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ESTAREMOS NÓS DEPENDENTES DA TECNOLOGIA COMO O JOÃOZINHO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 29.12.14

O João está no seu silêncio habitual. Sentado no banco de trás do carro dos seus pais mantem o seu olhar preso ao tablet que traz em mãos, a jogar um qualquer jogo que vem instalado no aparelho. Ele e os seus pais estão de regresso a casa depois de um fim-de-semana na casa dos avós.
- Falta muito para chegar? – perguntou ao pai, que vai a conduzir.
- Mais uma meia-hora e chegamos – responde o pai que seguia na sua maior das calmas a aproveitar o sol de final de domingo.
- Ainda falta meia-hora! Nunca mais chegamos; já disseste isso há pouco.
- Pois disse; nem passaram cinco minutos desde a última vez que me questionaste; qual é a pressa?
- Estou a ficar sem bateria para continuar o jogo; estou a precisar de fazer uma atualização e preciso de ligar ao wifi.
- Mais uma vez gastaste a internet toda que tinhas no cartão?
- Claro; na casa dos avós não há wifi e tive que ter a internet do cartão ligada;
- Desligavas o tablet e aproveitasses os poucos momentos com os teus avós.
- É uma seca na casa dos avós não ter net; não sei como conseguem; eu não conseguia.
- Não conseguias porque estás habituado às tecnologias desde pequeno e porque nós temos possibilidade de fazer as tuas vontades quando tiras boas notas na escola; no nosso tempo não havia nada disso; e no teu, mãe, havia? – questionou o pai para a esposa que ia ao lado a olhar para a paisagem.
- Já era bem bom quando, na tua idade conseguia ter aquela boneca que as minhas amigas também tinham ou quando conseguíamos aquele jogo de pintura se não desse erros nos ditados de português.
- Que seca; no vosso tempo não havia nada disto?
- Não – responderam os pais em conjunto.
- Quando os avós vos levavam a passear como passavam o tempo da viagem?
- Apreciava a paisagem como agora – disse a mãe.
- Ou então trazíamos os livros de banda desenhada ou os primeiros calhamaços com histórias mais sérias para ir lendo de tempos a tempos.
- Nem um jogo?
- Não – respondeu o pai.
- Já experimentaste olhar lá para fora para apreciar o sol dourado deste fim de tarde e ver como ele doura o rio e as casas lá em baixo? - Que é que isso interessa? Se calhar é por isso que nunca mais chegamos a casa; o pai vai tão devagar.
- Pois vou. Não é todos os dias que eu e a mãe e tu partilhamos um momento tão calmo; durante a semana andamos sempre nas pressas, agora queremos ter o nosso tempo fora de casa e aproveitar para apreciar a paisagem e o sol.
- Então apreciem; a mim isso não me diz nada.
- Tu que és tão moderno – enervou-se o pai – sabias que as pessoas aproveitam estes momentos, esta paisagem, para fotografar e para partilhar nas redes sociais?
- Isso não é para mim; já basta fazer likes nas fotografias que as miúdas da minha turma publicam; mas só faço os likes para elas não me chatearem a cabeça; falta muito para chegar?
- Falta – resmungou o pai -; se estás sem bateria paciência.
- Tu é que és o culpado porque não trouxeste o teu carregador de isqueiro; agora não posso continuar para avançar para o nível seguinte; ainda por cima tenho que enviar pedidos aos meus amigos do facebook porque preciso deles para subir mais níveis.
- Lamento, mas vais ter de esperar – disse o pai.
- Oh! – desesperou o miúdo.
- Vai fazer birra o menino vai? Vais ter de ter paciência – disse-lhe a mãe.

 

O João ficou “embufado” porque os pais estavam a dificultar a sua vida de dependência das tecnologias. Este rapaz é um dos que pertencem à geração Z, nascidos depois de 1997, que não conhecem outras realidades para além da virtual. A dependência de tecnologia parece ter ultrapassado estratos sociais e tornou-se transversal, apesar de alguns produtos serem proibitivos às bolsas dos pais; porém, existem alternativas no mercado mais baratas que fazem o efeito para o que as crianças necessitam.

