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Por: Manuel de Sousa


manuelsous@vodafone.pt 


 


Nos momentos quentes das revoluções no Médio Oriente, como Egipto, Tunisia e Libia, recupero um artigo da minha autoria publicado no Blogue Ponto de Vista, no JN, sobre a revolução Iraniana de 2009.

29/06 As manifestações continuam em Teerão e teimam em não abrandar, apesar das forças policiais estarem a utilizar a força como meio de coagir sobre os manifestantes. As eleições foram realizadas a dia 12 de Junho e a situação continua sem um fim previsível à vista. Segundo dados da Federação Internacional das Ligas dos Direitos do Homem foram detidas mais de duas mil pessoas, enquanto que centenas de outras estão dadas como desaparecidas.


A ordem e a força são para avançar e a ilegalidade decretada para qualquer das manifestações não tem impedido os protestos, basta ver pelos três mil manifestantes na manifestação deste domingo, a norte de Teerão.


A situação caótica tem também provocado algumas divisões na ala religiosa. Se por um lado o Ayatollah Ahmad Khatami pede a execução dos dirigentes subversivos, por outro, o Ayatollah Mousavi Ardebili defende que não é possível pacificar os protestos com a força.


Esta divergência de opinião é a prova de que a visão dos acontecimentos transmitida pelos jornalistas estrangeiros não está assim tão longe da realidade como querem fazer passar ou *** como dizem os apoiantes do presidente eleito Ahmadinejad. As imagens das manifestações são prova disso mesmo e contra elas não há forma de desmentir, já para não falar na repressão que está a ser feita para controlar e impedir que qualquer informação ou notícia seja passada para o exterior.


Ainda que as potências mundiais tomem posições que mais lhe convém no momento e a pensar nas relações económicas e políticas futuras, independentemente da revolta do povo (o povo é apenas um motivo), tal não justifica que o mundo não mostre a sua revolta e desagrado, mesmo que este não deva interferir sobre a política interna do país e apenas possa actuar em forma de opinião e de acompanhamento dos acontecimentos.


Mas, a visão ocidental será assim tão deturpada da realidade e tão ***? Poderá ser de facto à luz dos dirigentes iranianos porque os conceitos de democracia e manifestação são diferentes do ocidente para o oriente. Porém, o ocidente não pode ter uma visão assim tão ***, quando a Amnistia Internacional menciona a tortura de reformistas para confessar que actuavam sob ordem da comunidade internacional contra o regime.


A visão de todos os países ocidentais será a mesma de países com a Alemanha, França, Estados Unidos e Reino Unido, aqueles para quem os resultados não são favoráveis?


 


 


Iran " Invincible" photostream..(RIP NEDA)


22/06  A situação no Irão começa a tomar proporções ainda mais preocupantes com o desenrolar da situação e da forte instabilidade política que se está a registar, apesar do Ayatollah Khamenei ter afirmado novamente, nas orações de Sexta-feira, que Ahmadinejad é o candidato vencedor das recentes eleições. Com esta tomada de posição não existirá qualquer recontagem parcial do votos, muito menos a anulação do acto eleitoral, dado que, segundo este, não ocorreu qualquer irregularidade e que não há irregularidade que justifique a realização de novas eleições presidenciais. Quanto às 646 queixas de irregularidades apresentadas e que careciam de uma análise, simplesmente devem ter sido esquecidas pelo Conselho dos Guardiões, que não parecem demonstrar uma total independência perante a situação.


O mesmo Ayatollah Khamenei, condenou as manifestações como incentivo à violência e à desordem, considerando que qualquer acto de manifestação contra os resultados eleitorais é ilegal e deve ser repreendido. Independentemente da comunidade internacional e das muitas pessoas que pelo mundo fora acompanham o desenrolar dos acontecimentos, considerarem como duvidosa toda esta questão das eleições e da legitima vitória de Ahmadinejad, é condenável a acção por parte do poder em tentar silenciar as vozes da oposição, com o argumento de que é necessário colocar a ordem na população. Estas atitudes mostram com evidencia o conservadorismo e repressão que o poder se encontra a fazer junto da população e a tentativa de que todas estas acções permaneçam no silêncio, sem que a comunidade internacional tenha acesso ou interfira na situação. Os jornalistas estão a ser pressionados, tendo o correspondente da BBC sido expulso e o correspondente da Newsweek preso sem que existam razões que justifiquem estes actos.


O Ministro da Cultura Iraniano ameaça que serão tomadas outras medidas se a comunicação social estrangeira continuar a interferir nos assuntos internos e se continuar a transmitir informações que sejam enganosas. Como se o pouco que podemos ver através de imagens e relatos dos nossos jornalistas fosse algo duvidoso ou mesmo enganoso e uma criação, de forma a manipular a opinião pública mundial.


Poderiam os jornalistas não terem o direito de interferir ou de transmitir o que se passa em Teerão e que os acontecimentos são meramente internos e aos outros países não lhes diz respeito. Porém, existem muitos iranianos espalhados pelo mundo inteiro, que têm a legitimidade de acompanhar o que está a acontecer no seu país e também é dever da comunidade internacional estar a par dos acontecimentos, dado este ser um país com quem existem acordos com outros países em matéria económica. É necessário que todos saibam que país é este, que governo está no poder e com que legitimidade pode o Irão celebrar ou manter qualquer acordo ou parceria.


O número de vítimas dos protestos torna-se preocupante, inicialmente eram sete vitimas resultantes dos protesto de Segunda-feira passada, nos protestos de Sábado, em Teerão, foram mortas treze pessoas e mais de uma centena foram feridas. Pelo mundo, através do Youtube e do twitter, circulam as imagens de Neda, uma mulher que foi atingida no peito enquanto se manifestava contra o regime. As imagens são reais e são as provas da dura repressão exercida pelas forças de segurança em nome do regime instalado, que não convive com as necessidades de liberdade do povo iraniano. Teme-se que o número de vitimas seja superior ao que é conhecido oficialmente e que as retaliações comecem a intensificar-se na medida em que o controlo da informação começa a ser cada vez mais apertado.


Não sabemos quando isto irá terminar.


 



 


19/06  A situação no Irão ainda continua a ser caótica com as ondas de protestos que não cessam a cada dia que passa. As manifestações continuam a ser alimentadas pelas forças opositoras ao regime instalado, como forma de fazer pressão para que o Conselho dos Guardiões anulem os resultados e convoquem novas eleições, em vez uma contagem parcial dos votos.


Os apoiantes de Mir Hossein Mussavi não aceitam de qualquer forma o recente apuramento dos resultados e no dia de ontem saíram para a rua vestidos de luto, com velas, em homenagem aos sete manifestantes mortos na passada Segunda-feira. Os protestos apesar de serem pacíficos ou com essa intenção foram proibidos e considerados ilegais pelo Ministério do Interior.


As notícias também têm sido muito escassas devido ao aperto da informação e à limitação da acção por parte dos jornalistas, que são impedidos de transmitirem imagens das manifestações. Conta-se que hajam constantes cortes da Internet, das comunicações por satélite e mesmo da rede de telemóvel.


Existem muitos boatos lançados sobre o que se está a passar em Teerão, como prisões a ser efectuadas a manifestantes oposicionistas. Porém, não existem quaisquer provas até ao momento de que tal possa estar a acontecer.


O Conselho dos Guardiões propôs a possibilidade de se reabrirem a conversações com três dos principais candidatos que foram derrotados, para chegar a uma solução que termine com a crise instalada. Terão também de analisar 646 queixas de irregularidades registadas durante as eleições e avaliar o peso das mesmas para validarem ou não a possibilidade de um novo acto eleitoral ou apenas a recontagem parcial dos votos.


As manifestações poderão continuar durante os próximos dias e a possibilidade de estes serenarem vai depender da decisão tomada pelo Conselho dos Guardiões, de quem depende o futuro político do país.


Apesar de ser uma eleição interna, estas têm provocado alguma preocupação um pouco por todo o mundo, dada a influência e projecção que este país pode ter numa economia Global.


 


 


 



 


Se pensamos que o Irão está bem longe da nossa realidade e bem longe geograficamente a ponto das recentes eleições nada interferirem com a nossa diplomacia ou com a diplomacia da Europa, estamos enganados. Vivemos num mundo Globalizado em que as eleições de cada país interferem com o futuro de outros. Por terem muita importância internacional a vários níveis nos chegam constantes notícias da campanha, das eleições e agora do período pós-eleitoral, muito conturbado e que têm causado alguma preocupação um pouco por todo o mundo.


Se pensarmos que o Irão é pouco desenvolvido e que as suas eleições foram como sempre foram, também estamos enganados. Estas eleições passaram do limiar do normal e do considerado tradicional e saltaram de forma inesperada para as novas tecnologias da Internet através do Youtube ou de redes sociais como o Twitter ou o Facebook. Foi assim durante a campanha e é assim que continua a ser neste tempo pós-eleitoral, onde a informação jornalística começa a ser escassa com a saída dos jornalistas devido à não renovação dos vistos de permanência e com a impossibilidade dos jornalistas locais de poderem sair para reportagem. São as redes sociais a forma de travar e contrariar o aperto ao controlo de informação. Apesar de tudo, a informação continua a espalhar-se a um ritmo imparável, mesmo com a quebra de rede móvel em Teerão. Basta ver a quantidade de manifestantes de ambas as partes.


As eleições Iranianas tiveram em tudo diferente do normal, talvez porque o povo tenha acordado para através das vantagens democráticas manifestarem-se contra o regime de Ahmadinejad. Conta-se que estamos perante uma das maiores, senão a maior, manifestação nas ruas do Irão desde a Revolução Islâmica de 1979.


Este ano até sondagens, nunca permitidas, foram efectuadas pela Universidade de Azad que consultou a população e apurou um resultado favorável ao candidato Moussavi na ordem dos 56% e de 42%para Ahmadinejad. Estamos perante um país com 45 milhões de eleitores, sendo que nestas eleições votaram 40 milhões, confirmando-se um dos actos mais participativos alguma vez realizados, num país em que 33% dos eleitores são pertencentes a zonas rurais, 34% a pequenas cidades e os restantes 33% a grandes cidades.


Os confrontos a que temos assistido nos últimos dias são resultado da contagem em Teerão, que deu vitória a Mousavi com 60% dos votos contra os 40% de Ahmadinejad, que são o oposto dos resultados gerais do país que consagram o actual presidente como derradeiro vencedor.


Corrupção? Não sabemos a que se devem estes resultados. As manifestações quer em Teerão, quer um pouco por todo o mundo, como por exemplo em Lisboa, dos apoiantes de Mousavi exigem do Conselho dos Guardiões umas novas eleições com fiscalização mais reforçada. No entanto, fica a duvida da possibilidade, vantagem e transparência de novas eleições depois de tantas manifestações e da confusão instalada e se estas não iriam conduzir a uma indefinição política no Irão.


Alterar os resultados das eleições a uma escala de 40 milhões de votantes é muito complicado e implica uma grande organização, muito bem coordenada capaz de o fazer sem o reparo do Conselho dos Guardiões, ainda que não seja impossível. Este Conselho optou por efectuar a recontagem parcial dos votos como forma de acalmar as hostes de ambas as partes e o curso dos acontecimentos, assim como, retirar todas as dúvidas de uma contagem muito rápida dos votos que ditaram uma esmagadora vitória de Ahmadinejad e aclamada sem esperar pelos três dias normais para o anúncio dos resultados.


Todos estes acontecimentos têm uma grande influencia sobre o mundo porque o mundo conhece o grande potencial do Irão e  sua capacidade de influência, em especial sobre as grandes potências asiáticas como a China, Japão, Coreia, Malásia e Rússia com quem existem negociações e trocas comerciais. A Europa e os EUA não podem ficar indiferentes a estas transformações e à margem de negociações com um país de grande potencial económico. O Irão detém alta tecnologia, é o quinto maior produtor mundial de petróleo e de  gás, que são bens essenciais para uma Europa com dependência energéticas e para as grandes potências que necessitam dela para produzir e aumentar as exportações.


Por outro lado, existem outras causas muito preocupantes e que já fizeram tremer os EUA e países do Médio Oriente com determinados anúncios de Ahmadinejad. O Irão tem uma grande capacidade de produção de Energia Nuclear, que tanto pode ser utilizada para fins pacíficos como para a produção de armas de destruição maciça, a verdadeira dor de cabeça que tem preocupado os EUA e o vizinho Israel, que poderia ser aniquilado a qualquer momento (ainda que se julgue pouco provável), não fosse Ahmadinejad defensor que negou a existência do Holocausto e a legitimidade do povo Judeu.


Por estas razões, Mousavi é muito desejado e apesar das incertezas quanto ao futuro, caso fosse o vencedor. Este defendeu posições mais abertas e menos conservadoras como a emancipação da mulher e abolição de todas as leis que a descriminam, a abertura do povo à comunicação e informação. Manifestou também intenção de diálogo com os EUA e critico em relação ao assassínio de Judeus no Holocausto.


No meio deste fogo cruzado entre apoiantes, opositores e manifestações que sobem de tom e que já provocaram oito mortos, o futuro do Irão está em aberto e as expectativas são muitas. O Irão não será mais o mesmo. Fica na dúvida se estas eleições têm a mão de Deus como afirmou o aiatola Ali Khamenei ou a mão de Satã.
 


Manuel de Sousa


manuelsous@vodafone.pt


 


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HAVEMOS DE IR A VIANA

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Cantava Amália: «Oh meu amor de algum dia, havemos de ir a Viana/ Se o meu coração não me engana/ Havemos de ir a Viana».


Não direi meu amor, mas vim a Viana de qualquer das formas.


Parti de Braga manhã cedo, no receio de cá vir, mas encorajado de querer mudar de ares, parti em direcção de Viana do Castelo, de forma descomprometida, mas decidida.


Neste momento, estou a meio da manhã e já percorri algumas ruas da cidade, desde os arredores até ao centro, mais concretamente até à Praça da República.



Na Praça da Republica sento-me na Caravela para tomar a primeira bica do dia porque determinei que todo o meu dia seria em Viana, desde a primeira bica até ao pôr-do-sol. Vamos ver como correm as coisas e se na realidade apenas sairei quando o sol se pôr. Se assim for ainda bem, significa que as minhas expectativas se confirmaram e que valeu vir até ao coração do Alto-Minho.


Esta vinda a Viana do Castelo tem como objectivo a necessidade de um ar bem diferente daquele que se respira todos os dias, na cidade do costume e a crescente necessidade de conhecer novas pessoas e novas vistas, ainda que não tinha saído desse Minho. Será bem diferente do Minho em que vivo o meu dia-a-dia. Aqui está uma das qualidades do Minho, caracteriza-se pela sua diversidade de paisagens, dos vários verdes que o caracterizam e das pessoas que nele vivem e que são tão diferentes de lugar para lugar.


Não sei se por estar numa cidade diferente, aqui noto uma gente muito verdadeira, no sentido de verdadeiro e típico Minhoto. Gente que parece muito simpática e acolhedora, muito simples na sua maneira de ser, de vestir e de olhar. Isto notou-se logo que cheguei à cidade. Entrei num sitio completamente desconhecido, sem mapas e numa pequena aventura automóvel e em vários cruzamentos existia a amabilidade de logo me deixarem passar. Logo que chegava senti-me simpatizado com as pessoas e de uma forma muito natural acabei por esboçar alguns acenos de agradecimento.


A Praça da Republica fez recuar no tempo histórico, tal a beleza das suas fachadas, da fonte, de toda a pequena e pacata praça, como se ainda vivêssemos no tempo em que não existiam carros e como se o tempo por estes lados tivesse parado, não fossem as lojas e as marcas do nosso tempo.


Os becos e ruelas são o mais popular de cada cidade e o que muito aprecio. Também por aqui existem e com nomes bem curiosos. O Beco da Onça e a Praça da Erva (símbolo da cannabis desenhado na placa). Jamais me importarei que me mandem para a Onça, ou outra expressão do género depreciativo, de tão encantado que fiquei com este lugar.


Tomada a bica e escritas as primeira palavras são horas de passear mais um pouco para aproveitar o sol lá fora, que começou a despertar depois de uma amanhecer tão tímido e enevoado.


 


Durante toda a manhã percorri ruas, ruelas, cheias de gente ou mesmo pacatas, tudo isto sem sair do centro da cidade. Muita coisa se pode visitar e apreciar. Muita beleza e encanto se encontra por estas ruas com uma imensidão histórica fantástica e uma arquitectura fabulosa. Vale bem o cansaço de tantos quilómetros percorrer de um lado para o outro na descoberta de algo de novo.



Eram cerca de três horas da tarde e já me encontrava no interior da Sé de Viana. Preparava-me para sair quando olho para trás e reparo na existência de uma pequenina capela. Passou despercebida tal a escuridão no seu interior. No momento em que entro na referida capela fico diante de um enorme Cristo crucificado e nesse momento batem as badaladas das três horas da tarde, como que a assinalar a hora em que este homem morreu pregado numa cruz. Momento simbólico aquele, digno de uma contemplação e ao mesmo tempo de compaixão. Atendi a razão da escuridão. Ali é necessário recolhimento a que o silêncio convida. Estes momentos são mágicos e ao mesmo tempo tão ternos.


Toda a restante Sé é uma mescla de estilos e épocas, desde o Gótico, Barroco, Maneirismo, a algo extremamente moderno, como o altar de celebração e os bancos, que não combinem com toda a restante estética.


 


A sensação de chegar a Santa Luzia é um misto de ansiedade e ao mesmo tempo de comoção porque sempre manifestei o desejo de conhecer um lugar com uma obra tão majestosa e imponente e por estar num local onde é possível contemplar terra e mar.


Contemplar esse horizonte e sentir que o meu olhar se perde na sua imensidão, ao mesmo tempo que no mesmo olhar cabe todo este horizonte.


Fico com a sensação de que os meus olhos necessitavam desta vista, deste horizonte. Espero ter a oportunidade de voltar mais vezes e de cada uma delas sentir esta sensação.


Há expectativas que sentimos que não serão desconcertantes. Esta é uma delas. Tinha a ideia de que iria gostar e pelo pouco que ainda vi gostei imenso.


 


Onde estou?    
Não sei.                                                                                                                                                     


O que sinto agora?                                                                                                                                    
Não se explica.


Estou sentado no interior da Basílica de S.ta Luzia. É tão boa esta sensação. É tão grande esta paz de espírito que se sente cá dentro. Quando entrei estava aberta o livro com a passagem de S. Mateus, em que Cristo no barco de pescadores acalmou a tempestade e as ondas do mar. Aqui a sua presença é tão viva, tão real e tão forte. Aqui as ondas estão serenas. Aqui tudo é calmo e silencioso. É por isso que sinto esse Cristo cá dentro, coisa que não sei explicar por que sinto aquilo que não vejo e não toco.


O templo é pequeno na sua dimensão física, mas muito grande na sua dimensão espiritual. A beleza artística do Homem torna este local único e representativo, para os crentes, da infinita beleza que Deus sobre nós e sobre a Terra.


Existe um misto de abertura e de isolamento. Abertura do espírito e da fé, isolamento de tudo o que é exterior ao Homem e de tudo o que o rodeia.


A fé acaba por se manifestar de uma forma simples e singela e é nestes locais que o nosso estado contemplativo ultrapassa o limiar do físico e natural para o sobrenatural.


Há muita coisa que não se sabe explicar em palavras, mas apenas sentir e recordar no interior com o máximo prazer.


 


É tempo de pensar na partida, de volta para o quotidiano de onde saí. As nuvens cobrem o céu, de forma que hoje não poderei ver o pôr-do-sol, embora esteja na hora de este se começar a recolher, depois de me ter proporcionado um belo dia.


Virado de costas para o horizonte e voltado para o templo, faço a última despedida de uma cidade bonita e encantadora. Foi bom conhece-la só. Da próxima espero que com uma boa companhia, para que seja uma visita conversada em contraste com esta que foi sobretudo pensada e interior.


Caminhar só à descoberta foi fantástico e valeu apena tudo o que descobri, vi e vivi. Foi uma mescla de sensações que a minha pessoa gostou.


Neste momento, no meu pensamento ecoa o fado de Amália em jeito de despedida.


Manuel de Sousa


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Esta é a imagem de uma das mulheres mais corajosas da História da Humanidade.


