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VIVA O 25 DE ABRIL. SERÁ A LIBERDADE UM BEM ADQUIRIDO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 27.04.14

Eu não vivi o 25 de Abril de 74; o pouco que sei é pelo que os mais velhos me contam, pelo que aprendi na escola ou por aquilo que vou lendo nos jornais e noslivros. Será sempre pouco perante todos os que tiveram oportunidade de o viver; no entanto, fica o desejo de ter vivido esse dia para perceber melhor a sua importância, apesar dos momentos conturbados e as dificuldades que se sucederam na frágil democracia. Comparando o 25 de Abril com outras revoluções que aconteceram pelo mundo, posso concluir que esta foi uma revolução sem igual na História; sem banhos de sangue, com o povo unido e sem grandes resistências. Talvez por isto chego mesmo a achar, com o peito cheio de orgulho, que os portugueses são um povo superior aos olhos do mundo, mesmo apesar de alguma preguiça com que nos querem rotular. Como dizia um ex-ministro pouco apreciado: "Os portugueses são o melhor povo do mundo".

Já passaram quarenta anos; receio que tenha passado tanto tempo e a memória da revolução se esteja a perder porque vão sendo cada vez menos aqueles que viveram esta data e os testemunhos se fiquem pelos registos nos livros de História.

Por vezes, penso que a liberdade é um bem adquirido, mas a realidade mostra-me que posso estar enganado; alguns estudos internacionais dizem que desde o ano 2000 as sociedades começaram a deixar de ser democráticas porque preferem um bom estado da economia em lugar de uma boa democracia.

Vivemos numa sociedade da informação, mas quanto mais acesso a ela temos, mais limitamos os horizontes do pensamento e somos conduzidos a ideias "standarizadas" por via de redes sociais e não só; em que a diferença é "olhada" com desconfiança e algum repudio; em que uso da liberdade por uns ofende a integridade do outro.

Quarenta anos se passaram do tempo de Abril e vemos que a liberdade do nosso povo é posta à prova todos os dias pelos ataques do poder central; cada vez mais as decisões vêm do capital; cada vez mais senhores que desconhecem o país real produzem leis com régua e esquadro, substituindo pessoas por números e percentagens.
Não podemos dizer que o 25 de Abril foi cumprido quando, dia após dia, se encerram escolas, hospitais, tribunais e tantos outros serviços públicos, condenando o futuro das pessoas, das freguesias e dos concelhos. Não se vive em democracia plena quando se perde o que demorou a ser conquistado e construído. Não se vive em democracia plena quando perdemos soberania à mercê de três intervenções externas para ajuda financeira como da Troika, tendo, esta última, provocado uma crise económica, social e financeira sem precedentes devido a má gestão de alguns Governos que vivem em alternância com o poder. Não foi para isso que serviu a revolução.

Pena que muitos cidadãos desvalorizem a revolução que lhes concedeu o direito ao voto e, perante esta crise e o descrédito do sistema político, preferem ficar no sossego, no conformismo da abstenção e da crítica fácil.
A democracia, ainda jovem, está doente por culpa de todos que a deixaram chegar a este estado; nós, os presentes nesta Assembleia, temos em mãos uma grande responsabilidade: o exemplo.


(o meu discurso, a 25 de Abril de 2014, na Assembleia Municipal de Terras de Bouro)

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