 

A era digital está a transformar o mundo a cada instante e a sua evolução é extremamente rápida que nem dá tempo aos consumidores adaptarem-se a um produto – tablet, pc, smartphone – que logo existe um ainda melhor e que se torna no desejo de quase todos. Em 2012, cerca de 85% dos lares portugueses já tinham acesso à internet e a proliferação dos pacotes fixos dos diversos operadores, que antes eram móveis, provocou esta revolução digital, quando se pensava que o que era fixo tinha os seus dias contados. Os jovens são sem dúvida aqueles que estão a provocar esta revolução digital porque só conhecem o mundo desta forma e são eles que também criam o consumo nos seus pais, que tentam manter-se atualizados e que até são seduzidos pelos seus filhos a experimentar. Porém, existe o problema cada vez maior em controlar o que os miúdos fazem na rede, os riscos que isso pode trazer para a sua educação ou comportamento. É do consenso dos pais que não podem deixar os seus filhos muito tempo ligados às redes sociais, nos chats ou na internet porque sabem o vicio que isso provoca e os riscos consequentes; afinal a veracidade do que se lê na rede é muito questionável. Os operadores têm aplicações que ajudam os pais a controlar os filhos, seja no que estão a fazer na rede, seja com quem estão a comunicar por chamada e por telefone e até definir horas em que podem utilizar os seus smartphones, mas ainda assim todo o cuidado é pouco. Sem dúvida que a rede e esta versatilidade de equipamentos apetrechados com as mais diversas aplicações tem muito de bom para a sociedade e para o seu dia-a-dia; todavia a dependência faz esquecer de outros prazeres da vida, de outras coisas que as gerações anteriores valorizavam e que hoje são vistas como antiquadas.

O fascínio pelo VHS – quando se podia gravar aqueles filmes que davam tarde –, pela cassete – gravar música em cima de música e desencravar as fitas que saíam -, o vinil – que voltou a ser moda - e as disquetes – que comprava às dúzias – estão cada vez mais distantes das pens, das clouds, do mp3, do streaming, das boxs que gravam e que puxam atrás. Ainda me lembro de quando, já adulto, tive o meu primeiro telemóvel; comunicava com os amigos por toques para não pagar e da maravilha que foi quando surgiram os primeiros sms gratuitos. Agora temos os messengers do facebook, vibers, wattsapp, etc. Os jovens da geração do João são cada vez mais multitask, mas ao mesmo tempo não conseguem absorver com profundidade todo o conhecimento a que têm acesso – é tudo muito superficial; os assuntos deixaram-se de se estudar a fundo. Ler um título nas redes sociais de algo que aconteceu merece logo um like, uma série de comentários sem bases, sem que se tenha lido em detalhe o que aconteceu. Dá a sensação que quanto mais acesso se tem à informação, mais se deixa escapar.

 

Os jovens já preferem uma pesquisa no Google para fazer um trabalho em alternativa às velhas enciclopédias que nos obrigavam a copiar dezenas de páginas, que agora se faz com um copy paste e que permitem ter a mesma avaliação final, mesmo que não se tenha lido o que foi colado no trabalho. Até que ponto estarão preparados os professores para lidar com esta geração Z? Quando estes conseguem rapidamente mostrar que são mais ágeis na informática e que conseguem com uma aplicação nos markets resolver todas as questões e problemas que o professor manda para trabalho de casa. Mas, mais que os professores, como consegue os sistema educativo fazer frente a uma evolução que se está a impor sem que se esteja a adaptar às novas realidades dos alunos, do conhecimento e da própria forma de ensinar? Tudo isto merece uma boa discussão porque a tecnologia continuará a aumentar, melhorar e a estar cada vez mais acessível ao comum dos habitantes deste planeta como de pão para a boca.

 

Finalmente o João e os pais chegaram a casa. O João saiu com rapidez para chegar à porta do apartamento porque lá já apanhava wifi de sua casa para o “pauzinho” de bateria que ainda tem para gastar – nem se preocupou em trazer o saco com as suas coisas. O tablet estava em perigo de vida.

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2014 FOI UM BALDE DE ÁGUA FRIA!

por Manuel Joaquim Sousa, em 28.12.14

Em fim de ano. É tempo de balanço. Foi bom ou mau? Foi assim assim? Sei lá. Foi um ano em que levei um balde de água fria. Porquê? Porque de um ano que poderia ser normal tornou-se num ano cheio de casos mirabolantes que não estaria à espera - queda do Império Espírito Santo, a prisão de Sócrates, a prisão de um diretor de uma Polícia. Para além disso, começo a constatar que cada vez mais a minha alma lusa está entregue a um Estado chinês - falta vender a cultura ou a língua. A saída limpa da Troika, a descida dos juros, dos preços do petróleo, a pequenina recuperação da economia, passou completamente ao lado dos portugueses; não se fez sentir tão pesados que foram os outros acontecimentos, que vieram depois do mês de Agosto. Não posso esquecer de referir o caso Citius e a colocação de professores, que se destacaram pela negativa.