O seu rosto pequeno, demonstra uma ternura infinita e um sentido de maternidade tão forte, que inflama muitos corações de homens e mulheres que se espalham por esse mundo fora e que a ela agradecessem pelo facto de existirem.


Esta é para sempre a mãe de muitos porque a muitos lhes deu a vida, de forma escondida e clandestina.


Mulher, Assistente Social, Anjo do Gueto de Varsóvia, Heroína, Mãe. São tantos os adjectivos que poderíamos utilizar para classificar este ser humano, que sempre se apresentou perante o mundo de uma forma humilde, carinhosa, no anonimato, mas ao mesmo tempo conhecida pelo mundo inteiro.


Nem eu conhecia esta mulher, até algum tempo atrás receber um e-mail de um amigo que suscitou o interesse e que provocou a minha comoção. Comoção pela história de vida, de sacrifício e de total entrega para com o seu próximo.


Irena Sendler nasceu a 15 de Fevereiro de 1910, na Polónia. A sua vida ganha especial relevo na altura da Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha invade a Polónia, por volta de 1939. Nessa altura, Irena era Enfermeira do Departamento de Bem-Estar Social de Varsóvia, onde cuidava de pessoas necessitadas, doentes, fossem elas Judias ou Católicas. Para além de comida, também dava a essa gente roupa e medicamentos.


Após a invasão da Polónia e por volta de 1942, os Nazis criaram o Gueto de Varsóvia, como forma de isolar a comunidade Judia de Varsóvia e impedir a sua movimentação, sendo depois transportados para campos de extermínio nazi. Nessa altura, o trabalho de Irena começa a ser cada vez mais dificultado no apoio à população Judia, de forma a colmatar as suas dificuldades, e também começa a ser um trabalho muito perigoso.


No Verão de 1942 Irena integra o movimento de resistência Zegota, que era um organismo de ajuda aos Judeus. Conseguiu identificações do gabinete sanitário para si e para as suas colegas, com a tarefa de lutar contra as doenças contagiosas. Como polaca teve a possibilidade de se juntar aos Judeus porque os Alemães tinham medo de uma epidemia de Tifo e entregaram aos Polacos a possibilidade de tratar dos Judeus, evitando o contacto directo com estes.


Dizem que, como forma de união com essas pessoas, utilizava as braçadeiras que os Judeus eram obrigados a utilizar para serem identificados das restantes pessoas. Com grande facilidade esteve em contacto com famílias a quem continuamente prestava ajuda. Na sua aproximação a essas famílias pedia-lhes que lhes entregasse os seus filhos com o objectivo de os tirar do Gueto e, de alguma forma, dar a esperança de pelo menos estes sobreviverem ao extermínio nazi. Os pais das crianças nem sempre aceitavam a proposta de Irena, dado o sofrimento da separação em momentos tão difíceis. Muitos dos pais que ofereceram a resistência e que eram procurados posteriormente por Irena ou pelas suas companheiras, já tinham sido levados para os campos de concentração. Irena não tinha respostas, certezas quando as mães entregavam os seus filhos e questionavam «Podes prometer-me que o meu filho viverá?» Quem lhe dera poder responder, mas fazia o que podia.


Havia a esperança que essas crianças ainda poderiam sobreviver, não sobreviveriam se ali ficassem. Se ficassem eram com certeza levadas, sem piedade, para a morte. Essa esperança no coração de Irena e com ajuda de colegas permitiu que num ano e meio, até ao fecho do Gueto, fossem salvas 2.500 crianças. Começavam a sair em ambulâncias com a indicação de vítimas de Tifo e também em sacos, cestos do lixo, caixões e tudo mais que pudesse camuflar uma criança para a fuga.


Durante este tempo e a cada fuga elaborava documentos falsos, com assinaturas falsas para que essas crianças pudessem manter-se vivas. Mas, a sua preocupação é que elas não poderiam perder a sua verdadeira identidade, as suas origens. O seu desejo é que um dia recuperassem tudo novamente. Para tal, criou um arquivo pessoal onde registava a entidade verdadeira de cada um e identidade nova, de forma a ser possível restituir mais tarde, em tempos de paz.


O arquivo pessoal era guardado em latas de conserva, que enterrava no quintal do seu vizinho, junto a uma macieira, sem que ninguém suspeitasse. Irena durante muito tempo escondeu a história e origem de 2.500 crianças. Um dos segredos mais bem guardados, em latas de conserva.


A 20 de Outubro de 1943, Irena é presa pela Gestapo (polícia secreta do Estado), que descobriram o que andava a fazer. Esteve na prisão de Pawiak, onde foi torturada a ponto de lhe partirem os ossos dos pés e das pernas. As torturas eram feitas para que revelasse o nome de outras pessoas que colaboravam consigo e dissesse onde se encontravam as crianças. Porém, esta mulher manteve o segredo de forma inviolável. Foi condenada à morte. No caminho para a execução um soldado leva-a a um novo interrogatório e à saída apenas lhe disse «Corra». A sua saída foi resultado do suborno aos alemães feito pelos membros da organização onde esta trabalhava.


Apesar de todo o seu sofrimento na prisão e de ter sido condenada á morte (o seu nome figurou na lista dos executados), voltou ao seu trabalho sob identidade falsa, com um nome código de Jolanta.


Dizia esta mulher que a sua luta pela paz, se deve a uma imagem de Jesus que encontrou num colchão de palha no tempo em que esteve presa. Essa imagem, deu-lhe força e coragem para continuar a sua luta pelo salvamento destas crianças. Entregou-a em 1979 ao Papa João Paulo II.


Acabada a guerra, Jolanta desenterra a latas com as identidades de cada uma das crianças. Procurou-as, pelos orfanatos, conventos, famílias Católicas de acolhimento e devolveu-lhes a história e as origens. A maioria dos seus parentes foram exterminados, outros espalharam-se pela Europa a quem ela conseguiu encontrar e entregar os filhos.


Anos mais tarde a sua história e fotografias da época foram publicadas num periódico e aqueles que eram crianças na altura reconheceram a fotografia. Era Jolanta, a verdadeira Irena. Muitas cartas, telefonemas e visitas passaram a fazer parte do quotidiano desta mulher. Todos os que a reconheceram procuraram-na para lhe agradecer a vida por quem ela decidiu lutar.


Em 1965 foi condecorada como cidadã honorária de Israel. Em Novembro de 2003 foi condecorada com a Ordem da Águia Branca.


Irena Sendler foi candidata a prémio Nobel da Paz, que nesse ano seria entregue a Al Gore.


Durante muitos anos permaneceu numa cadeira de rodas devido às torturas que sofreu durante a prisão. Mas sempre acompanhada por imensa gente que a procurou. Apesar de tudo, esta mulher dizia sofrer até ao final da vida porque «Poderia ter feito mais, e este lamento continuará comigo até ao dia em que eu morrer».


Morreu a 12 de Maio de 2008, aos 98 anos de vida.


Para muitos de nós, não teria que ficar com esse lamento, de poder salvar mais crianças. Salvar 2.500 foi um acto de grande heroísmo e de amor para com os outros. Esta é uma história de uma mulher que para além de salvar tantas crianças, teve a preocupação de manter as suas origens, como símbolo de respeito pela cultura e pela diferença que cada um representa.


Existirão muitos heróis na história da humanidade e que permanecerão no anonimato ou serão do conhecimento de poucos porque estes apenas se preocuparam no que era realmente importante, salvar vidas.


São estas histórias reais que devem constituir como exemplo de vida e de coragem pela defesa de valores.


Irena Sendler é de facto uma grande mãe, com um coração do tamanho da Humanidade.


Vale a pena ficar com uma última frase sua, que resume a sua luta durante a vida:


«A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade.» - Irena Sendler


Manuel de Sousa


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JOSÉ SARAMAGO: BÍBLIA, O MANUAL DE MAUS COSTUMES?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

 



Um «manual de maus costumes», este é o comentário que resume a opinião do escritor José Saramago em relação à Bíblia, não percebendo como é que um livro «cheio de horrores, incestos, traições, carnificinas» se tornou num guia espiritual para religiões como a Católica e mesmo o Judaísmo. Considera também que «sem a Bíblia, seriamos pessoas diferentes».


Todos estes comentários foram feitos durante a apresentação do seu novo livro «Caim», em Penafiel, a 18 de Outubro. Sem dúvida que o seu livro já deu muito que falar e ainda não se encontrava à venda nas bancas. Faltará saber se com toda a polémica instalada as vendas poderão corresponder às expectativas criadas em torno deste título.


Com estes comentários torna-se ainda mais evidente a personalidade de José Saramago, que sempre foi bastante polémica e muitas vezes criticado pela sociedade portuguesa. Criticado pela sua forma de ser, pelas palavras que dirige e que muitas vezes chocam as pessoas, ainda que em muitas situações tenha a sua razão. É claro que os recentes comentários acerca da Bíblia como «manual de maus costumes» feriram muitos católicos. Feriram tanto mais quanto maior o conservadorismo religioso existente no nosso país. Apesar de vivermos num país de livre opinião e de livre opção de ideologia religiosa, ainda é tabu que se tenham estas opiniões públicas e será sempre com grande polémica cada uma das reacções, que apesar de tudo não foram tão duras quanto as afirmações do escritor. Por até não serem tão duras, custa também a crer que José Saramago fique admirado com a reacção da Igreja Católica, tal a noção de lucidez que o autor tenta transparecer nos seus livros, na sua escrita ou nas suas palavras. É claro direito da Igreja defender-se das críticas tanto ou mais frivolamente quanto maiores forem essas críticas lançadas pelo escritor José Saramago.


Como em muitas outras ocasiões, as polémicas vão sendo esquecidas, após viverem o momento da sua glória na altura em que são criadas e lançadas. As organizações religiosas dificilmente ruem por mais abanões que aqui e acolá se vão fazendo em relação aos seus dogmas. Poderão existir outras coisas piores e mais graves que apenas críticas ou livros.


José Saramago diz que não escreve contra Deus porque como ateu não acredita na sua existência. Ele escreve contra as religiões porque estas não aproximam as pessoas como apregoam. Não escreve contra Deus, mas no fundo parece que este lhe é uma preocupação e por intermédio das religiões seja um alvo a abater. Todos os crentes, sejam Católicos, Judeus, Muçulmanos, Hindus ou qualquer outra profissão de fé, têm o livre direito de criticar as estruturas religiosas que defendem, que guiadas por homens têm os seus erros e as suas virtudes e que sob os seus erros devem mudar para estarem tão próximas quanto possível das doutrinas que professam.


As críticas do escritor e prémio Nobel não deixam de ser de todo pertinentes e não deixam de merecer alguma atenção por muito polémicas que sejam ou por algum exagero no seu fundamento. Há sempre algum fundamento de verdade que merece a nossa atenção para a discussão.


A Bíblia em si não é um manual de maus costumes e resumi-la a isso será um erro tão crasso como resumir que a obra de José Saramago não representa qualquer valor para a literatura portuguesa e que o seu prémio Nobel não tem significado algum para a mediocridade dos seus livros. A Bíblia é um livro que combina a componente histórica com a componente religiosa e mística. Negar os horrores lá retratados é negar o mundo e uma história que existiu, que nem sempre foi a melhor, a mais séria e nem sempre constituiu o melhor exemplo para as civilizações que se seguiram. Caso apenas retratasse as maravilhas de um povo ou da Humanidade da altura, não faria sentido também a vinda de um Messias que restaurasse a ordem, que trouxesse novos princípios e novas visões de pensamento a seguir.


Numa conferência sobre ciência e religião, realizada em Braga, por volta de 2007, com o Cientista Alexandre Quintanilha e o Professor, Teólogo e Padre Anselmo Borges, este último dizia que «a Bíblia não foi ditada por Deus e que deve ser lida de uma forma crítica. Se seguida à risca quantos sobreviveriam à face da Terra?». Este é o sentido crítico que lhe devemos dar, portanto, não significa que esse sentido crítico deva esvaziar todo o seu sentido ideológico e que pode muito contribuir para um mundo melhor. É importante discutir um livro como guia espiritual, até porque a espiritualidade deve ser questionada.


José Saramago diz-nos que «sem a Bíblia seriamos pessoas diferentes. Provavelmente melhores». É uma opinião que não podemos de facto confirmar à partida. Poderíamos viver também muito piores. Como livro que deve ser interpretado de forma crítica, é natural que muitos os façam de uma forma errada e, por isso, se tornem em más pessoas e tornem o mundo pior. Mas também existem muitas «pessoas melhores» que são seguidoras desse livro de maus costumes. Como qualquer obra escrita, pode ter a interpretação que lhe quisermos dar mediante convicções, opiniões e conveniências do momento. Da mesma forma que o livro «Caim» possa ser interpretado de várias formas possíveis. Espero ter a oportunidade de ler esta obra e que esta represente uma boa base de discussão, assim como, corresponda às expectativas da polémica lançada pelo seu autor.


As declarações de Saramago também tiveram o intuito de uma certa promoção da sua obra. Se assim não fosse poucos saberiam que o «Caim» estava nas bancas. As suas declarações são tanto ou mais polémicas quanto maior for a sua intenção em tocar no intimo e nas crenças de cada um. Ficaria eu surpreendido se em vez de críticas à Bíblia, José Saramago encontrasse nela um exemplo a seguir. Se assim fosse, os seus princípios ateus há muito que teriam caído e Saramago não pretende deixar cair esses princípios, que no fundo o incomodam como incomodam qualquer um.


Felizmente que vivemos num país com liberdade de expressão, em que não se tomam posições extremistas como em outros países, basta recordar das polémicas em torno das caricaturas do profeta Maomé. Criticas existirão sempre, mas como já disse, o debate também é saudável para se quebrarem tabus que ainda existam ou até para se cimentarem ideias. Apesar de ter a noção de polémica gerada e de estar preparado para tal, Saramago deve ter ficado surpreendido pela contestação proveniente não apenas da hierarquia da Igreja, mas também de muitos quadrantes da população que se diz não lerem a Bíblia. Neste mundo da informação é bom que se ouçam opiniões a favor e contra.


José Saramago não deixa de ser um grande escritor, apesar das suas posições radicais e crescentes em relação à religião. Muitas das suas posições são compreensíveis e inquestionáveis, contudo, outras mostram algum azedume forte e por vezes infundamentado, onde deveria ter a noção de determinados limites para a liberdade e respeito do outro. Não será com extremismos que se conseguem mudar as coisas ou chamar as pessoas à razão dos factos. Será sim, com o uso do poder da razão e do equilíbrio. Se Saramago é defensor da Teoria da Relatividade, sabe que não é detentor de verdades absolutas como, por vezes, parece transparecer.
 


Manuel de Sousa


manuelsous@vodafone.pt


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Por: Manuel de Sousa

O conceito de liberdade de expressão será sempre um conceito muito relativo de avaliar, ao qual terá de existir sempre uma necessidade de ponderação exigente por parte dos  intervenientes como jornalistas e órgãos de comunicação social e os visados das notícias. Será sempre complicado avaliar a importância de um acontecimento para ser considerado notícia, assim como, determinados comentários não passam de um pau de dois gumes, que tanto podem ser declarações de defesa como podem ser entendidos como ameaça à liberdade de expressão.

O conceito de liberdade de expressão com a comunicação social foi questionado, por diversas vezes, no anterior mandato de José Sócrates, tendo este provocado alguma má imagem, devido ao teor das acusações e devido também às críticas e reacções manifestadas, quando as mesmas deveriam revelar mais prudência e contenção.
As reacções de José Sócrates às várias situações com que se cruzou não provocaram estragos de maior neste curto espaço de tempo eleitoral, mas não teremos real percepção dos efeitos que possam causar num futuro mais longínquo com o desfecho de casos como o Freeport, em que o seu nome este implicado desde o inicio.

Apesar deste caso estar resolvido do lado inglês, com o arquivamento do processo por falta de provas, por aqui, este ainda poderá ter novos desenvolvimentos, devido também aos processos judiciais que envolvem o nome de José Sócrates e de vários jornalistas. Processos esses, provenientes de queixas do primeiro-ministro contra notícias que colocaram em causa o seu bom nome.

Neste ponto de processos judiciais entre os jornalistas e os «afectados» pelas notícias coloca em questão o velho problema, para alguns, do sigilo profissional como a protecção das fontes, mesmo que perante um juiz. Muitos consideram importante o levantamento do sigilo, outros contestam (ainda bem) porque estamos a pôr em causa a vida pessoal e profissional de terceiros, ainda que possa parecer importante para a constituição de prova perante um juiz. O levantamento do sigilo profissional condena o futuro do jornalismo e o futuro da investigação jornalística porque as fontes jamais pretenderão estar de alguma forma expostas.
É claro que qualquer cidadão anónimo ou figura pública tem direito de apresentar uma queixa como forma de manter a sua segurança e legitimidade. O restante trabalho dependerá sempre do juiz que terá o papel de avaliar cada um dos casos.

Uma figura pública terá de ter a noção que qualquer dos seus passos é controlado pela comunicação social. Está obviamente mais exposta que qualquer outro cidadão e qualquer dos seus passos que levante suspeita será do interesse geral, sobretudo se estivermos perante um assunto público. Caso assim seja, isso é um assunto público e tem todo o interesse de se tornar numa notícia.
Sabemos muito bem que qualquer investigação que afecte um terceiro, que afecte um poder ou um grupo de peso considerável, pode representar uma asfixia a um órgão de comunicação social. Asfixia pelos custos de investigação, asfixia pelos elevados custos judiciais e asfixia pela limitação do acesso à publicidade e limitação de venda ou limitações às receitas que garantem a sustentabilidade e viabilidade económica das empresas de comunicação.

Segue a publicação de uma entrevista que tive a oportunidade de realizar ao Provedor do Jornal «Público», Joaquim Vieira, que nos apresenta uma visão consciente das interrogações que envolvem a liberdade de expressão e as relação desta com personalidades públicas, tendo como ponto de partida o caso Freeport, apenas um dos casos que visaram o primeiro-ministro.


Ponto de Vista - A actuação de José Sócrates, em relação ao caso Freeport, com processos judiciais sobre alguns profissionais da comunicação social, tem sido uma atitude correcta ou considera precipitada, quando o processo judicial em torno do caso ainda teve poucos desenvolvimentos?

Joaquim Vieira
- Acho que é uma atitude para ganhar dividendos políticos a curto prazo, permitindo-lhe dizer que reagiu aos artigos que o punham em causa, mas que o vai prejudicar num prazo mais alargado, pois acho não existir, à luz da jurisprudência, qualquer hipótese de José Sócrates vir a ganhar esses processos.

PV
- Será legitimo que se processem estes profissionais, tendo em conta que poderemos estar a provocar um caos judicial em torno do mesmo assunto, que passa a ser tratado de forma diferenciada prejudicando o apuramento da verdade? Poderemos estar a julgar erradamente os profissionais de forma mais rápida que o esclarecimento do caso Freeport?

JV
- Processar pessoas por alegado abuso da liberdade de imprensa (ou da mera liberdade de expressão) é um direito que assiste a qualquer cidadão. À justiça caberá julgar da pertinência dessas queixas.

PV
- Partindo da ideia de que as notícias tornadas publicas sejam fruto de uma investigação séria e credível por parte dos profissionais de comunicação, é legitimo que as fontes possam ser divulgadas em Tribunal, como prova de assegurar a verdade dos factos e sustentar a verdade dessas noticias?

JV -
Em nenhuma circunstância é legítimo que o jornalista divulgue as fontes às quais garantiu confidencialidade.

PV -
Em situações como estas, o sigilo profissional poderá ser considerado como uma segurança do jornalista perante um tribunal , de forma a ter a sua defesa garantida e a impossibilidade de julgamento? Estará nesta situação, um jornalista em vantagem sobre o queixoso por difamação?

JV -
A prova da verdade dos factos não é essencial para a justiça avaliar o teor das queixas apresentadas por abuso da liberdade de imprensa. É sim, do ponto de vista do jornalista e do órgão de informação, a prova do interesse público da notícia e de que se agiu de boa-fé.

PV
- Existe um limite definido que estabeleça até que ponto vai a liberdade de imprensa na publicação de notícias que coloquem em causa o bom nome e legitimidade de uma pessoa?

JV
- Considerando-se que há interesse público nessa informação (tratando-se os visados, por exemplo, de figuras públicas, sujeitas a um escrutínio jornalístico maior do que as pessoas anónimas), a notícia deve ser publicada.

