semanário Expresso. O trabalho é muito interessante para tentar compreender o pouco que se conhece acerca do império Espírito Santo - BES e empresas GES. Apenas o que se conhece porque há sempre novidades a surgirem a público cada vez mais graves, reveladoras das entranhas do poder e da governação de um império que mexe muito com a estabilidade da economia portuguesa. A economia portuguesa mostra-se débil quando algo deste género acontece porque as poucas empresas de topo são detentoras da maior parte da riqueza nacional e a sua debilidade é a debilidade de tudo o resto, mesmo que não dependendo diretamente desse império. 

Serei sempre muito pequeno para conseguir compreender este momento; até mesmo para tecer qualquer julgamento credível do que é justo ou injusto e do que deveria acontecer. Tenho a dizer que tudo isto me choca. Como é possível que, nos tempos atuais, diversas empresas e entidades estiveram alheias a tudo isto, mesmo aquelas que investiram de olhos fechados em dívidas que são difíceis de liquidar (caso da PT)? Custa-me a acreditar em casos de gestão puramente danosa e alheia aos inúmeros especialistas. 
 
Quando me refiro à reportagem do Expresso, quero demonstrar que existiu um órgão de comunicação social que desde muito cedo se preocupou com o caso. Ainda me lembro das primeiras investigações, há anos, em que o BES declarou publicamente cortadas todas as relações comerciais e publicitárias com a Impresa. Enquanto isso, conta-nos o Expresso, alegadamente Ricardo Salgado investia em publicidade nos jornais como forma de os alimentar numa crise publicitária gerada pelas quebras de receitas. Férias e passeios a jornalistas para as conferências do grupo à custa do grupo. Sei lá se mais alguma coisa. 
 
Enquanto Ricardo Salgado era o DDT - Dono Disto Tudo - jamais alguém ousou alguma coisa contra. O silêncio foi para a família Espírito Santo ouro para a ascensão e construção da queda. Agora que Ricardo Salgado saiu do BES e da crise que se instalou na família, todos o atacam de todo o lado. A fera deixou de ser perigo e pode agora ser atacada e vaiada por aqueles que deixaram de ser ameaçados ou até alimentados de forma promiscua. 
 
Custa-me saber que além daqueles que depois da ascensão ficam em desgraça, há uma série de outras pessoas que têm a sua vida em risco e que nada sabem destes negócios e apenas cumprem o seu trabalho. Em relação a esses poucos se preocupam porque onde os abutres poderem buscar o dinheiro enquanto há e onde há, a raia pequena ficará sempre a penar num futuro incerto.

CARTEIRISTAS ESTÃO A ACABAR. QUEM NOS ROUBA HOJE? Parte 2

Manuel Pereira de Sousa, 28.07.14

"Porém, aos olhos da justiça e até da sociedade, o Pedrinho é mais criminoso, arrisca-se a um julgamento rápido e a uma pena de prisão pesada, enquanto que os carteiristas modernos fintam a justiça e facilmente se inocentam perante a opinião pública – são bons samaritanos."

 

O Pedrinho era um jovem que andava sempre com um ar estranho. Tinha um certo ar de quem tomava conta de toda a gente como que à procura de alguma coisa importante para agarrar. O Pedrinho já era conhecido por muitos como o maior carteirista da zona. Por ser conhecido era um rapaz respeitador, pois só roubava quem era de fora daquela zona e aqueles que achava terem muito dinheiro – os outros que pareciam uns pobres ele tinha pena. Tinha uma capacidade de mestre. Ninguém dava por nada. Os seus dedos entravam com uma rapidez nos bolsos dos casacos ou nas carteira abertas como um piscar de olhos. Já eram anos e anos de profissão. Eram muitas as técnicas de assalto. Por incrível que pareça, nunca as pessoas se aperceberam na hora que eram roubadas. Das carteiras que roubava, fazia questão de deixar os documentos visíveis em algumas vitrinas com publicidade ou mesmo junto aos editais da junta de freguesia – achava ser a melhor forma de entregar alguma coisa a quem roubou.

Com o passar dos anos, o Pedrinho ia-se queixando das dificuldades em roubar porque as pessoas praticamente já não trazem dinheiro na carteira – só cartões e talões, que de nada lhe servem. Os anos de escola alguma coisa lhe ensinou, mas nunca lhe deu qualquer valor e hoje arrepende-se disso mesmo porque poderia ter investido numa outra forma de ganhar a vida, mesmo que a roubar. Os carteiristas da atualidade ganham muito dinheiro, mas não a roubar pequenas carteiras de gente comum, ou apenas de uma meia dúzia. São profissionais licenciados e doutorados que chegam à alta finança, dos negócios especulativos. Sim, esses são os carteiristas. Alguns com nomes de grandes famílias. Para esta profissão já é digno de classe, como se “brincassem aos pobrezinhos”.

O Pedrinho se aproveitasse os estudos e a sua veia de sacar carteiras, hoje estaria a vestir bons fatos, usaria boa marca de charuto, teria um carro topo de gama e até motorista. Poderia até negociar e preparar os seus assaltos durante almoços em locais de luxo. Certamente que não atuaria sozinho, mas teria toda uma equipa de pessoas a quem entregaria todo o dinheiro para seguir viagem aos paraísos offshore.