É necessário acreditar que o amanhã ou o próximo ano seja melhor - assim espero. Pesa-me que se esteja a pensar que vivemos uma crise institucional e que isso possa perdurar durante os próximos anos - ainda que não seja defensor dessa teoria.

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PODE O NATAL SER TODOS OS DIAS?

por Manuel Joaquim Sousa, em 27.12.14

Afinal o Natal já foi embora. Passou rápido. Tudo voltou ao normal. Muitos com um peso maior na consciência por terem comido e bebido em demasia numa festa em que o consumo é exagerado e que chega a ser fora do razoável. No Natal somos mais sensíveis. Olhamos com piedade para os outros, sobretudo para os que mais sofrem. Estamos mais dispostos a dar esmola. Estamos mais sensíveis para causas sociais. Alimentamos uma caridade sazonal. Deveria ser assim? Não. Se o Natal é sempre que o Homem quer, então deveria ser Natal todos os dias. Natal sem necessidade dos presentes materiais que nos fazem correr de loja em loja. Natal onde fossemos realmente solidários para com os outros, contribuindo dentro dos possíveis para as causas sociais. Dizem que há cada vez mais pessoas que detestam o Natal. É pena. Mas isto está longe de acabar com o Natal. Podem os que não gostam fazer algo de diferente para gostarem mais e para que os outros lhes sigam o exemplo na prática que deve ser esta festa. O Natal vive do sonho, desejo, esperança. Vamos sempre a tempo de fazer um Natal diferente.

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O filme "The Interview", Uma Entrevista de Loucos, poderá ser o maior sucesso de bilheteira dos últimos tempos. Poderia ser mais um filme de sátira como muitos outros, mas dada a polémica dos últimos dias, será diferente - os acontecimentos aguçaram a curiosidade das pessoas. A Sony Pictures terá sido alvo de um ataque informático com origem na Coreia do Norte como forma de impedir a estreia da comédia - uma sátira ao governo da Coreia do Norte e à ditadura que se vive naquele país.

A Coreia do Norte não podia ter pior reação ao filme porque o que poderia ser um filme de pouco sucesso tornou-se apetecível, que tornará a ditadura de Kim Jong-Un ainda mais ridícula aos olhos do mundo. Ridícula são também as ameaças que este país tem feito à empresa Sony Pictures e mesmo aos EUA, como se fossem capazes de impedir a estreia do filme. O regime norte-coreano vive muito longe da realidade dos nossos tempos; uma era de globalização em que grande maioria da população tem acesso à rede e nela tudo partilha com rapidez impossível de parar. A película está nos cinemas, mas na rede já é possível ver o filme. Não há ataque, ameaça que impeça a exposição do regime, até porque todos bem conhecemos como se vive no interior da Coreia do Norte e sabemos o ridículo que são as suas normas. Kim Jong-Un poderá controlar a liberdade de expressão no seu país para manter o seu patético regime, mas nunca conseguirá faze-lo à escala global porque a liberdade de expressão não se combate com mísseis e ataques cibernéticos.

Espero que "The Interveiw" seja o maior sucesso de bilheteira e espero também eu ter a oportunidade de ver o filme.

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AS CALORIAS DO NATAL

por Manuel Joaquim Sousa, em 25.12.14

O Natal é definitivamente cheio de calorias. Enquanto vejo gente a correr de um lado para o outros atrás das últimas compras, num trânsito infernal na cidade em hora de ponta permanente, decido tomar o meu café descansadamente numa pastelaria ao pé de casa - preferi não deixar as coisas para a última da hora. Estou sentado na pastelaria que hoje está virada do avesso. Metade daquele espaço e metade das mesas estão organizadas de forma diferente, onde são colocados dezenas de Bolos-rei e pão-de-ló. O ritmo de venda é acelerado porque a mesa está constantemente a ficar vazia, enquanto um funcionário tem como trabalho encher para ficar composta. 
Sem dúvida que esta é uma festa bastante calórica, sem esquecer as inúmeras iguarias que fazem parte da tradição. Depois desta época de festividades veremos inúmeras pessoas determinadas a fazer desporto, seja nos ginásios ou até ao ar livre para compensar as calorias ganhas nestes dias - o arrependimento, o sentido de culpa cresce nas pessoas depois de comer uma rabanada bem recheada ou aqueles mexidos bem açucarados. Ainda bem que o Natal é apenas uma vez por ano ou então seria um desastre.