PV
- Estarão as empresas, direcções e grupos económicos de determinado meio de comunicação dispostos a avançar com uma investigação jornalística, tendo em conta as consequências futuras que podem surgir? No panorama geral, estarão os meios de comunicação social dispostos a avançar com as investigações e a tornar públicos factos que podem por em causa uma personalidade de Estado?

JV -
Nem sempre. Os receios são muitos por várias razões: custos da investigação, custos com a justiça, receio de desagradar aos poderes visados pela investigação, recio de asfixia económica como retaliação de quem o pode fazer.

PV
- Considera que a actuação de José Sócrates está a limitar a liberdade de expressão e de informação?

JV -
Não. Pode constituir um constrangimento, mas é dever dos que fazem informação não se deixarem intimidar por este tipo de atitudes.

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Por: Manuel de Sousa




A lógica de gestão das empresas passou a ser o aumento do lucro com imposição de aumento da produtividade dos seus trabalhadores, a baixa de salários e a quebra de direitos e garantias, assim como, a redução de custos nas mais diversas áreas, mesmo que essas reduções impliquem a diminuição das condições laborais.




Os trabalhadores em muitas empresas passaram a ser meros bobos voltados para o trabalho e o aumento da produção, mesmo que esteja acima dos limites pessoais. A qualidade de produção deixou de ser o lema de chefias, a quantidade passou a velha máxima que todos são obrigados a aceitar para se manterem no mercado de trabalho.




Se o princípio da nossa existência era «Penso, logo existo», actualmente será «Produzo, logo existo». Caso assim não seja, profissionalmente e até socialmente poderemos ser considerados como inúteis na vida activa. Deixaram quase de existir princípios humanos que foram sendo substituídos por valores e padrões económicos cada vez mais exigentes e agressivos, para os quais o ser humano teve de se moldar com a mesma rapidez que a mudança de filosofia das empresas.




As consequências sociais provocadas por esta lógica do sistema capitalista, que teima em subsistir na sua crise e caos, são profundas e preocupantes para a qualidade de vida e para a existência do ser humano, consequências que poderão provocar colapso dessas mesmas empresas e a condução ao seu fracasso. Quanto mais estas entram nesse colapso, mais exigências são feitas e maior é a pressão causada, como se isso provocasse algum resultado positivo para a solidez e sobrevivência dessa empresa.




As realidades provocadas por estes princípios de gestão empresarial não têm passado despercebidas aos olhos dos empreendedores e dos trabalhadores. Os exemplos que nos chegam de França, onde se registaram 25 suicídios e 14 tentativas num período inferior a dois anos, numa única empresa, a France Telecom, está a fazer o mundo acordar para uma realidade que não é nova, mas que durante muito tempo viveu escondida e abafada e, se calhar, ignorada pelas empresas causadoras dessa mesma realidade. Porém, ainda existem poucos estudos sobre esta realidade, contudo, acredito que se os mesmos forem feitos seremos sobressaltados para uma verdade bem agreste e que obrigará a uma tomada de posição de todos nós.




Estima-se que haja, em França, um suicídio por dia relacionado a questões laborais. Em Portugal não é possível obter quaisquer dados que permitam obter a razão dos suicídios relacionados com o mundo laboral. Sabe-se, no entanto, que o número de baixas médicas registadas em Setembro subiu na ordem dos 60% comparando com o mesmo mês de 2008. Estará esta subida relacionada com problemas laborais? Seria muito importante que se debruçasse sobre a matéria para termos a noção de como vive a nossa população activa nos seus empregos. Caso contrário, poderemos ignorar uma realidade que poderá ser bem dura e dramática.




Apesar de convivermos com muitas situações de desmazelo e falta de profissionalismo de muitos trabalhadores de empresas públicas e privadas, que não representam correctos exemplos a seguir, tal não deve ser motivo para que se generalize aos restantes trabalhadores que actuam de uma forma activa e empenhada nas suas tarefas. Caso isso aconteça, é cair no maior erro e apoiar uma falsa questão, tantas vezes levantada por governos e patronatos com o objectivo de avançar com as suas políticas reformistas. Políticas que, por vezes, se afastam da realidade de um trabalhador, que tenta sobreviver com um salário baixo, com horários laborais impensáveis e com obrigatoriedade de atingir objectivos de produção acima do possível.




A crise económica numa era de Globalização criou agonia na gestão de uma empresa. A crise gerada num sector produtivo, num lado do planeta, mexe com o trajecto de uma empresa do outro lado do globo. Deixamos de trabalhar numa economia caseira, regional e nacional e passamos a uma lógica global. Se a globalização teve princípios positivos no desenvolvimento da economia e na sua progressão, também teve princípios e consequências negativas com o aumento do capitalismo selvagem e desregulamentando e com grandes penalidades para o trabalhador. A lógica passou a ser a diminuição de custos de produção e consequente diminuição de salários e condições laborais. Caso este cenário não se verifique, as empresas lançam-se nos despedimentos e mudam-se para locais de mão-de-obra barata, por vezes mais qualificada e com leis laborais indefinidas que atraem o investimento. Contra isto, será necessário que exista alguma uniformização de princípios e de lógicas comerciais entre governos e parceiros sociais, adequando-se às realidades de cada Estado.




A lógica capitalista é muito cega nas atitudes que toma porque têm a visão do lucro fácil e imediato e não o sucesso a longo prazo de uma empresa ou de uma marca. Caso fosse o sucesso e a afirmação a longo prazo, teria a visão que tal só é viável com a criação de postos de trabalho remunerados de forma correcta, de condições de trabalho dignas para cada um dos trabalhadores e de uma correcta gestão, com princípios, dos recursos humanos.




As situações extremas de stress laboral não conduzem apenas ao suicídio, pensar apenas nesta consequência é limitar o nosso estudo e a realidade. Temos de pensar nos casos de depressão, alcoolismo e desestruturação familiar e social. Estes problemas causam prejuízo para as empresas que passam a ter um mau colaborador, descontente, sem iniciativa, sem capacidade de produzir os mínimos. Com tudo isto, aumentam os acidentes laborais, os erros, entre outros prejuízos inerentes. Esta problemática tem também consequências para o Estado que em lugar de um trabalhador activo, passa a ter um trabalhador dependente de ajudas e subsídios.




Este é nada mais que um problema social, que exige respostas urgentes e conscientes para uma realidade dura e muito próxima de cada um de nós.




O princípio de uma lógica de lucro fácil para a sustentabilidade empresarial é um princípio de erro tão elementar que conduz a um resultado complexo e de consequências sociais e económicas alarmantes. As empresas devem reger-se por princípios de qualidade. Não podemos ter trabalhadores, equipas e empresas produtivas com funcionários tristes, desmotivados, com problemas psicológicos, familiares, com problemas de saúde gerados pelo stress laboral como insónias, depressões e irritabilidade.




O princípio da cooperação entre funcionários e entidades patronais é o melhor segredo para o sucesso. Existem empresas que se preocupam em agir desta forma e os resultados estão à vista. Neste aspecto é necessário trabalho eficiente e cooperativo de entidades sindicais e governos.




O exemplo Francês é apenas um em muitos outros exemplos por esse mundo fora. Se neste país desenvolvido já se assiste a uma realidade brutal como esta, como será em outros países numa situação pior, de necessidade de desenvolvimento ou em países que são economias emergentes?




Este artigo não se trata de uma lição aos empresários ou de um tratado de gestão. Este artigo é uma visão que se pode ter do mundo e da forma preocupante como ele evolui. Não podemos evoluir para um mundo melhor se caminhamos para o caos social causado por um capitalismo selvagem.




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TRADADO DE LISBOA: QUE EUROPA E QUE FUTURO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11


O dia de hoje, 1 de Dezembro de 2009, é um dia marcante para a Europa, o dia em que o Tratado de Lisboa entrou em vigor, dando inicio a uma nova fase da Europa, que segundo dizem, mais preparada para o século XXI.

Chega ao fim um período de grande discussão de um tratado que teve a sua polémica e que sempre suscitou inúmeras dúvidas quanto às suas vantagens para o futuro da União Europeia e dos seus estados-membros. Questionou-se a capacidade de independência de decisão que cada país poderá ter nos parlamentos nacionais, quando estes estarão dependentes das decisões da UE, sendo obrigados a promulga-las sem possibilidade de rejeição.

Questiona-se também se este novo tratado será capaz de acabar com as divisões internas entre os diversos Estados, assim como, equilibrar os poderes e o peso que cada país poderá representar na tomada de decisões. Caminhamos durante muito tempo numa Europa de duas velocidades, constituídas por países de grande poder e por países que apenas puderam viver atrelados às decisões de outros. Será que este tratado poderá resolver todas essas divergências?

Será que este tratado contribuirá para a resolução de muitos problemas de cada país, independentemente de submeter os Estados a meros indicadores e obrigar que cada um a atingir os mesmo objectivos económicos e sociais, quando estamos perante uma Europa com diversas realidades ou continuarão os países a trabalhar para as estatísticas, de forma a corresponder a médias Europeias, ainda que essas estatísticas sejam meros números e as duras realidades continuem a existir?

As políticas económicas durante muitos anos estiveram longe de ser as verdadeiras políticas de desenvolvimento sustentado, numa Europa que distribui dinheiro, sem saber se este está a ser bem aplicado nas áreas de necessidade. Este tratado será mais ágil na investigação e no apuramento das correctas normas de mercado, sem estrangular esses mercados às normas da própria União? Quanto poderia Portugal investir na vinha e a UE não deixou por não ser um produto de bem-comum Europeu? Quantos produtos foram deitados fora por uma Europa que determina a produção por cotas e que subsidia a não-produção?

A aprovação deste tratado, à revelia da decisão de muitos povos da Europa, representará um futuro de prosperidade da UE e estará ao alcance de cada estado-membro para ser posto em prática?

Este tratado Europeu será capaz de tornar a UE mais leve e mais ágil, em vez de uma máquina que não funciona e que apresenta muitos bloqueios na tomada de decisões e acções? Estarão a partir de hoje as instituições mais próximas e mais capazes de agir?




São muitas as interrogações que ficam e que só o futuro poderá responder, sabendo que existem muitos pontos que seriam necessários corrigir, num tratado que apresenta defeitos e deixa muitas dúvidas em relação ao futuro da construção da UE e da independência de cada estado e de cada Governo na tomada de decisões. Não podemos viver de dependência Europeia, temos de ser autónomos e cooperativos.

Ao cidadão comum, muitas dúvidas ficam por explicar no concreto, ainda que este tratado não interfere com a vida de cada um directamente, mas que nem por isso deve e pode ficar alheio às tomadas de posições que de hoje em diante poderão contribuir para o seu futuro como cidadão nacional e europeu.

Manuel de Sousa
manuelsous@vodafone.pt



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CAIM: DEUS É UM LOUCO NO SEU ACTO DE CRIAÇÃO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11


Por: Manuel de Sousa




PARTE I




Deus é um louco. Se não é então atingiu-lhe um estado de loucura tal, que lhe tirou por completo a noção da realidade dos acontecimentos do mundo. A sua obra de criação parece mais que uma experimentação do Homem e a cada vez que lhe foge aos seus desígnios tem de ser castigado e exterminado da face da terra, assim como, todas as coisas ou seres fruto desse Homem errante. Deus não está contente com a obra da criação e então cria remendos atrás de remendos na mesma História como forma de tentar fazer algo perfeito que não consegue. Mas se não consegue, estamos perante um Deus e nada consegue? Estaremos perante um Deus frustrado que não se contentado com nada tudo destrói para regozijo próprio? Existirá um Deus que de princípios entenderá muito pouco até menos que um simples mortal como nós somos?




Muitas questões poderemos levantar sobre Deus e as suas acções após a leitura de «Caim», da autoria de José Saramago. Esta é sem dúvida uma hilariante história que nos conduz de forma rápida e directa através do tempo, em avanços e recuos ao longo da História do Antigo Testamento. Uma grande história com muitas histórias pelo meio que procuram provocar as consciências crentes e quiçá acorda-las para uma verdade dura que há muito deveriam ter acordado com questões deveras pertinentes, que merecem a sua discussão e atenção.




Já tive a oportunidade de comentar as afirmações do autor numa das suas polémicas declarações sobre Deus, o Deus da Bíblia, como forma de críticar a religião pela sua pregação. Mas, uma coisa será a crítica a meras declarações, que poderiam ser meramente publicitárias, outra será tecer uma opinião e uma apreciação crítica depois de conhecida a obra e de uma leitura integral, não muito difícil pela rapidez com que se faz, embora careça de algumas paragens para reflexão sobre o que vai sendo lido.




A acreditar piamente no que foi sendo escrito pelo autor, sem outra análise crítica cuidada, tudo nos levaria à brilhante conclusão que Deus é um louco e que nos gosta de testar a cada passo e que até gosta de fazer umas apostas com Satã; quiçá para quebrar uma certa rotina que se vai vivendo no Paraíso, quando a obra da criação está feita na totalidade e carece apenas de uma manutenção mecânica, para que tudo funcione na perfeição. Porém, nem tudo é assim tão linear, quanto a isso merece uma reflexão cuidada a cada um dos episódios. Estamos perante uma obra de ficção, baseada em factos descritos na Bíblia, mas contados à maneira mais conveniente do autor e com pormenores que o mesmo inventa para dirigir a história no sentido que deseja. Escapam pormenores que por vezes podem alterar o sentido de cada uma das passagens. No entanto, quanto a isso torna-se interessante e acutilante para uma boa reflexão e discussão de ideias, dogmas e princípios.
Procura mexer com convicções ao questionar a razão dos factos e ao tentar fazer raciocínios conclusivos como forma de vincar as suas posições. Se bem que a própria pontuação utilizada pelo autor pode fazer a sua diferença e suscitar ainda mais o interesse, mais interrogação e mais discussão.




Sabemos bem, e para quem já leu a Bíblia ou parte dela, esta é fruto de um conjunto de livros, da recolha e da pesquisa entre muitos autores, que sob a inspiração divina escreveram histórias, lendas, mitos, reflexões, visões, projecções e história científica. Muitas delas foram passando de geração em geração durante séculos até serem escritas pela primeira vez. Existem episódios belos e bélicos, relatos verídicos e outros que jamais aconteceram, histórias proféticas que só a fé pode explicar ou validar. Por muitas investigações históricas que possam ser efectuadas muitos acontecimentos puderam ser provados e confirmados, assim como, outros ficarão ao critério de cada um.




O primeiro episódio do livro começa com o jardim do Éden em que Deus terá lá colocado uma árvore com um fruto proibido, que muitas vezes terá sido interpretado como o pecado do sexo. Deus terá proibido que comecem daquele fruto e ficou terrivelmente zangado com a desobediência do homem e da mulher. Quem lá mandou colocar essa árvore? - Questiona o autor. No mundo foi criada muita coisa boa e muita coisa má, na sua maioria por invenção do Homem. A colocação de uma árvore será mais uma figuração de que Deus deixou que tudo ficasse ao nosso critério e que nos deixou livres de optar pelo bem ou pelo mal porque se assim não fosse estaria a negar-se a si próprio. O pecado do fruto proibido é nada mais nada menos que a desobediência às regras estabelecidas.
O conceito de liberdade é por isso muito relativo e sabemos o quanto é relativo para o Homem pronto a infringir regras.




Caim, ao longo do livro culpará sempre Deus por este nunca ter aceitado as suas oferendas e ter aceitado apenas as do seu irmão Abel. Deus disse que o estava a pôr à prova e, por essa razão, Caim matou Abel, afinal Abel estava sempre a gozar com o irmão. Caim questiona porque é que Deus o pôs à prova sendo Ele o Criador. Não saberá Deus o que criou? Será um criador inconsequente? Talvez Caim não tenha entendido que Deus deu a liberdade ao Homem e a Caim para fazerem o que quiser. Esta liberdade não entende Caim, da mesma forma que sente o direito da mesma liberdade. Disse que Deus poderia evitar a morte de Abel, quando se contradiz que Deus não tem o direito de contrariar a sua liberdade de acção.
Com estas sucessivas contradições fica a questão para todos nós: Deus deverá deixar o Homem livre sobre a Terra, mesmo que essa liberdade permita que se cometam actos tão terríveis?
Se não nos deixa livres, esse Deus nega-se a si mesmo. Esta questão faz-me lembrar a frontalidade de Bento XVI num campo de concentração em Auschwitz, na Polónia, quando questionou «Onde estava Deus?» que permitiu que actos tão bárbaros se cometessem. A questão de liberdade de acção, ainda que contra o acto de criação, deixa muito em aberto à nossa liberdade de pensar.
Quantos dos actos bárbaros são cometidos como se Deus fosse o culpado dos mesmos e como forma de justificação das próprias acções e na impossibilidade da morte de Deus matam aqueles que por questões de fé nele acreditam.




No episódio de Abraão que sobe ao alto do monte com o seu filho Isaac que carrega um monte de lenha é nada mais que um episódio de provação. Não se sabe se tal terá acontecido realmente. Mas quer este servir como teste a Abraão e saber se este teria alguma coragem de sacrificar o seu filho à morte em nome de Deus. Nas escrituras este episódio é descrito de forma diferente porque quando Abraão se preparava para o sacrifício do filho, o Senhor deteve-o para que não fosse derramado sangue inocente e que a prova já estava mais que dada. No livro de José Saramago, Isaac só não morreu porque Caim o impediu, dado que o anjo do Senhor teve uma avaria mecânica numa das asas quando vinha ao encontro de Abraão para que este não matasse o seu filho. Esta parte entre o descrito na Bíblia e o inventado pelo autor teve nada mais, nada menos como intenção de provocar discussão entre as personagens e deixar uma vez mais a ideia de um Deus que pede um sacrifício como quem pede um copo de água. Um Deus mau que Caim conseguiu conter.
Este episódio representa para Abraão, o pai das três grandes religiões monoteístas. Representa o como linguagem simbólica a confiança que Deus depositou neste Homem. Não estamos perante um anjo que chegou atrasado e que teve uma avaria numa asa.
Mais uma vez a questão de um Deus louco? Cruel? Do ponto de vista de José Saramago sim, do ponto de vista de um crente não. Afinal o inocente não foi sacrificado como José Saramago tenta dizer que sim, só foi evitado por Caim.




PARTE II




A Torre da Babilónia construída com o intuito de chegar ao Céu e que terá sido destruída por Deus que não gostou dela, nada mais será que uma possível figuração de que nem sempre Deus gostará de algumas grandezas do Homem, quando são feitas como forma de se comparar na grandeza. Não é uma questão de proibição de grandes construções, caso contrário actualmente não existiriam as grandes construções, com dimensões anteriormente impensáveis. Grandezas cheias de defeitos e sem quaisquer conteúdos tornam-se balofas, condenáveis e de curta duração. Grandezas sem valores e sem princípios. Sabemos quanto existem destas grandezas e que quanto mais se constroem maior é a destruição.
O episódio de Sodoma e Gomorra é apenas uma explicação que na altura não existia para determinados fenómenos naturais, naquele caso de origem vulcânica. É claro que não existindo explicação para os factos, os mesmos seriam associados a males dos quais padeciam as populações e encarados como uma vingança e uma revolta de Deus. Um episódio que revela um exagero da ira divina, quando na altura o Senhor era entendido como algo mais temível, mas nem por isso como injusto, se bem que, o justo e o injusto possa ser entendido de uma forma relativa aos olhos de cada um.
A mulher de Lot morreu transformada em estátua de sal porque olhou para trás, enquanto fugia da cidade e da destruição que estava a ocorrer. O Senhor tinha dito para que ao fugir não olhasse para trás. A reflexão posta por Saramago é interessante porque não entende a razão desta mulher ter sido castigada quando todos temos a curiosidade de olharmos para o que acontece nas nossas costas. Queria Deus punir a curiosidade do Homem? Esta passagem e questão de Saramago leva-me a pensar nas inúmeras situações da vida a curiosidade é de tal forma mortal quando se é aconselhado a seguir em frente. É traiçoeira e muitas vezes má conselheira e por isso, podemos entender às situações práticas e situações sentimentais. Estamos perante mais um episódio figurado e que terá muito a dizer sobre as tendências do Homem. Não foi Deus que castigou a mulher de Lot porque a deixou fugir, foi ela que se condenou a si própria quando perdeu o seu tempo a olhar para trás. Todos somos livres das nossas acções, Temos é que ter a noção das consequências boas e más que daí podem surgir.