Os carteiristas de hoje são de topo, negoceiam milhões e não meros cêntimos ou euros como o Pedrinho que a esta hora abre a mão para contar a meia-dúzia de moedas que conseguiu ao fim de uma manhã, para poder comer a sua sopa.

Porém, aos olhos da justiça e até da sociedade, o Pedrinho é mais criminoso, arrisca-se a um julgamento rápido e a uma pena de prisão pesada, enquanto que os carteiristas modernos fintam a justiça e facilmente se inocentam perante a opinião pública – são bons samaritanos.

O Pedrinho terá sempre a sua vida por um fio e será sempre o carteirista mais conhecido da zona.

CARTEIRISTAS ESTÃO A ACABAR. QUEM NOS ROUBA HOJE? OS ABRUTES SANTOS!

Manuel Pereira de Sousa, 26.07.14

Lá vão os tempos em que o Sr. João corria para casa, vindo do trabalho, com um molho de notas que o seu patrão lhe deu pelo mês duro de trabalho. Era pouco dinheiro como a generalidade dos portugueses ganhava. Chegava a casa e guardava o dinheiro debaixo do colchão. Primeiro contava todas as notas - mais uma vez, agora acompanhado da sua mulher, para terem a certeza do dinheiro abençoado. Aproveitava o momento e fazia uma divisão com os elásticos de borracha para as despesas certas do mês – renda de casa, luz e água -, outra parte para despesas incertas ou do momento e uma última “migalha” para entregar no banco, onde estava uma pequena poupança.

Cada vez que o Sr. João ia à rua levava o seu porta moedas. Ainda que com poucos tostões, estava sempre vigilante e não tirava os olhos das pessoas que se aproximavam, sobretudo aqueles com ar suspeito. No elétrico apertava o bolso com a mão, para que nenhum larápio ou carteirista lhe roubasse o porta moedas num ato de dois dedos.
A sua mulher guardava o dinheiro – fossem as moedas ou as notas – bem dobrado num lenço, que colocava nos bolsos falsos do forro da saia ou no meio dos seios preso ao soutien. Assim se garantia a segurança dessa cambada de carteiristas que pululavam pela cidade.

Nessa altura, já se dizia que o mundo estava perdido e que o país estava de mal a pior com essa “ladroagem”. Pelos vistos assim continua, mesmo com a passagem do tempo.

Hoje o Sr. João é mais velho e tanto ele como a sua esposa já evoluíram para o cartão multibanco, que usam para evitar os carteiristas. Os seus filhos já fazem parte da geração do dinheiro de plástico sob a forma de cartões de crédito, multibanco e afins; são da geração do homebanking e das aplicações no smartphone.

Esta evolução está a levar à extinção dos tradicionais carteiristas da nossa praça, que agora só conseguem sobreviver à custa dos turistas que ainda trazem dinheiro consigo. Se hoje alguém for assalto por um carteirista pouco perde e ele pouco ganha – fica a chatice de ter de se tirar nova documentação e novos cartões de plástico.

 

Os carteiristas do nosso tempo, passaram para o online. Chamam-se hackers que tentam aceder a códigos dos utilizadores com e-mails estranhos e páginas dos bancos falsas – nunca digite o seu código de acesso na totalidade, nem responda aos e-mails que solicitem os seus dados. Eis a nova forma de roubar. Uma responsabilidade para quem tem as contas e para os bancos, que têm de estar atentos a estes novos carteiristas. Mas, até aí estão com azar. O português comum já voltou a poupar mais; porém, as suas contas continuam vazias e as poupanças pouco rendem porque os bancos pouco valor querem dar ao dinheiro. Existe sim, à disposição dos carteiristas, muitos créditos para liquidar. Há carteiristas que gostam de comprar divida incerta, mas não o carteirista da nossa praça, apenas o que migrou para grande porte e constituiu empresas e sociedades para esse fim. Enredos complicados.

O Sr. João não quer saber destas modernices mesmo que os senhor do banco lhe envie as senhas, lhe diga quais as vantagens na manutenção de conta e mesmo nos benefícios de compra a crédito. O Sr. João ainda tem saudades dos velhos tempos em que corria para casa com o ordenado no bolso para contar com a mulher. Nos tempos que correm esse pode voltar a ser o meio mais seguro, para evitar as famílias de abrutes santos.

COISAS QUE GOSTAVA DE PERCEBER - BARES E COPOS

Manuel Pereira de Sousa, 13.07.14

Por vezes, gostava de perceber qual o motivo para num determinado bar existir diferença de preços no mesmo produto, só porque se servem em mesas diferentes ou porque uma mesa fica dentro do bar e a outra mesa fica do lado de fora - apenas se desce um degrau ou mesa está a um metro de distância da outra. Ainda que seja normal numa esplanada o custo ser mais elevado que no interior, não percebo porque razão assim seja. Da mesma forma, que me custa a entender que haja distinção de preço em diferentes horas do dia.

Felizmente que crise fez com que estas discrepâncias tenham vindo a diminuir para se cativar clientes - ainda assim continuam e existir. Não é por se viver em tempos de abundância ou de crise, que este funcionamento tenha de ser diferente.