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NO NATAL LEMBRO-ME SEMPRE O TIO MANEL

por Manuel Joaquim Sousa, em 23.12.14

Já se passaram tantos, mas tantos anos e a memória vem sempre à cabeça nesta época natalícia. Lembro-me do Tio Manel. Era um homem que já não está entre nós há quase vinte anos. Conheci-o já com longa idade. Dele existe a memória de ter sempre um sorriso, que marca a sua cara com as fortes rugas de expressão e aquela boina preta, que comprara na Galiza - ainda naqueles tempos em que as fronteiras eram fechadas. O Tio Manel era o padrasto da minha mãe. Vivia sozinho numa casa pequena, muito velha. Era o fiel de uma empresa de hotéis lá na terra e, se bem me lembro, tinha como trabalho cuidar dos jardins, limpar o parque que existia numa das unidades. A sua casa dentro dos terrenos desses hotéis tenha um canteiro de plantas a toda a sua volta até à entrada que ele tão bem cuidava.
Eu e o meu irmão tínhamos por hábito em dia de consoada ir buscar o tio Manel para vir jantar a nossa casa - o tradicional bacalhau com batatas cozidas e couves. Saímos de casa ao fim da tarde e depressa chegávamos a sua casa que ficava a poucos metros da nossa; eram 15 minutos no nosso passo apressado de traquinas, mas que conseguíamos fazer em cinco minutos porque a meio do caminho saltávamos o muro e descíamos como verdadeiros alpinistas habituados a fazer aquele caminho de tantas as vezes que íamos a casa do Tio Manel. Tínhamos de ir cedo porque gostávamos de conversar com ele e, além disso, era necessário convencê-lo a vir jantar connosco porque tinha na ideia que não queria chatear ninguém. Não chateava. É certo que, às vezes, bebia um copito a mais, mas como eu gostava tanto dele, ficava todo contente em ter o Tio Manel lá em casa. Depois de o convencermos, já a noite tinha caído, lembro-me de que apagava a fogueirinha que acendia dentro de casa para se aquecer, vestia um casaco já muito antigo, de tecido grosso, que mais parecia fazenda, punha a boina na cabeça, apagava a luz e saíamos a caminho de casa. Claro que com a idade o caminho demorava um pouco, mas depressa chegávamos a casa e já o jantar se estava a fazer.
Hoje, a casa que era do tio Manel - depois de muitos anos ao abandono - foi recuperada pela empresa e tornou-se num bar, que cheguei a frequentar. Dos jardins dele nem sombra porque o terreno foi dividido para passar uma estrada.

Hoje o tio Manel não está entre nós, mas fica a memória de ter passado connosco muitas consoadas, num ritual anual que nunca me cansei que acontecesse. Mas em cada história com ele, fica a memória daquele sorriso de um velho de boina que gostava muito de nós.

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A NOITE MAIS LONGA

por Manuel Joaquim Sousa, em 21.12.14

Dizem que esta é a noite mais longa do ano. Também da História. Serão necessários milhões de anos para que este fenómeno aconteça. Impressionante que o mundo nos brinde a cada ano com coisas únicas que mais tarde podemos recordar - eu vivi a noite mais longa da História. Porém, estes acontecimentos passam ao lado de muitos. Esta é uma noite como todas as outras - terá mais uns minutos apenas. O Homem precisa de valorizar estes acontecimentos únicos para que a sua vida tenha outro interesse. São as nossas prioridades que nos desligam do fascínio que o Universo nos oferece. Assim esquecemos as maravilhas com que somos contemplados e que nos podem fazer mais felizes e mais interessantes.

 

É certo que o conceito de noite mais longa do ano pode variar muito. Pode ser a metáfora tantas vezes usada quando pretendemos descrever a noite em que algo de muito importante aconteceu nas nossas vidas. A noite mais longa do ano - aquela em que se quebraram todas as regras; aquela que nos fez viver intensamente como se fosse a última das nossas vidas; aquela que perdurou para além do nascer do sol; aquela que marcou a memória para sempre. O conceito pode ser diverso. Mas esta noite está para lá de qualquer metáfora da vida: é efetivamente a noite mais longa da História.