O episódio da ida de Moisés ao monte Sinai e a sua descida em que se depara com um bezerro de ouro porque o povo já não acreditava no Senhor e tiveram a necessidade de criar um novo Deus para adorarem e obter atenção, revela de facto um episódio de grande violência ainda frequente nos dias de hoje. Moisés ordena a morte, faz derramar sangue entre milhares de pessoas. A Bíblia é tão real quanto isto. Existem episódios de sangue porque foi com sangue que grande parte da História da Humanidade foi construída. Não seria justo negar essa História, esse sangue e que tudo caísse no esquecimento. Em nome de Deus muitos morreram porque acreditavam noutros deuses. Guerras entre religiões e fés foi a razão da morte e sacrifícios de muitos. Por Deus se louvou e se matou. Toda esta loucura e desespero do Homem criou a falsa ideia de que Deus é um louco.




   PARTE III




O encesto de Lot, embebedado pelas suas filhas, que engravidaram de seu pai porque estas pretendiam deixar descendência da família, é para José Saramago um pecado. Como pode Deus permitir tal pecado? O encesto aqui descrito e explicado é mais um episódio que não pode ser entendido de forma literal. Pelos estudos efectuados, as personagens deste episódio não serão propriamente pessoas, mas povos. Cada uma das personagem representava um povo que na suposta necessidade de linhagem ou por outras razões se cruzou geneticamente.




A loucura de Deus continuou ao longo de toda a história bíblica e Caim caminhou pelo caminho dos errantes por toda essa história e nela apenas presenciou a desgraças, mortes e injustiças contra pessoas inocentes. Imagine-se quanto se deve ter cansado este homem ao longo de toda a história de tanta desgraça e de não ver em Deus uma única boa acção e uma única atitude correcta. No meio de tudo isto parecia ser o maior inocente, afinal apenas matara seu irmão, comparado com todas as restantes desgraças. Veja-se a matança na invasão de Jericó e as pragas sobre ela rogadas. Matança ordenada por Josué, homem devoto de Deus e que por Ele se sentiu iluminado. Quantos infamemente praticaram a maldade em nome de Deus? É por isso que Deus é um louco, extremamente louco se em todos os actos atendermos apenas à inocência humana.




As lamentações de Job por toda a desgraça que sofreu, por ter perdido os bois, os jumentos, roubados pelos assaltantes; ovelhas e escravos queimados por um raio; os caldeus roubaram os camelos e mataram os criados; os filhos levados por um furacão; são no entender do autor fruto de uma aposta entre Satã e Deus, em que Deus apostava que Job se manteria fiel a Si por maiores que fossem as desgraças. Todas as desgraças fruto do diabo que arranjou poderes fantásticos para a grande desgraça. Tudo isto terá ocorrido numa Assembleia no Céu onde participava Deus, o diabo e os anjos.
É claro que muitos dos pormenores desta passagem não se encontra escrita na Bíblia, mas representam a capacidade criativa do autor. Segundo a Bíblia, Job terá de facto sofrido muitas provações não se sabe vindas de onde. Porém, pela sua persistência Deus terá premiado este homem retribuindo-lhe tudo o que tinha perdido ou mais ainda.
O significado deste episódio é nada mais que uma forma de demonstrar que Deus nos pode restituir em muito se a nossa fé for sólida e inabalável. Que nos poderá retribuir em dobro. É claro que para essa ajuda não será necessário provocar e viver em tanta desgraça, se bem que uma desgraça nunca vem só. Muitas vezes somo nós que atribuímos desgraça a tudo o que acontece. Mas aqui é a prova que a dedicação e a força, a coragem nos permite recuperar muito do que se perde e que Deus estará disposto a dar o seu contributo positivo. Não estamos perante uma qualquer Assembleia nos Céus e muito menos de uma aposta de Satã com Deus.




O livro termina que a passagem da Arca de Noé. Noé lá construiu a grande barca em terra, quando os barcos se construem junto à água (reparo do autor) para guardar um exemplar um exemplo masculino e feminino de cada espécie, para que sob o mundo caísse um dilúvio e quando terminado dilúvio uma nova Era teria início e antes que grande parte da Humanidade se perdesse para sempre, era tempo de construir uma nova. Mas, Caim interfere na jogada de Deus e mata cada um dos habitantes da Arca para vingança contra Deus, que ficaria num beco sem saída para dar inicio a uma nova Era. Não haveria Humanidade e quando o Senhor apareceu Caim obrigou Deus a colocar-se sobre a própria face de destruidor e assassino. Assim ficaram até aos dias de hoje na eterna discussão dos acontecimentos que se foram sucedendo ao longo da História da Bíblia.




É claro que muitos dos episódios tiveram a parte da transcrição literal da Bíblia e a criação de José Saramago para se tornarem mais acutilantes e muitos deles interpretados de uma forma errada. Porém, há um fundo de verdade nas suas palavras porque muitas guerras e muitas mortes existiram em nome de Deus erradamente. Talvez ainda hoje muita coisa má aconteça em nome de Deus.
Nota-se que durante a história do livro «Caim» não existam muitos episódios, sem dúvida memoráveis e que se destacam pela positiva na Bíblia. José Saramago reduziu a Bíblia a algo minúsculo, insignificante e aterrador. Embora, se tudo tivesse corrido tão bem, certamente que não ser justificaria a vinda de um Messias para repor a ordem no pensamento, nas acções e nas leis de então, que se encontravam entendidas de forma errada.




  




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A MARCA DE CAIM

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa



O livro «Caim», de José Saramago pode ter provocado uma certa polémica em Portugal pela série de questões que o seu autor levantou perante a Bíblia. Porém, as polémicas, interrogações, teorias em torno de certas personagens bíblicas têm existido por todo o mundo, desde sempre, sobretudo quando são situações nem sempre esclarecidas e que deixam as suas dúvidas para múltiplas interpretações.
Caim é um dessas personagens que ainda hoje suscitam curiosidade e discussão pelo acto de este ter morto o seu irmão Abel e mesmo assim ter sido perdoado por Deus deste acto tão terrorífico.

Porquê o perdão de Deus a Caim? Porque razão passou a ser protegido por Deus, quando Este lhe colocou uma marca para lhe ninguém lhe fizesse mal?
Pensasse que até ali ninguém tivesse morrido, de acordo com a ordem Histórica da Bíblia. Estávamos no inicio dos tempos, ninguém sabia o que era morrer, muito menos sabiam o que era um homicídio. Claro que Caim ficava com grande revolta ao ver Deus aceitar os sacrifícios do seu irmão Abel e desprezar os seus, que os fazia e oferecia com grande sacrifício, pensa-se. Caim terá morto seu irmão como manifestação de raiva e só no final do acto consumado é que se terá apercebido da realidade do crime que cometeu, e que afinal tinha acabado com a vida de alguém, coisa que até aí se desconhecera. Caim terá escondido o corpo do seu irmão ao aperceber-se do que fizera. Deus ao questionar-lhe sobre o paradeiro de Abel, Caim respondeu que não sabia, terá desencadeado a ira de Deus, que se terá revoltado, não pela gravidade do crime, que o Homem desconhecia, mas por este ter escondido o corpo e pelo acto de mentira, negligência e irresponsabilidade. O Senhor poderá não ter tolerado esta atitude que o Homem desenvolveu com grande facilidade. A mesma revolta terá mostrado perante Adão e Eva que comeram do fruto proibido. Comeram do fruto, mas tentaram contrariar a verdade dos factos pela omissão e pela forma de atribuírem culpas a terceiros de forma a inocentar-se.

Tendo Deus perdoado Caim pela morte do irmão, terá este episódio trazer alguma lição para qualquer um de nós? Será que podemos passar a matar os nossos irmãos sem problemas porque seremos perdoados perante a lei divina?
É claro que não se pode generalizar a história sob a pena de provocarmos mais mortandade entre Homens e provocarmos uma espiral de ódio, sangue e morte.
Conta-se que os factos terão ocorrido no berço da civilização, onde se situa o actual Iraque. Nesses tempos, eram frequentes as guerras entre pastores e agricultores, que não tinham forma de se entender. Os agricultores dedicavam-se a vida às plantações, enquanto os pastores precisavam de alimento para os seus animais e por isso deixavam as plantações destruídas. Nesta espiral de violência seriam sucessivas as mortes. A história de Caim terá origem nestas guerras e teria um certo sentido de transmitir arrependimento, fraternidade e concórdia, coisa que até aí não existia. Não estaríamos perante uma descrição de um facto real e que terá acontecido, mas de uma parábola em que os pastores e agricultores aparecem figurados em duas personagens.
Talvez seja por esta razão que as oferendas de Abel tenham sido aceites em lugar das oferendas de Caim. Este é um episódio religioso porque na origem do mundo e do Homem este ainda não tinha capacidades de cultivo da terra e da criação de gado, partindo do pressuposto que Caim e Abel seriam a segunda geração da Humanidade.

Caim é uma personagem que representa um grande enigma para muitos porque existe a incógnita: Qual a marca que Deus cravou neste homem? A marca não foi com a intenção punitiva, mas de protecção. Mas que marca seria, capaz de ser visível aos olhos dos restantes humanos? Como saberiam os restantes seres que aquela seria uma marca de protecção?
Uns dizem que a marca foi colocada no cabelo, pois seria o primeiro Homem ruivo. Não existem provas que o sustentem. Foi também, durante tempos, e ainda defendido por alguns que a marca representa o símbolo do vampirismo. Uma outra teoria sustentada pelos textos mórmon, da igreja de Jesus Cristo dos Santos e dos Últimos Dias, indicam que a marca foi a cor da pele. Este seria negro, sendo Caim o pai da raça negra e a origem do povo africano. Esta é a razão mais conhecida, porém também sem fundamento bíblico e comprovação histórica. Além disso, a descendência de Caim teria de terminar em Noé, na altura do dilúvio.
Apesar disso, a marca de Caim não foi interpretada correctamente. Esta que seria um sinal de protecção foi entendida pelas civilizações como algo de maléfico, aterrorizador, perigoso e condenável. Caim e a sua marca passaram a ser associados à escravidão do povo negro, sujeito a sacrifícios terríveis por serem entendidos como o povo rejeitado e vagueante por terras perdidas.
Por terras perdidas e vagueante tem sido o povo Judeu, a quem durante muito tempo se atribuiu a descendência de Caim e os marcados por Deus. Enquanto que, Abel chegou a ser representado pelo povo Cristão, Caim seria semelhante em relação ao povo Judeu. Esta razão, tem sido invocada para grandes desavenças entre povos e religiões durante séculos. Acredita-se que esta teoria foi sustentada por Hitler ao condenar os Judeus à morte e ao obriga-los a andar perdidos sem quaisquer bens e conduzindo-os para campos de concentração. Este mesmo ditador marcou todo aquele que era Judeu, de forma a ser diferenciado dos restantes.
Não se sabe se o conflito do Médio-Oriente seja também ele fundamentado por esta história bíblica.

As interpretações erradas de uma passagem bíblica, que poderá ser apenas uma história figurada, será a responsável por numerosos crimes e atentados contra a Humanidade, a acreditar nas associações que foram sendo criadas? Será apenas um meio para justificar actos condenáveis? Para ilibar criminosos de seus crimes como Caim se desculpabilizou quando matou o seu irmão?
A marca a que se refere o autor bíblico pouco importa, não poderemos pensar eternamente no que seria, com o perigo de cairmos no mesmo erro, erro esse responsável por monstruosidades e a justificação de actos tão inconsequentes.
O que interessa retirar daqui, será essencialmente uma outra lição, esta mais positiva e capaz de ser mais construtiva para a Humanidade.




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HUMBERTO ECO: AS LISTAS COMO CONSTRUÇÃO DA VIDA

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11


Por: Manuel de Sousa

As listas como construção da nossa cultura, no sentido de organização e orientação do caos. Assim podemos entender a ideia de Umberto Eco, na recente entrevista ao jornal I, a 05-12-2009. Vivemos de listas no nosso dia-a-dia como princípio de colocarmos alguma organização em tudo o que nos rodeia. São listas de contactos, listas de tarefas, listas de compras, listas de pagamentos, listas de jornais, listas de favoritos da Web, listas de músicas e documentos nos arquivos do computador, listas telefónicas, testamentos, listas de livros, inventários, catálogos, listas de pesquisas dos motores da Web, listas, listas e listas. A vida é dependente delas como forma de enumerarmos tudo o que se vemos, temos, fazemos e sentimos. Até nos sentimentos fazemos listas quando se tenta descrever ou caracterizar o que se sente ou o que vai dentro.
Quando alguns pensavam que as listas estavam com os seus dias contados, como de um ritual primitivo se tratasse, desenganem-se porque estão para ficar, tanto quanto o Homem perdurar sobre a face da Terra. Por muito que o tempo passe, por muito que o Homem evolua na sua inteligência conviverá sempre com as listas e cada vez mais, fazendo-as evoluir mediante as suas necessidades diárias e necessidades culturais. Obviamente que as listas do séc. XVI, do tempo do Barroco não são iguais às actuais. Porém, a essências delas é a mesma, enumerar e organizar como forma de pesquisa, consulta ou de simples lembrança.
As listas são importantes como modelo de construção e organização da nossa cultura e do vasto conhecimento que desenvolvemos desde os nossos princípios existenciais.




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Por: Manuel de Sousa

«Encontramo-nos no meu próximo romance.» É desta forma que Rosa Lobato Faria termina a sua autobiografia, publicada no Jornal de Letras. Da mesma forma se despede dos portugueses e deste mundo aos 77 anos de vida.
Muitas histórias teria esta bela senhora para contar a este mundo que poderia muito viver delas e acreditar que esse mundo fosse possível de se tornar realidade.

Uma das grandes lições que podemos retirar da vida de Rosa é o facto de ter renascido aos 63 anos de vida e, desde aí, escreveu doze romances em 10 anos, um livro de contos e sete ou oito livros infantis. É sem dúvida um exemplo de renascimento que todos temos de aprender e interiorizar de tão cansados e desiludidos que andamos vagueantes por este mundo, sem saber exactamente para onde queremos ir.

Rosa Lobato Faria teve, como qualquer mulher de tempos idos, as suas dificuldades em poder pensar, agir por força própria, em escolher independentemente das opções de um marido ou fechada na família conservadora da época. Exalta a revolução que as mulheres fizeram nos últimos 50 anos, independentemente de quem quer que a tenha feito. O que interessou para si foi «descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais».

Aprender foi a sua palavra-chave e foi por querer aprender mais e mais que renasceu aos 63 anos. Aprendeu que a vida tinha muito mais para lhe dar e para nos dar; muito mais que simples histórias, lições de vida para um mundo perfeito que poderíamos criar.
Viver uma verdadeira infância foi um crescimento saudável que hoje já quase não se pode viver; longe de problemas «coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. (?) A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve.» Quanto era bom que a maldade do planeta se resumisse a uma bruxa que facilmente, e como em todas as histórias, se destruiria e tudo terminasse com um final feliz.

Na sua infância como na minha as escolas existiam em qualquer aldeia e não se pensava em fechar lá porque tinham poucos meninos. Aprendíamos coisas tão complicadas e absurdas ao dia de hoje, mas não batíamos na professora «levamos-lhe flores». Era mesmo assim, aprendíamos a tabuada, as linhas de ferro que entretanto deixaram de existir, as serras, os rios e o português sem acordos ortográficos.
Que contraste com o mundo dito livre e desenvolvido de hoje, mesmo eu que nasci muito tempo depois de declarada a liberdade. O desenvolvimento também quebrou muitos sonhos de criança, aqueles que acreditávamos ser possível pelo que líamos nos livros infantis da carrinha que ia à terra e levava muitos livros. Hoje já não se liga à doçura das bolas de Berlim porque há porcarias melhores e porque provocam obesidade. Nessa infância não existia obesidade porque mal chegavam as calorias das bolas de Berlim para as brincadeiras sabe-se lá onde, nos sítios mais esquisitos que se possam imaginar; fosse lá no campo, numa sucata, no meio do monte ou numa casa velha. Isso sim, cheirava a liberdade. Tínhamos as nossas brigas e tudo ficava resolvido sem fazer queixinhas ao pai ou à mãe.

A autobiografia de Rosa Lobato Faria faz-nos perder por um tempo de saudade, alegria e aventura. Um tempo de verdadeira liberdade sem nunca perder os valores fundamentais na pessoa humana. Afinal os valores ganham-se com esta liberdade sã.

Não existiam desenhos animados de luta por luta. Tínhamos Rua Sésamo, Tom Sower, Floresta Verde, Abelha Maia, Aventuras de Tintin, o Mundo Disney, etc, etc e deitávamos depois do Vitinho. Havia variedade para o sonho. Lembrar disso é traçar um sorriso com o passado de pequenino e acreditar que podemos ser crianças a qualquer momento. Quantos de nós ainda gostariam de voltar a brincar com carrinhos e as meninas com bonecas? Pois, mas não podemos porque ainda nos acham tolos.

O fascínio de Rosa está aqui, levar a divagar por um mundo perfeito que muitos tiveram a oportunidade de viver em tempos e que, por mim, voltaria a viver. Só por isto, já é uma grande mulher.

Pena que o valor que muitos de nós deveríamos dar a esta pessoa não foi feito enquanto estava fisicamente presente neste mundo. Lembram-se outras pessoas e esqueceram esta mulher que deixou um marco rico na nossa cultura em várias vertentes. Pena que a sua morte tenha passado ao lado de muitos que não experimentaram reviver o que ela nos tinha tanto para oferecer. Mágoa poderá a sua alma sentir por este país ser tão ingrato com quem lhe faz bem e por quem deixa um contributo eternamente marcado na cultura e na memória de muitos.

A vida está cheia de coisas inúteis, mas nem por isso nos devemos voltar contra ela, antes pelo contrário, ter a capacidade de renascer seja qual for a idade do corpo físico.
De lembrar que esta bela forma de pensar tornou-a numa pessoa tão bonita que nem a idade lhe roubou essa beleza física. Agora imaginem na infinidade da sua beleza interior, uma Rosa.

Esperemos encontra-la no seu próximo romance porque ela continua no meio de todos nós.



Leiam a sua Autobiografia em http://aeiou.visao.pt/um-rasto-de-hortela=f546518

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FARÁ SENTIDO A COMEMORAÇÃO DO 1ºDE MAIO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11


Por: Manuel de Sousa




Fará sentido a comemoração anual do Primeiro de Maio? Farão sentido as manifestações que se realizam um pouco por todo o mundo nesta data em que se procura lembrar o trabalhador?

Estas questões são intrigantes e que merecem a reflexão de todos, sejam trabalhadores, reformados, estudantes, desempregados, políticos, governantes, outros que pouco querem fazer da vida e responsáveis por empresas e seus representantes. São questões que merecem a atenção de todos e um certa discussão, de onde se possam tirar conclusões construtivas e se possível que contribuam para o bem comum. Ridículo dizer isto. Onde já se viu que os atrás mencionados possam tirar conclusões que contribuam para o bem comum? Em lado algum. Já se fizeram muitas discussões em torno do trabalho e poucos progressos se atingiram no mundo laboral.

A data do 1º de Maio continua a fazer todo o sentido para lembrar aqueles que correm no seu dia-a-dia para os seus empregos e lutam para fazer o seu melhor, de forma a merecer o salário que recebem no final do mês, que nem sempre, na maioria das vezes, dá para as despesas e para manter uma qualidade de vida aceitável, num momento em que o nível de vida encarece, enquanto o mercado de trabalho torna-se cada vez mais apertado. É o dia-a-dia destas pessoas que vivem acorrentadas ao trabalho e às duras leis e realidades laborais que merece ser lembrado e reconhecido não só pelos seus colegas, mas também pelos seus superiores e pelos dirigentes políticos, que por vezes usam de uma classe para expelir ódios ou criar falsas expectativas de um futuro risonho que é ilusório.

A crise internacional que vivemos não está a contribuir para que a vida das empresas esteja fácil e os apertos económicos não param de aumentar até ao estrangulamento final. Com estes apertos sucessivos, mês após mês, ano após ano, vai-se apertando com a classe trabalhadora, a classe mais frágil, onde mais facilmente se toca, se despede e onde mais facilmente se encontra forma de verem resolvidos os problemas. Em paralelo muitos milhares de desempregados vêm o seu futuro hipotecado, sem esperanças de encontrar uma estabilidade num futuro próximo, um futuro onde se fica à mercê da miséria que o Estado contribui com o subsídio de desemprego. Procuram diminuir o peso do Estado na economia e subjugar a sua importância na regulação e organização do mercado. Critica-se o aumento dos dependentes do Estado, quando aqueles que mais criticam são os responsáveis para o aumento de dependentes de prestações sociais do Estado. Mas, esse Estado também não tem resposta para ser uma alternativa na criação de emprego e na geração de riqueza, de forma a contrariar o aumento galopante das desigualdades sociais.




Num país tão pequeno como o nosso, é preocupante a percentagem de desempregados que atingem a longa duração e sem que tenham perspectivas de futuro. São muitas as pessoas com idades avançadas, que em tempos foram a riqueza de mão-de-obra da nossa indústria e agora são colocadas de lado como não-aptos a ingressar numa qualquer actividade laboral. Vivem o pesadelo da falta de formação, vivemos as consequências de uma ditadura que nos voltou para dentro e nos encolheu horizontes. E agora? Que alternativas?




O 1º de Maio serve para lembrar também todos aqueles que sendo empregados são explorados pelos seus patrões, onde o princípio económico é apenas o lucro pelo lucro, o dinheiro que rendes pelo dinheiro que custas. São princípios tão desumanos, que muitas desgraças provoca na vida de cada um, onde os direitos deixam de ser direitos, as regalias são extintas e a insegurança laboral é cada vez maior. Os escrúpulos dos patrões são evidentes e inegáveis, mas abafados com os discursos da necessidade de sacrifício em tempos de crise.




É assustador o elevado número de pessoas que trabalham sob recibos verdes, obrigadas a pagar os seus impostos no momento e sem data certa para receberem o que é merecido do seu trabalho. Não quero imaginar os quantos por aí trabalham sem direitos, sem seguros e com os salários em atraso, não por falta de liquidez das empresas, mas por falta de cuidado e zelo dos seus gestores.




Tristeza e revolta sentem muitos portugueses que lutam e suam por um salário mínimo, enquanto muitos outros, aqueles gestores que todos conhecem, trocam impressões dos milhões que recebem de salário e das chorudas indemnizações quando saem dos cargos que deveriam manter até ao fim. É natural que encarem tudo isto com insulto. Vivemos num verdadeiro caldo social, que temo ver explodir, enquanto nada for feito para travar tanta injustiça que nos condena à miséria.




O 1º de Maio terá de ser sempre o símbolo de luta contra estas desigualdades laborais, contra os atropelos e contra a passividade de um Estado que engorda e pouco faz para que o número de dependentes diminua.



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BENTO XVI, A GATA BORRALHEIRA DO VATICANO.

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa

O Papa Bento XVI foi nos últimos tempos e será nos próximos tempos um acontecimento nacional e mesmo internacional. Com a sua chegada aumenta o número de notícias acerca dos pormenores da sua visita e a sua figura que até aqui desconhecíamos, mas que ainda assim nunca revelarão a totalidade da sua figura.

Neste fluxo de informação fala-se do bom e do mau, do positivo e negativo, do supérfluo e relevante e criam-se mitos ou desmistificam-se histórias há muito construídas sobre a sua personalidade. A necessidade de conteúdos/informação e a sede com que se bebe tudo o que se conta, obriga que assim seja, mesmo que pelo meio existam os habituais exageros.

Ao contrário de João Paulo II, de grande popularidade e expressividade com o público e, por isso, mais cativante; Bento XVI não tem a mesma popularidade e não atrai a mesma quantidade de pessoas a um local. É um Papa que vende muito menos em muitas áreas de negócio e, por isso, também é menos apreciado.

Quando foi eleito no seu conclave, sabiam os Cardeais que a popularidade deste homem jamais seria a mesma do seu antecessor mas que, mediante as necessidades da Igreja e do seu tempo, este seria a figura necessária à continuidade de uma Instituição que necessita de continuar o seu trabalho de limpeza de um passado menos claro em várias vertentes.

Assumir os recentes casos de pedofilia e fazer com que a verdade seja exposta, dirigir-se constantemente às vítimas e famílias não é fácil para qualquer chefe de uma instituição, que tem de lidar com a justificada indignação de muitos fiéis. Continuar a esconder a ferida como se fez durante anos e anos só traria efeitos cada vez mais devastadores. Falta saber como saberá lidar com estes casos no futuro e se será capaz de tomar decisões justas para com os que sofrem.

Bento XVI não tem o mesmo carisma que o seu antecessor, talvez se preocupe mais em olhar para dentro, mesmo que as pessoas gostem que se olhe para fora. O Vaticano é uma casa muito grande, que precisa de ser bem arrumada e limpa porque por lá anda muita gente boa e má. Tem de lavar muitas roupas para que a brancura mais pálida e amarelecida desapareça. O Papa tem de ser uma espécie de gata borralheira que tem de cuidar da casa sem tempo para se divertir com diversões que muitos lhe colocam para desviar a atenção. Por essa razão, não pode ser, neste momento, alguém desatento ao que se passa dentro, caso contrário muitos larápios tentarão aproveitar-se do que lá há por dentro. É claro que este ponto de vista é figurado, mas não deixa de ser uma verdade.

Eu questiono-me mais sobre a Instituição Igreja do que sobre a fé que tenho. Como tal, não posso tecer juízos de valor sem antes compreender tudo o que se passa dentro de portas da instituição. Em tudo onde existe mão humana há coisas e más, tento separar o trigo do joio e deitar à fogueira tudo aquilo que não interessa. Há que criticar e apontar e dar tempo para resolver e, por isso, espero para um novo juízo.

Bento XVI pode não ser efusivo na proporção que desejaríamos, mas isso não significa que não seja real, verdadeiro e em privado seja uma boa pessoa. Dizem os que o conhecem melhor que é uma pessoa memorável e com apreço pelas pessoas. Se todas as pessoas que não fossem efusivas fossem más, então a maioria era má, até eu. Por muito contestável que este homem possa ser e até pelo conservadorismo de algumas posições e opções que também contesto, não podemos pôr de parte a sua inteligência, poder de análise e reflexão sobre os temas mais controversos e actuais. Podemos considerar um teólogo para além de professor. Quem teve a oportunidade de ler algumas das suas obras ou textos pessoais, em que é expressa a sua opinião pessoal sobre muitos temas nota uma consciência sobre os problemas sociais do mundo. A sua posição sobre a economia global e europeia, publicada na sua última encíclica, faz-nos pensar que estamos numa crise porque os nossos governantes assim o quiseram. A sua posição e exposição na primeira encíclica, por exemplo, mostra a realidade actual das relações amorosas e sociais actuais muito para além de uma só visão religiosa. Numa Igreja manchada que o seu antecessor teve de limpar com muito esforço, Bento XVI tem de continuar esse trabalho e também tem sido um dos poucos elementos de uma pesada instituição com a frontalidade de publicamente criticar opções e posições do que vai dentro, antes de criticar o que está fora.

Chegado a este ponto, pouco me interessa de um Papa efusivo. Preocupa-me mais os problemas sociais, económicos e políticos do mundo e a necessidade de serem resolvidos para o bem de todos. Concordo e discordo de muitas posições da Igreja Católica. Felizmente, tenho liberdade para o dizer, mas enquanto a procissão vai no adro não quero defender e ofender o pontificado de Bento XVI. Se eu ou tu estivéssemos no seu lugar, mesmo que cépticos, o que faríamos? As circunstâncias e o meio nem sempre nos levam e permitem a fazer o que queremos e pensamos e isso vê-se no dia-a-dia.

manuelsous@vodafone.pt

P.S.: Pelo menos o Catolicismo permite-me criticar e apontar, sem que seja apedrejado ou condenado a pena de morte por heresia.

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Por: Manuel de Sousa

O povo português e o Papa Bento XVI levarão muito tempo a digerir tudo aquilo que se passou em Portugal nos dias 11, 12, 13 e 14, em Lisboa, Fátima e no Porto. Portugal viveu de forma jubilosa a vinda do Santo Padre. De uma forma jubilosa, que não se imaginava ser a este ponto e a esta medida, embora todo o programa tenha sido muito bem preparado e se esperasse muita gente. Porém, as expectativas foram completamente ultrapassadas. Ultrapassadas da parte dos portugueses que acolheram o Papa e dele viram uma pessoa bem diferente do que nos foi transmitido e da imagem que se foi criando ao longo dos tempos. O próprio Bento XVI não será o mesmo, em certa medida, depois de tão calorosamente recebido por nós. A sua postura mais séria e recta alterou com o passar do tempo e a cada manifestação popular vi uma pessoa próxima, carinhosa, sorridente junto de várias pessoas, ainda que tivesse de romper por várias vezes o protocolo estabelecido, a ponto de preocupar as autoridades.

As expectativas foram superadas para os crentes que aguardavam uma mensagem de esperança, conforto, num mundo conturbado, em crise económica e de valores, com tendência a formatar o Homem no imediato, em detrimento da cultura e do pensamento. Vivemos em crise económica com aumentos de impostos e para enfrentar tempos difíceis será necessária coragem, partilha e união de todos, sobretudo dos que menos podem.

Numa Igreja pesada, em confronto com valores e ideais que se alteram de forma rápida e sem possibilidade de alteração, sem renunciar aos dogmas, e em risco de se perder no tempo, foi positivo todo o movimento juvenil que se gerou nestes dias. Com estes movimentos de jovens foi possível mostrar que ainda existe a possibilidade de continuidade num caminho profundamente doloroso e conturbado.

A viagem Apostólica de Bento XVI a Portugal tocou em muitos pontos importantes e sobre os quais é necessário reflectir, sobretudo para os Católicos praticantes ou não.

1 - Teve a coragem de falar da necessidade de purificação e penitência de uma Igreja pecadora e que, nem sempre, é exemplo de uma doutrina que apregoa aos fiéis. Reconhece a necessidade de se investigar e julgar os casos de pedofilia que permaneceram esquecidos, para mal das vítimas. A expulsão desses sacerdotes e o julgamento civil será um dos passos a serem efectuados. Desde 2005 que Bento XVI, ainda Cardeal, fala da pedofilia. Foi considerado um reaccionário ou tolo. Se ele não fosse Papa, será que os casos teriam sido tornados públicos ou permaneceriam abafados?

2 - À chegada do Aeroporto da Portela, no dia 11, manifestou agrado pela visita e expectativa e relembrou a necessidade e importância da separação da Igreja do Estado, tendo a liberdade de cada um agir em separado. Mas, tendo em conta que devem trabalhar juntos quando em prol do bem comum, sobretudo dos que são mais necessitados, sem se apegar a ideologias políticas e económicas.

3 - No seu discurso do Terreiro do Paço evocou a necessidade do mundo reflectir sobre os seus valores e a necessidade de revitalização das estruturas do Estado e da Igreja para que se mantenham vivas na sociedade.

4 - Encontrou-se no Centro Cultural de Belém com personalidades da Cultura portuguesa, que no fundo são parte da nossa imagem cultural e contribuintes da nossa História. A estes agentes da cultura, independentemente de processarem uma fé deixou-lhes a mensagem de trabalharem para o enriquecimento cultural do povo e para o aumento do conhecimento em plena abertura ao pensamento. A estes pediu que produzissem lugares de beleza porque a cultura é o contributo para a beleza, física e mental.

5 - Chega a Fátima como peregrino e como um filho que visita a sua mãe. Pede pelo mundo em convulsão e exorta para a necessidade dos Cristãos terem o seu pensamento para Fátima, mas sem esquecer que no Cristianismo a figura central é Jesus.

6 - Ainda em Fátima alerta os Bispos de que não são meros funcionários de uma instituição, mas que são parte integrante numa sociedade com quem devem trabalhar e a quem prestam serviço. Aqui relembra indirectamente o alerta já efectuado, anteriormente, à Igreja Portuguesa para a necessidade de olhar pelos mais necessitados e para aqueles que sofrem uma crise económica.

7 - No seu encontro com organizações e associações laicas e religiosas, relembra o trabalho que a Igreja tem feito no nosso país com centenas de organizações sociais que têm actuado nos mais pobres e desfavorecidos, organizações que ninguém vê nos media, mas que desempenham um papel fundamental em conjunto com outras instituições e que é importante manter e reforçar para se fazer mais e melhor. Aqui assenta os valores sociais da Igreja que são para reforçar ainda mais com mais proximidade.

Apesar de ainda mostrar conservadorismo em relação ao casamento na concepção de homem/mulher, tal não se poderia esperar que falasse do contrário com outras ideias porque a posição da Igreja é, infelizmente, nesta matéria irredutível.

8 - Já na sua visita ao Porto deixa uma palavra aos presentes para pensarem sobre o futuro que se apresenta como difícil, em que cada um terá de pensar na sua ética e nos seus valores e em que será necessário novas forma de diálogo com outras fés e crenças, na procura de um bem comum. As crises só se ultrapassam com fraternidade.




Talvez, toda esta crise derive de uma crise de valores e de falta de proximidade e fraternidade entre as pessoas. Bento XVI lembra que o lucro fácil estrangulou os valores humanos e a luta pela lei do mais forte condenou a humanidade no seu futuro.




A igreja tem de realmente definir uma clara orientação dos seus recursos e responsabilidades pelos mais fracos com respostas e objectivos claros.




É claro que, para muitos, nada disto faz qualquer sentido e nada de novo traz à sociedade actual, nada mais do que já sabemos actualmente. Porém, existe a necessidade de se ouvirem palavras e conselhos para a continuidade da caminhada que cada um tem de cumprir. Este estado social em que vivemos também precisa de ouvir uma palavra amiga no meio de tantos sacrifícios e adversidades com que se confronta no dia-a-dia. Acredito que, a muita gente, estas palavras tenham feito sentido. Se para essas pessoas lhes traz alento, força e sentido de procura do bem comum, crentes ou não, já terá valido de alguma coisa.

As comparações de Bento XVI com João Paulo II não podem ser efectuadas. São pessoas distintas, com percursos distintos. O anterior era muito mais expressivo. Bento XVI também o é, mas contido quando necessário porque na vida também é preciso contenção e reflexão para não aceitarmos o imediato que nos oferecem e que torna a Humanidade sem conteúdo. Que ao menos tudo isto nos faça questionar.




Esta visita apostólica levará muito tempo a digerir e só o tempo dirá o que de bom poderá resultar para Bento XVI e para aqueles que, de alguma forma, buscaram alguma coisa ainda que nem sempre definida.





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PORTUGAL: MAS, O QUE É SER PORTUGUÊS?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa


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Pesado país em que vives, Portugal, neste dia 10 de Junho. Pesados vivem os teus tristes e, muitas vezes, deprimidos portugueses que incrédulos assistem a uma lenta agonia de teus dias cada vez mais incertos. Que futuro esperar de ti Portugal? Que fazer para mudar a tua face e trazer-te de novo à glória?
Por vezes, se duvida que o projecto a que se chama Portugal consiga resistir à crise económica e à crise de valores também fortemente enraizada. Questiono a actual soberania e a capacidade de sozinhos podermos vencer.
Tanto esplendor no passado, tantas conquistas, tantas glórias, tantos conhecimentos, tantas revoluções políticas e sociais compõem a nossa História. Necessitamos de mais revoluções? Necessitamos de mais astúcia? Necessitaremos com certeza de muita coisa que nos traga à tona. Justiça, equidade, educação, é tanto aquilo que necessitamos com urgência para que os desígnios da nação não se percam definitivamente.
Tantas vezes vivemos mal e no fundo de desespero. Fomos tomados por estrangeiros e sempre vencemos com a nossa força e a nossa luta. Tantos verteram sangue e suor por uma réstia de esperança. Está na hora de buscar a força, a inteligência e a astúcia para reerguer Portugal e para se fazer cumprir os desígnios do país.
Mas, o que é ser português?
Não é apenas melancolia, sonho ou fado, é muito mais e melhor; é pertencermos a uma força muito maior e para além do humano, material e racional; é pertencer a um esplendor que está com todos e no meio de cada um. Podemos viver mal ou no desenrasque, mas há muito mais que isso; há uma nação que não deixa de ser indiferente todos aqueles que vêm de fora e que de cá partem. Partem diferentes e com uma alegria que os marcará para sempre. Somos acolhedores, amigos de todos os povos; somos humildes e honestos, contrariamente a alguns que envergam o poder; somos um povo que constitui uma nação que marca a diferença neste nosso mundo.


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Por: Manuel de Sousa 

Numa altura em que o jornalismo é atingido por diversas crises que tentam diminuir a sua importância e limitar a sua acção, valerá ler as palavras de um profissional com 45 anos de carreira ao serviço do jornalismo, que o encarou como uma missão e não como uma profissão. Gilberto Ferraz, uma voz portuguesa na BBC durante três décadas, mas ao mesmo tempo correspondente português em Londres para o JN, TSF e para a RTP. Acompanhante dos desenvolvimentos do jornalismo português dá-nos a sua opinião sobre os abusos cometidos para controlo da liberdade de imprensa, a tentativa de manipulação e dominação da comunicação social por grupos de interesses, o papel do Serviço Público de Televisão exercido pela RTP e uma visão do futuro da Imprensa em papel com a massificação da Internet e das edições on-line. Uma leitura, espero de bom agrado, que merecerá nossa reflexão sobre temas que preocupam aqueles que acompanham os acontecimentos dos media e as formas de como a comunicação evolui ao longo dos tempos.




 




Manuel de Sousa - Apesar de não se encontrar no nosso país, deve acompanhar os desenvolvimentos de alguns acontecimentos cá em Portugal. Como vê o recente caso da ligação do Primeiro-Ministro José Sócrates e a comunicação nacional, em que existem suspeitas de tentativas de controlo e pressão sobre repórteres e mesmo sobre as direcções editoriais?

Gilberto Ferraz
- Hábito de há 45 anos, em que ouvia diariamente a antiga Emissora Nacional, e em que na madrugada de 25 de Abril, acompanhei, par e passo, todos os acontecimentos até às 05 da manhã, mantenho o elo diário com o que se passa no nosso país. Além disso, estou em contacto físico ou em visitas pessoais frequentes ou, em família, pelo menos uma vez por ano, em que viajo de automóvel e passo, agora, pelo menos, dois meses no nosso apartamento em Cascais. Como veterano da comunicação social, mas melhor, profissional da BBC durante três décadas, uma emissora zelosa e ciosa da sua independência do Estado, considero, e sempre pugnei em artigos na imprensa Portuguesa, que quer governos, quer partidos, devem estar totalmente desligados, ou não interferirem nos órgãos da Comunicação Social, que devem gozar de completa isenção, influência ou pressões de governos. Por isso, em relação aos alegados e tristes episódios que, segundo as notícias conhecidas, o actual primeiro-ministro terá tentado influenciar ou controlar; a ser verdade, condeno totalmente semelhante comportamento só existente nas chamadas Republicas das bananas.




MS - Considera que perante os factos tornados públicos e as suspeições levantadas estará a comunicação social ameaçada pelo partido do Governo? Existem provas ou evidências que indiquem que a comunicação social está em perigo?




GF - Claro que, venha a ser provado, obviamente não é apenas a comunicação social que está em perigo, mas a própria Democracia e a Liberdade de Expressão do nosso País!. Em relação à minha carreira na BBC, cito dois importantes episódios: Um, aquando o então primeiro-ministro, Anthony Eden, empenhado na invasão do Suez procurou "amordaçar" a independência da BBC a transmitir o que o governo pretendia, o que não sucedeu devido à posição tanto do então Director Geral, como do próprio pessoal. Tentativa idêntica foi feita aquando da Guerra das Falklands. Como a BBC recusasse, o Ministério de Defesa do período foi obrigado a estabelecer um canal próprio em que transmitia pura, mas quanto a mim, suja propaganda, de que fui própria testemunha!




MS - Em Portugal temos a Impresa de Balsemão e a tentativa de Media Capital pertencer ao PS. É legitimo que um partido político ou Governo sejam detentores de um grupo de comunicação social? Em que moldes poderá existir essa possibilidade?