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SILÊNCIO

por Manuel Joaquim Sousa, em 21.12.14

O silêncio. Esta é uma noite em que o silêncio é rei. Todas as vozes se calam. Toda a euforia termina. Cada momento fica no silêncio. O silêncio cala tudo. O silêncio gela o mundo e faz adormecer qualquer manifestação que se tente fazer. O silêncio faz falta ao Homem, para que este tenha o seu momento de encontro consigo próprio, longe de qualquer interferência do mundo exterior. O silêncio torna-se assim num grande poder, superior a qualquer outro e capaz de incomodar muito mais que o barulho. O silêncio é o melhor Conselheiro que podemos ter na procura das respostas às questões sobre a nossa vida. Mergulhar no silêncio pode ser mergulhar na sabedoria.

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TARDE DE SÁBADO. É NATAL.

por Manuel Joaquim Sousa, em 20.12.14

Já cheira a Natal. Já cheira há muito tempo. Mas hoje estamos mais próximos. Nota-se pelo movimento das ruas da cidade nesta tarde de sábado. A azáfama das famílias na corrida atrás das prendas de Natal é imensa. Quanto mais se caminha em direção ao centro maior é o movimento natalício. A cidade está cheia de luz. Está toda enfeitada com sinos, estrelas, luzes penduradas nas fachadas ou a atravessar de um lado ao outro das ruas em forma de arcos e cascatas. Há fumo no ar. São os vendedores de castanhas espalhados pelas praças, que abanam as brasas para assar as castanhas que vendem a quem passa nesta tarde tão fria. Todavia quente pela energia das pessoas. Há centenas ou mesmo milhares de pessoas que caminham lentamente colados em cada montra para ver os modelos e os que não hesitam em entrar para fazer mais uma compra. São às meias dúzias os sacos de papel que cada um carrega ao longo da Rua. Há ainda aqueles que contrariam o frio e a azáfama das compras, que vestem uns calções e decidem correr por entre as ruas da cidade. São muitos. Há alegria no ar. Há o barulho das pessoas que conversam, cumprimentam quem passa. Há qualquer coisa de especial que não vejo nos restantes dias do ano. Só por isso o Natal é fantástico. Para além das conversas há outro barulho. Não é barulho. São vozes de coro. Chegaram num instante e colocaram-se na escadaria da Praça e cantam músicas de Natal. São doces. Cantam com alma. Prendem quem passa. Arrancam o lado emotivo. Provocam silêncio. No final, há palmas. Atrás destes há muitos que não ouvem as músicas e fazem fila para um retrato ao pé da árvore de Natal. É linda. Toda branca. Só com luzes. Um pequena estrela dourada no cimo. Está digna de retirar um uau de quem passa. Um cenário destes nas ruas da minha cidade preenche qualquer ser humano. São horas de entrar num café. Ficar bem quente a ver o mesmo cenário que se passa lá fora. Para se sentir a sensação numa outra dimensão e anotar o cenário de uma tarde de sábado. São houras de ouvir poesia. São vésperas de Natal. Pena que o Natal não seja todos os dias.

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O PAÍS DE ESTÁDIOS VAZIOS

por Manuel Joaquim Sousa, em 12.12.14

O futebol arrasta multidões em todo o mundo. Portugal não é exceção. Somos confrontados com uma série de programas dedicados ao futebol em todos os canais de informação e mesmo generalistas. Já sei que a determinadas horas do dia, seja na rádio, seja na televisão, há debates e programas informativos que exploram o futebol ao máximo – seja o que acontece dentro das quatro linhas seja o que acontece fora. Havendo assim tanto interesse e tantos treinadores de banda, fico admirado com o número de adeptos que se deslocam aos estádios na grande maioria dos jogos – há jogos regionais e locais com mais assistência que os restantes, aqueles dos clubes mais importantes. As imagens da televisão mostram um cenário desolador de bancadas vazias – é apenas nisso que consigo reparar neste momento em que escrevo e passa um jogo na televisão. Os estádios enchem quando são os clássicos, os grandes clubes, os restantes estão vazios – assim se compreende os investimentos feitos para o Euro 2004, que tornaram os estádios em construções mórbidas e sorvedouros dos erários públicos. Nada que se compare com as ligas de outros países, onde em todas as semanas os estádios estão cheios em vez de uma meia-dúzia de pessoas a berrarem no vazio. É certo que não se podem comparar realidades económicas diferentes, mas haverá algo que se possa fazer para salvar o futebol português?

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