GF - Pelo que afirmei acima, discordo plenamente que tanto partidos, como governos, sejam possuidores de grupos, ou influência directa em órgãos da comunicação social.




MS - Uma televisão como a RTP deve ser mantida sob a esfera do Estado como empresa pública ou deverá ser privatizada, dado que se torna dispendiosa para p Erário Público? Existiria alguma possibilidade do serviço público de televisão ser distribuído por conteúdos pelos canais privados?




GF - Obviamente, aqui o melhor exemplo é a BBC. A emissora britânica tem estatuto próprio (Charter), que é renovada quadrienalmente. Embora subsidiada, na sua maioria, pela taxa da televisão, é editorial e totalmente independente, sendo responsável ao público contribuinte das taxas, aqui em termos de "stakeholders", e, como intermediário, em representação do povo britânico, ao Parlamento, a quem anualmente apresenta as suas contas e responde pela sua gestão. Além disso, e quando especialmente criticada quer pela imprensa de direita, mas especialmente a que está relacionada com as empresas de Rupert Murdoch, como a Sky, The Sun, etc. que ao zelar pelos seus interesses, mas não só, não faz outra coisa que atacar a que é não só emissora, mas instituição de cultura britânica. Em relação à RTP, na situação actual, subsidiada com publicidade, acho que deva ser privatizada, uma vez que está em directa concorrência com os canais comerciais. Caso contrário, ao ser financiada (em sua maioria) pelo Estado, deveria ter estatutos de Entidade Pública, mais ou menos nos moldes da BBC. Em relação aos conteúdos, deveria pautar-se por assuntos que as concorrentes geralmente não cobrem, como, e especialmente, de carácter educacional e informativo.




MS - Existe, nos dias de hoje, a possibilidade dos media serem independentes do poder político e económico ou terão que se subjugar dada a dependência dos meios financeiros e do estrangulamento económico que podem sofrer quando atacam os poderes instalados?




GF - A resposta a esta questão, pode ser encontrada, em parte, nos parágrafos e considerações anteriores. Para que a informação seja isenta e fidedigna, como se deve esperar, insisto na necessidade de completa independência de quaisquer poderes, quer, como afirmei antes, políticos, financeiros ou de "lobbies" organizados.




MS - Qual a sua opinião sobre a qualidade do jornalismo praticado em Portugal? Estará o Ensino a formar profissionais credíveis e capazes de praticar um jornalismo sério, credível e com profissionalismo?




GF - Observador atento ao sector e, como no início da minha carreira jornalística para Portugal (Jornal de Notícias e TSF, os quais servi, o primeiro durante 27 anos, ainda ao serviço da BBC, mas com autorização desta, e a segunda, 10, quando deixei oficialmente de exercer as minhas funções profissionais), devido às então limitações do sector, ou meios jornalísticos do nosso país, procurei pautar o meu trabalho de uma forma didáctica, o que foi reconhecido, apreciado e até oficialmente louvado. Actualmente, graças a outros meios, nomeadamente a internet, o ónus reside mais nas instituições académicas e formação de jornalistas. Neste domínio, e em relação ao nosso País, escuso pronunciar-me, uma vez que não estou, como desejaria, totalmente apto a fazê-lo. Porém, ao longo da minha carreira e observando colegas Portugueses e, mais recentemente em termos de trabalho, produzido nos actuais órgãos da comunicação social, obviamente as carências são visíveis. Além disso, não é apenas uma questão académica, mas a latente ausência de civismo e de espírito de responsabilidade, dos que deveriam ser profissionais, não obstante os regulamentos deontológicos.




MS - Como compara o jornalismo que se pratica em Portugal com a generalidade dos países da Europa? Estaremos muito distantes práticas Europeias?




GF - Além do exposto anteriormente, uma das grandes falhas numa boa parte dos profissionais da informação do nosso país é: a) arrogância, ao pretender superiorizar-se em relação à sua audiência, tratando-a muitas vezes com desdém; b) desnecessária incompatibilidade e inimizade com colegas, particularmente aqueles com mais competência e idoneidade; c) este, aliás, um mal encorajado pelos próprios gestores que, talvez por razões económicas preferem as novas, mas impreparadas, gerações e d) a falta de profissionalismo dos próprios jornalistas que desrespeitando as fontes, e procurando manchetes, geralmente não observam a confidencialidade.




MS - Como compara o tipo de público que português com o público europeu, em termos de exigência na qualidade de informação e na frequência com que procuram informação?




GF - Neste domínio, tudo se resume em maturidade democrática e amor pela leitura. No caso do nosso país, em que só recentemente os níveis de alfabetismo evoluíram, embora, como sabemos, nos grupos etários mais velhos se mantenham grandes e indesejáveis iatos, permanece o grande vácuo do amor e hábito da leitura, o que, obviamente se aplica aos jornais. E, num mercado restrito como o nosso, em que as circulações são ínfimas, obviamente o preço tanto dos jornais como, mas pior ainda, dos livros, por serem exorbitantes, mais desencoraja o amor pela leitura, recorrendo-se à imagem, à televisão, uma televisão baseada ou em telenovelas ou em concursos pouco estimulantes do intelecto. Portanto, neste domínio, comparado à experiência, particularmente britânica estamos ainda a anos de luz de distância! Mas, acrescento, em termos tecnológicos, as nossas televisões são excelentes!




MS - Quais as principais diferenças que encontra na prática ou no exercício da profissão nos tempos em que iniciou a sua carreira e os actuais?




GF - Obviamente, as maiores, as enormes diferenças, residem na tecnologia e na facilitação da notícia! Em termos de imprensa, cito um exemplo pessoal. Aqui, no Reino Unido, particularmente os órgãos estrangeiros, especialmente os grandes ou médios títulos, ao possuírem estruturas próprias, como escritórios e equipamento adequados, não dependiam, como a maioria dos correspondentes, em que eu e muitos outros nos encontrávamos dos meios públicos então existentes, como era o telex. O único, a cargo da então nacionalizada Companhia dos Telefones, na altura, aliás muito perto do Serviço Mundial da BBC, no Strand (perto da City de Londres). Quando a já privatizada British Telecom decidiu acabar com este serviço, o único no país, e o único meio da maioria dos correspondentes mandarem os seus trabalhos para o exterior, reagiram, montando uma notável campanha de que eu fui nomeado presidente, envolvendo órgãos britânicos da comunicação social, embaixadas, presidentes e primeiros-ministros dos países representados, enquanto cartas de protesto e contactos com ministros britânicos, incluindo a então própria primeira-ministra, Margaret Thatcher Felizmente fomos bem sucedidos mantendo-se aquele serviço até ao aparecimento dos faxes e dos e-mails! Além disso, a tecnologia e revolução na imprensa, que da composição a quente chegou à actual computorizada, incluindo a revolução a cor. No domínio da rádio, o abandono das tediosas e irritantes montagens, para a tecnologia digital, e, da televisão, a enorme possibilidade do envio de fotos e reportagens via satélite!




MS - Fala-se na crise da Imprensa e na possibilidade de, num futuro próximo, deixarmos de ter o formato em papel. Da mesma forma que se falava no fim da rádio com o aparecimento da televisão ou no fim da televisão com a chegada da internet. A televisão e a rádio adaptaram-se e ainda aí estão. Os jornais terão capacidade de se adaptar?




GF - A adaptabilidade tanto da imprensa, em relação à televisão, já é de todos conhecida. Obviamente a circulação baixou drasticamente, mas não morreu. Aqui no Reino Unido e, na maioria dos países de grande nível de leitura, a maior adversária tem sido a internet, levando ao fecho de grandes e conceituados títulos. A posição actual, como é o caso da News International, em que a partir de Junho começa a cobrar aos utentes pela consulta das e edições digitais, poderá ser a norma. Mas em princípio poderá não singrar, prevalecendo a consulta gratuita na base de apoios publicitários, iniciativas em que as edições digitais dos principais matutinos terão que se adaptar e aperfeiçoar. Mas em países como a Índia e a China, não obstante o aumento da internet, a imprensa predomina. No tocante às televisões, evidentemente, embora a recolha e divulgação da notícia continue a ser altamente proibitiva, muito terá de ganhar com a internet, tanto em termos de recolha como de divulgação da notícia.




MS - Considera normal que num país como o nosso existam tão poucos leitores de jornais comparados com outros países Europeus como a Espanha e a França? Acha que existe a possibilidade de se alterar o rumo?
GF
- Além do que afirmei anteriormente, acrescento que com o aumento do alfabetismo, no nosso país há uma grande possibilidade de se alterar a situação. Compete aos principais títulos montar campanhas a nível escolar, de difusão da leitura e do amor aos jornais. Trata-se de uma questão de gestão e promoção. A outros níveis, iniciativas e apoios da imprensa a nível particularmente local e regional, sem dúvida que muito contribui. Aliás, neste domínio o JN, tanto a nível escolar como de promoção com a atribuição de prémios, tem sido um dos pioneiros.




MS - Qual a sua posição perante a distribuição de jornais gratuitos em Portugal, tendo como exemplo a elevada contestação que se gerou em França e os problemas ambientais que se sucederam (lixo nas ruas e esgotos entupidos). Pelos dados existentes, as publicações gratuitas tiveram um crescimento, mas será num curto espaço de tempo?




GF - Há alguns anos, portanto muito antes dos actuais Destak e Metro, estive interessado em envolver-me e lançar a ideia em Portugal. Obviamente os jornais gratuitos têm desempenhado um papel importante na difusão da leitura. Pecam, porém, pela escassez de estrutura editorial, mas pior ainda, como aponta, constituírem uma enorme ameaça ambiental. Aqui em Londres, onde existiam vários títulos gratuitos, apenas um (Metro) prevalece, embora o vespertino The Evening Standard, que era pago, é actualmente grátis. Porém, prevalece o problema ambiental, em que as câmaras e as companhias dos transportes fazem campanhas para que os leitores não deixem os jornais nos transportes, o que infelizmente não acontece.




MS - Quais as limitações, virtudes ou defeitos que os jornais podem na versão online?




GF - As limitações são mais de conteúdo e, claro, tudo depende dos investimentos que são feitos para a sua melhoria. O exemplo britânico é muito sui genneris, destacando-se principalmente o The Guardian On Line, mas acima de tudo a BBC que possui um dos melhores e mais completos serviços digitais ao ponto de, mais uma vez, ser o magnate Murdoch a impor-se e a montar uma enorme campanha ao ponto de obrigar a BBC a reduzir este seu serviço completamente grátis!




MS - Dizem críticos que para a versão papel existir os jornais terão de deixar de noticiar o que aconteceu ontem e passar a noticiar sobre o que vai acontecer amanhã. Terão de ter uma outra filosofia. Acha que assim tem de ser?




GF - Não necessariamente, mas neste domínio a imprensa britânica tem-se notabilizado já há vários anos. Aliás, as revistas noticiosas, nomeadamente a americana TIME e a britânica The Economist, são excelentes exemplos. Claro que este tipo de reportagem exige e depende muito de altamente especializados jornalistas, o que quer dizer custos elevados.




MS - Alguma vez sentiu pressões por parte de direcções ou poderes externos sobre o seu trabalho?




GF - Na BBC, nunca! Aqui cito, de novo, um exemplo pessoal. Estávamos em 1997, ano de várias greves durante o governo de James Callaghan. Como na altura se dependia largamente em artigos da Directoria Central, portanto usados e traduzidos (mas, atenção, não adaptados ou resumidos) pelas 42 secções, veio-me à mão um artigo para a edição daquele dia, altamente tendencioso em que alegava que as greves estavam a proliferar e quase a paralisar o país. Contactei os respectivos serviços e apontei o problema, pelo que me foram dados todos os poderes para, embora dando a notícia, transmitisse a versão por mim considerada correcta. O que foi feito! Quanto ao meu trabalho com o JN, embora tivesse sido sempre respeitado e apreciado por vários e inúmeros directores e leitores que o faziam através de correspondência pessoal, infelizmente, surgiram problemas com colegas, não a nível editorial, mas de carácter logístico, que me levaram a considerar a minha resignação. O que lamentavelmente tive de voluntariamente, e a título pessoal, fazer.




 MS - Qual o conselho que deixaria aos jornalistas portugueses?




GF - Numa honrosa capacidade e responsabilidade como o jornalismo, não deve ser encarado como profissão, mas missão. Por isso ser fiel tanto às fontes, mas especialmente às audiências e NUNCA, MAS NUNCA, ceder a pressões, sejam elas de quem venham. Além disso, pugnar pela isenção, conscientes dos nossos próprios defeitos e percepções pessoais.





Estas e muitas outras experiências de 45 anos de profissional e vivência, bem como observações, constam no manuscrito a publicar, intitulado Por Terras de Sua Majestade.




 




 A HISTÓRIA DE GILBERTO FERRAZ

Por: Manuel de Sousa




Gilberto Ferraz foi uma grande voz portuguesa da BBC, talvez menos conhecida entre nós que outras vozes como Artur Agostinho ou mesmo Fernando Peça. Porém, o protagonismo de Gilberto é ultrapassa as barreiras da BBC e foi bem presente no jornalismo português, ainda que continue a viver em Londres. Achei por bem dar-vos a conhecer este homem do jornalismo, que apesar da sua ausência física no nosso país, é um acompanhante de tudo o que por cá vai acontece e além disso, ainda nos conta as suas histórias de 45 anos de carreira e nos dá a conhecer trabalhos jornalísticos que vai desenvolvendo no seu dia-a-dia. Neste momento, Gilberto Ferraz é autor de um conhecido blogue no Jornal de Notícias, o Glifer, com artigos da Terra de Sua Majestade e não só. Podemos também encontrar artigos de opinião na edição on-line do Jornal Destak e mesmo na edição on-line do Diário Económico. Com 76 anos de idade, contínua com uma movimentação genial no jornalismo, onde existe uma colaboração com a Rádio Contacto Road Show, em Londres. É solicitado actualmente pelos media britânicos e mesmo internacionais, BBC, ITV, Sky News, jornais The Daily Express, The Times, para comentar assuntos relacionados com Portugal (entre eles destaca-se o desaparecimento de Madeleine McCain e defendendo Portugal dos ataques perpetrados pelos media britânicos).
Ligado à família política do PSD, onde desempenhou a função de Presidente entre 1979 e 1990, na Seccção do PSD na Grã-Bretanha e onde destacamos a sua mensagem de parabéns pela eleição de Pedro Passos Coelho para a presidência do PSD, no site oficial do Partido. Na sua luta política destaca-se a posição influente que exerceu aquando o Partido Socialista teve a intenção de pôr termo ao Voto Postal da Emigração.
Por toda uma carreira de 45 anos de jornalismo activo, foi agraciado em 1995 com a Comenda de Mérito por «altos serviços prestados ao jornalismo».
Gilberto Ferraz, nasceu em Tondela, a 9 de Fevereiro de 1934 e foi para Lisboa com 12 anos de idade. Desde muito novo que manifestou o seu interesse pelos acontecimentos nacionais e internacionais, inclusive pelos assunto relacionados com a II Guerra Mundial como o julgamento dos dirigentes nazis, durante os Julgamentos de Nuremberga. Em Lisboa, converte-se ao protestantismo e começa a trabalhar como jornalista no quinzenário «Espada do Senhor» onde desempenhou cargo de chefia durante cinco anos.
Em Agosto de 1965, vai para Londres, para o Serviço Mundial na BBC, inicialmente com um contrato de quatro anos, mas por lá trabalhou cerca de trinta anos, na secção portuguesa e na secção brasileira. A par da sua profissão como jornalista de destaque, foi fundador e responsável pelo Departamento de Estudos de Audiência de Língua Portuguesa. Por lá se cruzou com notáveis da comunicação como Joaquim Letria e José Rodrigues dos Santos.
Exerceu funções voluntariamente, durante seis anos, o posto de Vice-presidente da ABS (Association of Broadcasting Staff ? Sindicato) e mais tarde na vcbhBECTU (Serviço Mundial).
Para além dos vários cursos internos da BBC em jornalismo e administração, obteve o curso de Relações Públicas na City University e foi um dos primeiros alunos estrangeiros da Open University, em que frequentou Literatura do Séc. XIX, História e Psicologia. Foi também orador convidado em universidades e organizações governamentais, particularmente relacionadas com defesa e relações internacionais.
Homem de lutas como a famosa «Luta do Telex», numa altura em que se dependia deste meio para que os jornalistas enviassem os seus trabalhos para os jornais estrangeiros e a recém-privatizada British Telecom queria acabar com este serviço. A luta de Gilberto, membro fundador de um Grupo de Jornalistas Estrangeiros no Reino Unido, foi bem sucedida.
Era frequentemente convidado pelo governo britânico a iniciativas então inéditas como foi o caso de visitas a manobras tanto navais, (caso das manobras da NATO na Escócia, em Março de 1982, em que faziam parte tanto contratorpedeiros como porta-aviões, nomeadamente o Ark Royal e o Hermes da Marinha Real Britânica, que em Abril seguinte zarpariam para a Guerra das Falklands/Malvinas, Truffaut, da Marinha Real Belga e o navio-comandante Lossen da Marinha Real Dinamarqueza) como militares em terra, NATO e forças britânicas, tanto na Grã-Bretanha como na então Alemanha Federal, fazendo inclusivamente parte das últimas grandes manobras das forças da NATO nas proximidades de Rendsburg, Schleswig Holstein, no norte daquele país, e entrevistado tanto dirigentes políticos de várias nacionalidades como comandantes e secretários-gerais da NATO. No domínio da defesa, considera particularmente notável o convite, e encontro, com o então ministro britânico de defesa, actualmente Lorde King, nas vésperas da primeira invasão do Golfo, em Dezembro de 1990, em que, no seu gabinete foi confidente de importante informação sobre o Conflito, mas que, fiel às suas fontes, e sendo uma conversa "off the record", não a revelou.
Nos finais da década de 70 foi solicitado por diversas vezes pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico como tradutor e acompanhante em representação oficial britânica, de altas delegações oficiais Brasileiras, Angolanas, Moçambicanas, São Tomeenses e Cabo Verdianas. No caso do Brasil, altura em que o país passava por uma grave crise económica, Gilberto foi o contributo para que fossem efectuados empréstimos por parte de instituições financeiras britânicas.
Desde 1978 até 2005 foi correspondente do Jornal de Notícias, sendo o primeiro correspondente de um jornal português após o 25 de Abril. Durante 10 anos foi também correspondente da TSF e desde 1989 exerceu funções para a RTP quando solicitado.





MOMENTOS DE UMA CARREIRA


Por: Manuel de Sousa

Das muitas reportagens que Gilberto Ferraz produziu para a BBC e para os meio de comunicação portugueses destaca-se a cobertura para o Jornal de Notícias e para a TSF dos acontecimentos conturbados em Timor-Leste que tiveram grande importância na cobertura editorial da Secção Portuguesa, ao ter conhecimento que a Resistência Timorense ouvia atentamente, e gravava, as suas emissões, sendo o único contacto que mantinha com o exterior.




Destaca-se a cobertura contínua e em directo efectuada para a TSF do falecimento da Princesa Diana, desde o anúncio do seu falecimento, em Paris, assim como todos os momentos de dor e luto do povo britânico, até ao cortejo fúnebre do Palácio de Kesington e das exéquias na Abadia de Westminster.

Para a TSF existem outros destaques que marcaram a carreira de Gilberto Ferraz. A 09 de Setembro de 2000 acompanhou os protestos do aumento dos combustíveis em vários países da Europa, tendo Gilberto Ferraz traçado em pormenor o panorama vivido no Reino Unido, em que as principais companhias de abastecimento começaram a ficar vazias, como a Shell e a BP e o retrato da agressividade dos protestos em Stanlon, Milford, no País de Gales, no tempo em que Gordon Brown detinha a pasta das finanças.
A 10 de Julho de 2000, também para a TSF, Gilberto Ferraz acompanha os protestos da protestante Ordem de Orange com grande impacto em Belfast, onde as ruas estavam desertas e onde existiram estradas cortadas ao trânsito.
Já em 08 de Junho de 2005, retrata-nos a posição de Tony Blair em aproveitar o positivo da Constituição Europeia, num país que suspendeu a realização do referendo. Fez-nos um relato de toda a situação acerca das decisões e tomadas de posição na negociação da Constituição Europeia, no Reino Unido, depois de alguns referendos noutros países Europeus que disseram «não».

Para o Jornal de Notícias são de destacar outros acontecimentos como a 30 de Abril de 2004 em que retrata a chegada de José Mourinho para treinar o Chelsea e a 25 de Maio de 2005 anuncia a entrevista que o treinador dá à BBC. A 30 de Abril de 2005 retrata, para o JN, o estado de espírito do Reino Unido perante a morte de João Paulo II.
Nos tempos actuais em que o Reino Unido conhece as novas figuras de um novo governo minoritário, Gilberto retrata, em 07 de Fevereiro de 2005, o recorde de Tony Blair como chefe de governo pelo Partido Trabalhista, ao atingir os 7 anos e 279 dias.
David Kelly, o cientista Britânico que se terá suicidado num bosque de Oxford, por razões desconhecidas, mas devido às decisões tomadas em relação à Guerra no Iraque, foi acompanhada pelo JN, que fizeram titulo a 23 de Dezembro de 2004. Ainda sobre a Guerra do Iraque, em 2004, Gilberto Ferraz traça os acontecimentos relacionados com os motivos e os relatórios que levaram à ofensiva, onde se falava de armas de destruição maciça, que nunca foram encontradas. Os motivos de uma guerra que provocou baixa nas sondagens de Tony Blair.
A 08 de Dezembro de 2004 chegam notícias das tentativas no processo de paz na Irlanda do Norte, que haviam sido suspensas há três anos.
Como jornalista veterano que foi ao serviço da BBC, Gilberto Ferraz em Maio, Junho e Julho de 2004 retrata os períodos conturbados na História da BBC, assim como, das modificações que se registaram na estrutura, das greves e dos despedimentos.
Em Janeiro de 2005 numa reportagem para o JN é noticiado o destaque de Portugal na televisão britânica, com a transmissão em vários canais de programas prestigiantes acerca de diversas regiões portuguesas e do que por cá se pode encontrar de melhor.
Por fim, ainda de registo, a 6 de Junho de 2005, o acerco de António Champalimaud foi leiloado em Londres. O JN, por intermédio do seu correspondente Gilberto Ferraz, contou o decorrer do leilão, das obras leiloadas e dos valores obtidos.
Uma vida profissional recheadas de reportagens, acontecimentos e muitas histórias, em 45 anos de carreira registados no livro, a publicar, com o título «Por Terras de Sua Majestade».

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PODERIA DEUS PERDOAR JOSÉ SARAMAGO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa
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Na possibilidade da existência de Deus, que na perspectiva de José Saramago não existe, mas que estava presente nas constantes declarações públicas e em algumas das suas obras, poderia este homem ser perdoado por Ele?
Mas perdoado do quê propriamente? Que pecados cometeu este homem para se condenado eternamente?


É certo que Saramago não foi muito meigo para com Deus e são conhecidos os sucessivos ataques em termos filosóficos contra o Ser Sobrenatural e contra a religião, que é o ópio do povo ao tentar limitar a visão dos terrenos em relação ao mundo. José Saramago tentou ao longo das muitas páginas que escreveu desacreditar Deus e preocupou-se em contradizer o próprio Deus, detentor de sabedoria. Procurou a contradição entre os actos e os ensinamentos escritos nos textos sagrados. Fez a sua crítica num exercício de inteligência e cuidada, de forma a serem encontrados o mínimo de pontos possíveis de discórdia. Mas, como em todas as filosofias, há sempre por onde se contrariar as posições e as teorias, sendo a maioria dos debates estéreis e que não chegam a lado algum, mas confesso que muito interessantes e bastante curiosos.


É certo que Deus foi muitas vezes ofendido nos textos de ficção coberto de verdades e de pensamentos válidos. Mas, Deus não se deve sentir ofendido quando alguém, na sua liberdade de opinião, questiona a Sua existência; afinal não O vemos. Quiçá Saramago não estaria a fazer um teste de resistência e tolerância ao Deus, para testar a sua passividade?
Se Deus existe não esteve muito preocupado com as acusações e heresias de Saramago, caso se sentisse incomodado teria sido sanado, de forma breve e livre de qualquer suspeita. Afinal, Saramago morreu velho. Se esse Deus, supostamente mau para o escritor, se sentisse em perigo, teria impedido as mentes ordeiras de comprar as suas obras.
Não esperaria que às portas da morte José Saramago renunciasse às suas críticas e na agonia pedisse perdão e se convertesse. Não, este homem não renunciaria aos seus princípios e às suas interrogações ou acusações. Talvez por isto seja admirado.


Apesar de tudo, o Senhor foi bom para ele e, se calhar, disso poderá ficar grato ou então andará o mundo enganado e a debater algo sem qualquer sentido de existência e que apenas serviu para entreter as pessoas.
A Igreja Católica terá capacidade perdoar Saramago? Desconfio que isso não seja possível, se de facto o sentir como culpado. Apesar de reconhecer a capacidade de inteligência do escritor, não desarma das suas críticas contra o Marxismo de Saramago.
Mas seria apenas a Igreja Católica a única visada das suas críticas? Não apenas, todas as religiões foram atingidas de um acerta forma, se bem que as críticas se dirigiram com muito maior força contra o Catolicismo, afinal a sua cultura estava banhada de Cristianismo como costumava a dizer. Apesar de tudo, esteve livre de ameaças pelo facto de ser crítico e austero nas suas posições radicais, coisa que em relação ao Islamismo seria preocupante e certamente que a vida de Saramago correria sérios riscos.


Mas, no fim de contas, José Saramago não estava à espera de ganhar o céu, este contenta-se com o fim da vida terrena sem continuidade para qualquer outro lado ou estado de espírito. Não se preocupou na perfeição, mas na coerência das suas palavras, existisse ou não um Juiz Superior para o julgar para o bem e para o mal. Morrer em tranquilidade deve ter sido o seu desejo, estivesse ou não com Deus do seu lado na hora da verdade. De qualquer forma, como já tive a oportunidade de escrever anteriormente, este tornou-se num ser imortal que ficou e ficará na memória de muitos apreciadores ou não e será imortalizado pelas obras que deixou. Quiçá um presente de Deus pela sua inteligência, acutilância e ousadia de chamar à razão da verdade as mentes adormecidas. Entre os que acreditam num Ser Superior e os que não acreditam, certamente que muitos agradecerão pelo facto de Saramago ter ajudado a reforçar posições, filosofias, pró ou anti-religião. Se de facto foi capaz de o fazer, é digno de uma imortalidade, quem sabe concedida por Deus.


 


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Por: Manuel de Sousa
manuelsous@sapo.pt


A literatura portuguesa ficou, não direi mais pobre, mas mais triste pela perda de José Saramago, uma personalidade de grande relevo e importância na escrita, independentemente das polémicas e das controvérsias das suas posições. Partiu 12h 30m, do dia 17 de Junho de 2010, com 87 anos de vida, devido a uma múltipla falha orgânica, após doença prolongada, na companhia dos mais próximos. Consta-se que partiu de forma serena e tranquila, talvez com a sensação de trabalho feito durante esta sua vida que sempre julgou apenas como sendo terrena e sem qualquer continuação para lá da morte.


De José Saramago já muito se falou nestes dias e a notícia da sua morte correu de forma rápida e da mesma forma se fizeram imensos comentários um pouco por todas as formas de comunicação. Como sempre, muitas opiniões a lamentar a sua morte como uma perda para a literatura e para o mundo da cultura e outras em tom de crítica quanto à sua personagem, pertinência a suar a uma certa arrogância, opiniões que roçam o político e o religioso, faces da vida que sempre marcaram Saramago ao longo de uma vida conturbada. Atrevo-me a dizer que uma vida bastante rica e com uma inteligência invulgar.



O HOMEM

No dia das cerimónias fúnebres de Saramago, muitos, entre personalidades e anónimos lembraram a pessoa que era o José e a sua simplicidade, contrária ao que muitos de nós se habituaram ou nos construíram pelas suas reacções, por vezes ácidas, com que comentava os temas ou as questões que lhe propunham. Sem dúvida que para muitos foi criada a imagem de um homem frio e distante de todos e dos seus. Porém, as pessoas com quem privara têm uma noção e uma visão bem diferente da pessoa. Nos seus discursos públicos José Saramago costumava lembrar as suas humildes origens Ribatejanas e a sabedoria de seu avô Jerónimo, que na altura de Verão dormia com o seu neto debaixo da figueira depois de divagar sobre as suas histórias de vida. Saramago aprendeu com esta sabedoria e quiçá será um reflexo da vida de seu avô e da sua avó não menos sábia, como dizia.


Independentemente de todas as tomadas de posições, criticas e azedumes, crê-se que era um homem de fortes convicções em quem se podia confiar pela sua fidelidade aos amigos e aos valores. Um exemplo de integridade para o mundo actual, mesmo que isso lhe trouxesse dissabores. No discurso da Real Academia Sueca, por altura do Nobel que recebeu em 1998, a certa altura disse: «A biologia não determina tudo e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga (?) Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras de minha vida (?) a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou». Estas pequenas palavras transcritas do seu discurso resumem parte da essência deste homem, José Saramago.



O ESCRITOR

A sua carreira sem dúvida que ganhou uma grande projecção quando foi galardoado com o prémio Nobel da Academia Sueca, em 1998, quando completava 76 anos de idade. Este era um prémio há muito aguardado pelas várias vezes em que o seu nome foi apontado para ser eleito. Porém, a sua obra com ou sem grande prémio de referência internacional, continuou a ter a mesma qualidade de sempre e com o mesmo gosto e a mesma acutilância que todos esperam quando compra um livro seu.
A forma de escrita deste senhor da literatura foi sem dúvida revolucionária e nem sempre bem aceite pelo nosso público, que construiu uma imagem em torno de uma pessoa com uma escrita considerada incompreensível. Reinventou uma forma de escrever, que podem chamar de barroca, mas que não perde qualquer sentido quando lido com o sentido que o autor entende ser dado. A inteligência de Saramago não era apenas a pensar nas histórias que editara, era também sua intenção escrever de uma certa forma, para que a leitura tivesse a posição que este defendia e considerava importante ter. Uma forma indirecta de partir para o convencimento de forma lógica e breve. A pontuação criticada por muitas vozes como sendo obscena e sem qualquer rigor linguístico, provoca exactamente o contrário, ou seja, fazem o leitor deambular ao longo das páginas com uma rapidez tal, de forma a não sentir qualquer maçada na leitura, mas prazer.
As crónicas, contos, diários, ensaios, memórias, poesias e romances fazem da obra de José Saramago algo de uma riqueza impressionante, que estará sempre viva no futuro porque é ao futuro que se dirigem as suas palavras. Saramago escreveu para o hoje e muito para o amanhã, o que marcou a diferença de grandes homens da literatura portuguesa que escreveram para o passado e para o presente e que por muito rica se sejam suas obras, nem sempre se poderão projectar no futuro contemporâneo. A acutilante escrita procurou desassossegar as mentalidades mais adormecidas e procurou remexer as teorias que perduraram na História durante séculos. A sua escrita procurou remexer com as instituições e aquilo que o mundo tenta manter como estático e imóvel para o acomodar das consciências. Escreveu sobre um povo português que sempre amou mesmo após vários azedumes. Foi um homem que através da escrita tentou dar luz ao sonho. Deu, com certeza, luz ao sonho de muitos.
A toda esta sensibilidade e capacidade lhe valeram os prémios de uma carreira como Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Camões, para além do Prémio Nobel da Literatura, a 1998. Um autor internacional, traduzido em muitas línguas, tantas quantas as que quiseram conhecer a sua obra de dignidade para a Língua Portuguesa.



O POLÍTICO
 


Conhecido homem de esquerda, José Saramago foi militante do Partido Comunista desde 1969, nos tempos da clandestinidade e na preparação para a aurora de Abril. Foi por Abril que este ser lutou porque sempre sonhou com a liberdade do povo português. Comunista, o ideal marcado nos seu código genético, que assegura nunca ser possível libertar mesmo que fosse essa a sua intenção. Porém, nem sempre concordou com posições do partido e de Álvaro Cunhal, mas tinha a frontalidade de o afirmar a quem de direito como forma de respeito para com os outros e como sinal de lealdade para com o partido e para com a sua consciência. Apesar dos prémios e da fama que lhe foi sendo marcada com a passagem do tempo, nunca abandonou as suas convicções. Foi político autárquico por Lisboa e mesmo para o Parlamento Europeu em lugar não elegível. Muito criticado pela defesa de uma aproximação a Espanha e defensor de uma posição de um país ibérico.
Mas, apesar de tudo nunca deixou o seu patriotismo português e teve a frontalidade de o dizer publicamente quando recebeu o prémio Nobel como sendo também um prémio para os portugueses. Não negou as suas origens e como tal, uma defesa do seu patriotismo. Partiu para Espanha, para Lanzarote, mas permanentemente vinha a Portugal onde possuía residência e a quem pagava os seus impostos. A sua ida para Espanha foi uma decisão pelo que o Governo Português, na pessoa de subsecretário de estado do Ministério da Cultura, António Sousa Lara, em 1992, tomou quando decidiu riscar a obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo, da lista de livros concorrentes ao Prémio Literário Europeu. Uma acção de censura, por considerar que este foi um acto contra o património cultural e religioso de Portugal. O Governo de Cavaco Silva não o considerava quiçá bem-vindo.
Talvez este reflexo seja a justificação para o Chefe de Estado português, Cavaco Silva, não se encontrar presente nas cerimónias fúnebres. Uma falta de sensibilidade, cortesia, uma falha que não se preenche com um representante da casa civil. José Saramago foi bem claro quando disse que agradecia o que os portugueses fizeram por ele e que não guardava, por isso, qualquer ressentimento.



O RELIGIOSO
 


São do conhecimento de todos as críticas e ataques que José Saramago dirigiu contra Deus e contra a religião, nas suas obras e mesmo nas suas intervenções públicas. As últimas e mais ferozes terão sido na altura a publicação do Caim, em Outubro de 2009, quando classificou como Deus da Bíblia um ser monstruoso e o Livro Sagrado como um livro de maus costumes e que deveria ser afastado da leitura dos jovens, por existir sangue, ódio e incestos. A Igreja Católica apesar de lamentar a sua morte, não deixa de lado as críticas de que foi alvo por Saramago, das suas influências anti-religião e marxistas, que utilizou para granjear prémios e popularidade.
A verdadeira intenção do escritor era o levantamento de questões religiosas, nem sempre bem esclarecidas e que mereciam uma análise. Para Saramago, acreditar sem questionar não faria qualquer sentido e essa foi a sua intenção, independentemente de alterar ou não a fé de cada um.
Apesar de não acreditar em Deus, não deixa de mostrar, na sua obra, a preocupação em relação a Ele e à possibilidade de este existir quando tem a pertinência de o questionar em relação ao que vê com os seus olhos no mundo actual. A sua constante negação não põe de lado a defesa da sua mentalidade que no fundo é Cristã e os seus valores estão enraizados e recheados de Cristianismo e foi essa cultura e mentalidade que o perseguiu durante a sua vida. Preocupava-se muito com Deus porque dizia que Ele está na cabeça de cada um.
Sem dúvida um sentimento religioso que o preocupava e que pretendia desacreditar, levantando inúmeras questões com o objectivo de não existirem repostas válidas ao que é difícil explicar.


Muito mais haveria a falar da riqueza da vida de José Saramago, mas todas as palavras serão muito poucas, comparadas com as palavras escritas por si e que tivemos o prazer de ler e partilhar.
Para o Homem que dizia que morrer é simplesmente natural, a natureza cumpre assim o seu papel de levar um homem que deu muito a muitos, mas que nunca se perderá na memória. Isso temos a certeza, de ser imortal, num mundo de coisas que nascem e morrem.


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Por: Manuel de Sousa


manuelsous@vodafone.pt


  «O Governo  não abdica de nenhum instrumento disponível para defender os interesses de Portugal». São palavras de José Sócrates em relação ao veto do Estado Português, na venda da Vivo, à Espanhola Telefónica. Joana Amorim, no artigo do Jornal de Notícias, a 03-07-2010, realça esta mesma frase referindo-se a ela como uma atitude de arrogância que o primeiro-ministro não soube gerir.


A semana que passou foi uma semana dura para Portugal e para a economia portuguesa. Para além da derrota futebolística frente à Espanha no mundial, falta saber se estaremos perante uma outra derrota, frente ao Tribunal Europeu de Justiça quando der um veredicto sobre o caso.
O que pode uma golden share sobre os destinos de uma empresa como a Portugal Telecom?


Pelo desenrolar dos acontecimentos do passado dia 30-06-2010, na Assembleia Geral para a venda da Vivo à Telefónica, o poder da golden share parece ser bem maior que o esperado, a ponto de vetar o negócio aprovado por 62% do núcleo duro de accionistas. Uma participação do Estado Português de apenas 500 acções douradas. Apesar de uma posição minoritária, esta confere-lhe poderes especiais, para manter poder sobre empresas que foram do Estado. Poder que permite eleger um terço do total de administradores e também o presidente, poder de vetar alterações aos estatutos, alterações ao aumento de capital social e emissão de obrigações e uma posição em relação à compra e venda de empresas nos vários mercados.


Apesar da golden share existir desde sempre e dos seus accionistas saberem o que esta representa nas decisões do grupo, não compreendo a surpresa que a decisão do Estado provocou na Assembleia Geral. Certamente, que o negócio no valor de 7,15 mil milhões de Euros seria um valor mais que justo ou mesmo acima do esperado e iludidos pelo montante nunca imaginavam um bruto travão.
O futuro parece previsível porque a Comunidade Europeia não considera legal a existência de golden shares pelos Estados de cada país, que impedem o livre funcionamento dos mercados internacionais. Além disso, o direito internacional europeu prevalece sobre o direito nacional. O cenário provável é a Comissão Europeia solicitar ao Tribunal Europeu de Justiça que condene o Estado Português ao pagamento de uma sanção pelo abuso cometido, uma sanção que indemnize a Telefónica e os accionistas da PT.


A decisão do Tribunal Europeu não vai acabar com a golden share, esta continuará a existir, embora não possa ser utilizada em manobras económicas como a que se encontra a ocorrer. O veredicto do Tribunal de Justiça será sobre uma queixa apresentada em 2008 pela Comissão Europeia. O que podemos depreender que as decisões vindas da UE são demoradas e que poderão mesmo assim retardar o negócio que ficou pendente. Se a decisão não for em nosso favor, não haverá forma de recurso. Porém, não existe qualquer prazo para cumprimento das decisões. Neste aspecto poderemos concluir que o vazio legal existente nesta matéria será certamente uma barreira para os que desejam concretizar o negócio de venda da Vivo.
Zeinal Brava e Henrique Granadeiro podem ter sido apanhados de surpresa com a posição do Estado quando, na Assembleia Geral, os accionistas votaram favoravelmente à venda, mas nada puderam fazer quando a decisão de aceitar a posição da golden share cabe ao Presidente da Assembleia Geral. Uma decisão que os administradores tiveram de aceitar resignadamente e sem contestação. Coube-lhes apenas apresentar toda a informação necessária aos accionistas. Digamos que o cargo de administradores é limitativo nas decisões mais importantes da empresa. Por esta razão, não faz sentido que se equacione a hipótese de uma acção em tribunal contra a mesma administração porque a decisão partiu da Assembleia Geral, que se deverá ter baseado nos estatutos da PT.
Perante os factos que se sucederam em todo o processo e a possível ilegalidade do acto do Estado a nível internacional muitos terão revelado revolta pela decisão e pela supremacia do Estado em querer manipular a liberdade do mercado e a vontade da maioria dos accionistas. Dos quadrantes políticos a decisão parece ser unânime e todos, de forma geral, terão aceitado e apoiado a decisão do Governo Português. O Governo considera que a Vivo é um activo muito importante para a PT e para a sua internacionalização. Foi uma atitude de defender a segurança da PT e os interesses económicos portugueses, no momento em que a economia necessita que as empresas tenham a possibilidade de se internacionalizar. Não considero que o Governo tenha agido de má-fé ou de falta de consciência em relação ao negócio. O executivo limitou-se a utilizar um direito que lhe está conferido, a golden share. Presumo que, como disse anteriormente, os accionistas sabiam da existência da mesma e do poder quando compraram acções da PT. A acção de veto foi uma acção defensiva. Não podem os espanhóis da Telefónica contestar este tipo de movimentações porque estes não serão os mais sérios em negócios e também eles sabem defender os próprios patrimónios para que a acção de estrangeiros sobre o país seja limitado. Pode não ser através de golden shares, mas serão de outras formas jurídicas. Muitos lembram agora o caso da tentativa de aquisição da Endesa pelos alemães. Porque não contar o número de negócios e empresas que Portugal detém no país de nuestros hermanos. Reza o velho ditado que, «de Espanha nem bom vento, nem bom casamento», a ser verdade estes irmãos não são o bom exemplo a seguir.


Apesar da atitude do Estado, que não discordo na totalidade, compreendo a posição dos accionistas e estaria do lado deles se estivesse na mesma situação. Estamos em crise e alguns accionistas achavam esta oportunidade de venda uma forma de obter dinheiro de que necessitam e que todos sabemos que é escasso. Compreendo que seria uma forma da PT reter algum dinheiro para pagamento do seu passivo, nada pequeno, junto dos seus credores.
A venda da Vivo não deixa de ser um pau de dois gumes. Se por um lado se arrecada muito dinheiro, por outro lado, a PT perde grande parte da sua dimensão no mercado das telecomunicações. Numa era de globalização, a venda da Vivo atira a PT para uma empresa regional e com dificuldades de encontrar entrar num outro mercado tão emergente quanto o Brasil, com uma dimensão e possibilidade de crescimento fabulosa. Se a Telefónica oferece um custo assim tão elevado é sinal de que o mercado em que a PT se encontra é bom e que deverá manter. Sabemos bem que a chegada ao Brasil foi tempestuosa e que muito trabalho teve de ser feito porque a rede de comunicações do Brasil era muito frágil e um verdadeiro caos. A PT teve de assumir esse difícil mercado, como o pode agora entregar?
Custa-me a compreender as acções e sanções da Comunidade Europeia que tenta de alguma forma impor regras e limitações de acções do Estado sobre as suas empresas. Julgo que na realidade perdemos a nossa soberania e as nossas regras de nada valem, mesmo cá dentro. Talvez parte da culpa esteja também no tratado Europeu que Lisboa e a Presidência portuguesa tanto se esforçou por aprovar.



Quanto ao Estado, quando se diz que não pode intrometer-se no negócio das empresas é muito relativo, quando estamos perante uma empresa que em tempos foi pública. Foi privatizada, mas o Estado ainda pretende manter algum domínio sobre esta. O que se passou não se trata de um nacionalismo moderno da era da Globalização, mas trata-se da defesa das nossas empresas, para não serem entregues a outros domínios. Por muito que não se deseje, o Estado é importante na defesa de uma economia e deve ser um responsável pela modernização, crescimento e regulamentação do nosso mercado. As empresas actuam por si, mas também compete ao Estado uma acção de charme noutros países porque são essas acções de charme que proporcionam o crescimento de acordos, contratos e cooperação entre países e empresas. A acção do Estado não pode nem deve ser subestimada.


Muito mais se irá ouvir em relação a este assunto e acredito que se prolongará para além do dia 16 de Julho, último dia em que se mantém de pé a oferta da Telefónica. Em economia sou leigo, mas perceber como funciona a movimentação dos mercados é algo que merece o interesse e não ficar alheio.


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U2 EM PORTUGAL: UM PONTO DE VISTA DE QUEM É FÃ

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa
manuelsous@vodafone.pt

Os U2 estão em Portugal, em Coimbra, para dois espectáculos, Sábado e Domingo, numa casa que se prevê esgotada nos dois dias, para dois concertos e dois espectáculos 360 que prometem ser memoráveis.
Dois espectáculos, os êxitos de sempre, as mesmas vozes, que continuam a derreter os seus fãs por qualquer lado que passam e mensagens políticas será o que pode esperar dos U2. A vinda dos U2 a Portugal tornou-se num acontecimento de grande relevo e importância, basta ver pela euforia e loucura na venda dos bilhetes assim que foi anunciada a vinda da banda a Portugal. Os U2 conseguem tudo isto, um pouco de alegria e música a um país triste e em depressão.

A banda continua a fazer o delírio dos seus fãs, num tempo em que a música atravessa também os seus momentos de crise, provocados pelas novas tecnologias, tecnologias ao dispor dos U2 e que se tornaram numa mais-valia para a diferença dos espectáculos em formato 360. Volvidos 34 anos, esta banda Irlandesa continua a arrastar e arrasar multidões sem correrem o risco de caírem na rotina e quebrarem a ligação com o público e os vários públicos que seguem a sua carreira. Muitos não sentem o fascínio pela banda, mas não querem perder um espectáculo que promete ser magnífico, diferente e irreverente. Os U2 tocam os seus fãs com intensidades diferentes, mais ou menos apegados, o que é certo é que eles estão por lá em todos os concertos. É admirável ao fim de tantos anos a banda manter a sua constituição inicial numa união que se pode considerar de rara para um grupo musical, que se pode considerar com a maior projecção mundial.


Há fãs que são grandes fãs, que acompanham a banda no seu trajecto, os passos de cada elemento e que vibram em cada concerto e em cada música como se fosse a primeira vez.


Susana Silva, uma grande fã, talvez uma das maiores que conheço até ao momento, se é que poderei alguma vez conhecer algum outro fã que delira tanto com a banda. Mas, para nos explicar a vibração que sente, o Blogue «Ponto de Vista» publica uma entrevista, um ponto de vista sobre uma banda marcante no mundo da música e de algumas pessoas.

Manuel de Sousa: Vinda de dois concertos dos U2, em Paris e San Sebastian que emoções trazes de cada um desses espectáculos?


Susana Silva: Venho de coração cheio. Vi em Paris o melhor concerto dos 6 que vi desta tour até hoje (1 em Barcelona e 3 em Dublin em 2009), e o pior, em San Sebastian. Mas mesmo o pior teve as suas compensações: foi o  aniversário da banda (fez 34 anos dia anterior) e tocaram a Spanish Eyes pela 1ª vez nesta tour. Uma música que saiu no single I Still Haven't Found What I'm Looking For, de 1987... foi uma explosão de alegria.


MS: Tendo viajado um pouco por toda a Europa a fim de te cruzares com os espectáculos desta Banda Mítica, qual o sentimento ao fim de tantos concertos, mesmo assim tão próximos uns dos outros? Não se torna maçador ou repetitivo, assistir sempre ao mesmo estilo ou há sempre algo de novo que marca a diferença entre cada um?


SS: (risos) Esta é daquelas perguntas que me persegue. Os meus amigos e colegas perguntam-me porque vou ver tantos se são todos iguais. Sim, são todos iguais para quem lá vai ouvir a Sunday Bloody Sunday, ou a One, ou a Pride... para outros é uma forma de estar com a banda, e como eu, de ver o 1º concerto da tour com 90mil pessoas, com todas as suas falhas e surpresas (em Barcelona), ouvir os U2 cantarem música tradicional irlandesa e falarem para a sua terra (Dublin), ouvir a Mercy (em Paris) e ver 90 mil pessoas ao rubro, ouvir a Spanish eyes (em San Sebastian). Nenhum concerto é igual. Para teres uma noção, ouvi a Unforgettable Fire (de 1984 e no meu top de preferências) na 1ª leg da tour e na 2ª a Mercy, que é um tema que ficou de fora do álbum How to Dismantle An Atomic Bomb, mas que é uma música com muito significado para um seguidor da banda como eu... quem diria que a iríamos ouvir? Quer dizer, o desejo era tanto que andamos a pedir via twitter que eles a tocassem em Coimbra... não é que a estão a tocar? A banda não é igual em cada concerto, os fãs não são iguais... eu não sou igual.



MS: Desde quando és fã dos U2 e porque razão essa aproximação tão forte?


SS: Ui... já nem me lembro. Desde os meus 13 anos, tenho 34... é só fazer as contas. (risos) A razão? Difícil colocar sentimentos em palavras. Os U2 acompanharam todas as fases da minha vida, as boas e as más. Nas más, e tendo eu 14, 15, 16 anos e vivendo por vezes situações bem complicadas, aqueles 4 pareciam ter uma música feita para mim... e eu agarrava-me isso. À medida que cresci, aprendi e vi como eles cresciam e estavam muito à frente de tudo... continuavam a "falar para mim". Depois, comecei a ver como eram dos únicos que sabiam fazer da música uma arma poderosíssima para fazer o bem e ajudar este mundo a ser um mundo melhor. Mas sem hipocrisias, sem venderem a vida pessoal, sem escândalos, eles tornavam-se naquilo que são hoje: a maior banda do mundo, um exemplo, e a razão de muito daquilo que sou hoje. Fizeram parte da minha "educação" se assim posso dizer.

MS: A quantos concertos já tiveste a oportunidade de assistir? Qual o que te ficou na memória?


SS:  No total e já a contar com os de Coimbra, 14. O que me ficou mais na memória? O de 15 de Maio de 1993, por várias razões: foi o 1º, por quase ter de fugir de casa para o ver (risos), tinha 17  anos, mas por ter sido a ZOO TV. A ZOO TV foi algo tão megalómano, tão à frente, tão... grande, que se ocorresse hoje, ainda estaria muito à frente de tudo o que tem sido feito. Desde carros em palco, ao maior comando de TV do mundo que sintonizava TV locais no momento, a chamadas para a casa branca ou uma empresa de táxis em Portugal, aos milhares de palavras por segundo que passavam nos ecrãs, mas principalmente à mensagem... "Everything you know is wrong"



MS: Quantos álbuns fazem parte da tua colecção? Qual o preferido?


Todos e mais alguns. (risos) Preferido... pergunta difícil. No top tenho o Unforgettable Fire (o 1º que comprei e o que mudou a direcção da banda em certo ponto, e tem pérolas lá dentro), mas aquele que mais ouço e mais me impressiona e que posso neste momento (se tenho mesmo de escolher um preferido) é um 2 em 1, uma fase: Achtung Baby + Zooropa. Ponto de viragem forte da banda, o Zooropa então, uma fase de experimentação de sons e tecnologias... muito à frente para a altura... como sempre estão.



MS: Quais as figuras do grupo que mais aprecias e porquê?


Mais uma pergunta difícil. (risos) A banda não existe sem nenhum deles pelo que objectivamente, terei de responder os 4. Mas vá, admito que aquele que mais explosões me causa cá dentro ao 1º acorde é o Edge (ou "o maior" como o trato). É o responsável pelo som que todos reconhecem como U2, é uma pessoa simples, terra à terra, sentido de humor fantástico e sem ser muito virtuoso na guitarra (nem o pretende ser), toca com o coração e é por isso se calhar que chega tão depressa ao meu. Além disso, está sempre interessado em descobrir novas formas de tocar, novos sons... um explorador.

MS: Sentes ou apercebes-te que é pela mesma razão que milhares de pessoas acorrem aos concertos dos U2 ou se calhar não têm nada em comum?


Tenho de ser sincera e até parecer arrogante, e responder que não, não acho. Num concerto de U2, tens os fãs, aqueles que nem se importam de não ver todo o espectáculo visual porque estão ali para ver e sentir a banda, tens os que até gostam bastante da banda e nunca tiveram oportunidade de os ver, conhecem bastante coisa da banda e foram tocados pela mesma em certa altura da vida, os que vão para ver o espectáculo apenas e só porque conhecem a One e sabem que é um espectáculo do caraças, os que vão porque fica bem dizer que foi e até saem antes do 2º encore porque nem sabem como funciona o concerto e porque querem tirar o carro cedo... isto aconteceu em San Sebastian, mesmo comigo a avisar os senhores que ainda não tinha acabado.

MS: O que justifica que ao fim de tantos anos, desde a origem da Banda, ainda exista uma certa magia e ansiedade por parte dos fãs de todo o mundo? O que move as multidões a esgotar os bilhetes em tempos record?


São a maior banda do mundo e está tudo dito. Quanto aos bilhetes... há de tudo. Há quem corra porque dá lucro vender os bilhetes, mesmo que para isso, quem queira mesmo ver a banda e sonhe com isso acabe por não ver porque uns e outros se estão a aproveitar. A euforia é desmesurada. Em 93 e 97 eu comprei os bilhetes sem stress algum. Agora, tomou umas proporções exageradas. Mas por exemplo, eu comprei os meus bilhetes para San Sebastian, 26-10-2010, 3 semanas antes do concerto...


 


MS: Toda a euforia pode ser devido a uma moda, uma forma de afirmação pessoal ou é algo que sempre vai existir durante a existência do grupo?


Vai existir sempre e por todas as razões que mencionas. Quem quer realmente ver a banda, vai ter de fazer a subscrição na U2. Com e ter o privilégio pago de comprar antecipadamente os bilhetes.... é assim que está neste momento. Caso contrário arrisca-se a não ir ao concerto.



MS: É previsível  o futuro, o percurso da banda nos próximos tempos? Pelos que conheces e presenciaste, também pelo que ouviste, poderemos esperar mais alguma surpresa ou já assistimos a tudo?


Enquanto os U2 existirem, nunca teremos assistido a tudo. Uma das "maravilhas" desta banda além da sua coesão, amizade e união (estão juntos há 34 anos sem qualquer alteração), é o facto de não gostarem de se acomodar e de repetir a formula. Por exemplo, como resultado de um cansaço, a banda teve de "sonhar tudo outra vez", parar, e lançar o Achtung Baby em 1991 e chocar meio mundo (ainda me lembro do que senti quando ouvi e vi o The Fly a 1ª vez). Perderam muitos fãs e ganharam muitos fãs novos... Se algum dia for previsível o futuro da banda... that's the end.



MS: Estarão os U2 preparados para continuar a brilhar no mundo da música e do espectáculo?


Never been better! Mas temos de ter consciência de que os "velhotes" estão nos 50's... mas amam demasiado a música (caso contrário já tinham largado o negócio há muito porque nem sempre todo o espectáculo gigantesco dá lucro). Se decidirem continuar sim vão brilhar porque repetir formulas não é com eles e por isso... só podem brilhar!


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Mas, perante as mudanças do mundo laboral cada vez mais precário, que força e que garantias nos oferecem os sindicatos? Será que se tornaram em organizações institucionalizadas, que apenas trabalham em gabinetes mantidos pelas contribuições de quem trabalha ou terão a capacidade de se tornarem em organizações de luta unida e sejam a voz daqueles que precariamente não se podem manifestar?



Por: Manuel de Sousa
manuelsous@vodafone.pt


1 - A rua é o velho dilema de cada Governo e muito mais o dilema do Primeiro-Ministro José Sócrates. Ao governo que cede às pressões da rua acusa-se de executivo frágil e sem capacidade de fazer as reformas que o país necessita. Ao Governo que ignora as vozes da contestação acusa-se de um executivo sem sentido democrático. Nos dois mandatos de um Governo PS assistimos a muito de mau e de muito mau, que o bom que possa ter feito pouco notável se tornou. Independentemente disso, o PS conseguiu uma vitória relativa para continuar a governar o país. Se num primeiro mandato as contestações sociais foram capazes de dominar a actividade mediática e política, num segundo mandato, as contestações continuam a dominar e a subir de tom pela oposição, ainda que credível ou não, e pela opinião pública que continua a mostrar-se cada vez mais insatisfeita e intolerável perante a situação económica em que vivemos.

2 - A actual situação económica é deveras delicada, tanto mais quanto mais dependemos da ajuda internacional para sair do buraco que cavamos e que nos ajudaram a cavar. Não sabemos ao certo até que ponto pode ir a situação social e económica de Portugal porque não vemos que se tomem medidas eficazes que permitam a melhoria do nosso estado. As medidas que temos vindo a conhecer, tomadas pelo Governo para o Orçamento de Estado de 2011, são mais do mesmo, das mesmas medidas que se vêm tomando de uns anos a esta parte. A receita é sempre a mesma, mais impostos, nível de vida mais caro para uma classe baixa em miséria e uma classe média que tende a ficar extinta. As medidas são as mesmas que ao longo dos anos têm provocado a falência de empresas e têm destruído o tecido produtivo português.

3 - Os portugueses pouco acreditam naqueles que governam, que anunciam a justiça social e em lugar disso provocam o aumento das dificuldades de quem menos pode para permitir que outros possam estar intocáveis à crise. É nesta base que se prepara uma Greve Geral, acordada com as várias centrais sindicais e que prometem parar o país, no dia 24 de Novembro próximo. As últimas greves tiveram uma expressão reduzida, falta saber se a Greve Geral de 2010 será tão marcante como a de 1988, em que o país foi seriamente afectado por uma paragem em grande parte dos sectores de actividade económica. Em 1988 a greve foi convocada devido à possibilidade de aprovação de um pacote laboral penalizador para os trabalhadores. Esse pacote laboral foi aprovado pelo Governo de Cavaco Silva em maioria na Assembleia da República, mas chumbado pelo então Presidente da República Mário Soares, o que obrigou que o diploma fosse para o Tribunal Constitucional e algumas das propostas fossem alteradas de acordo com o diploma inicial por serem inconstitucionais.
A actual situação económica será diferente de 1988, o que motiva a Greve Geral de 2010 será bem diferente dessa data, mas os manifestantes são os mesmos, os trabalhadores. Aqueles que pagam a crise e a gestão do Estado e do Governo com o seu salário. A Greve Geral é também uma forma de protesto para as entidades patronais que não cumprem a lei e submetem os trabalhadores a horários acima dos estipulados sem o pagamento adicional, sem o pagamento de todos os direitos e regalias consagradas no Código do Trabalho, por aqueles que tentam fugir às suas contribuições sociais, por aqueles que não asseguram condições de higiene/segurança no trabalho, por aqueles que tratam os seus trabalhadores de forma desumana e sem compreensão para as dificuldades que cada um atravessa. São muitos os empregados que aguardam por salários em atraso e mesmo assim trabalham a acreditar por melhores dias. Não é compreensível que nos dias de hoje os trabalhadores tenham de fazer vigílias à porta das fábricas para impedir a saída de máquinas com destinos a outras paragens. Assim como, não se compreende que empresas se aproveitem das ajudas do Estado e depois saiam do país com todo o dinheiro no bolso pago pelos contribuintes. Se as pessoas vivem nestas condições têm que manifestar, embora vivam no medo das represálias e pressões posteriores por terem exercido esse direito, o direito à greve. Um trabalhador que cumpra com os seus deveres e regras estabelecidas tem por direito ser tratado com dignidade. Existem empresas de sucesso, que sobrevivem à crise porque ao cumprir as suas obrigações para com os empregados e para com o Estado, obtêm dos seus trabalhadores empenho, dedicação e lealdade.
Esta Greve Geral é uma forma de protesto contra o Governo que permite passivamente a instabilidade e a precariedade laboral e pelas medidas tomadas que aumentam ainda mais as dificuldades das pessoas e das empresas que tentam cumprir os seus deveres e por isso estão as ser atrofiadas. Este é um protesto contra o Capitalismo desregulado que gerou esta situação, de alguns anos a esta parte, e que minou toda a economia, de forma que a mesma se tornasse dependente de si. Falo dos créditos e produtos financeiros duvidosos, das Agências de Rating que controlam as economias nacionais, de toda a economia paralela e invisível que se gerou e tornou cada um cada vez mais dependente. Protesto contra a UE, que também tem a sua responsabilidade ao gerir-se sob um modelo pouco credível e que beneficiou apenas alguns países a projectarem-se, enquanto que, os outros tivessem de estar a reboque sem qualquer capacidade de discussão, opção e liberdade económica.


4 - Numa altura em que nos aproximamos de uma Greve Geral convocada pelas Centrais Sindicais, questiono cada vez mais a importância dos Sindicatos no mundo do laboral e a sua capacidade de subsistência futura. O movimento sindical é sem dúvida a força que garante a luta e organização dos trabalhadores para a procura de condições laborais condignas de cada um. Mas, perante as mudanças do mundo laboral cada vez mais precário, que força e que garantias nos oferecem os sindicatos? Será que se tornaram em organizações institucionalizadas, que apenas trabalham em gabinetes mantidos pelas contribuições de quem trabalha ou terão a capacidade de se tornarem em organizações de luta unida e sejam a voz daqueles que precariamente não se podem manifestar? Talvez a Greve e o pós-greve, de dia 24 de Novembro, traga alguma resposta.
Será que, tal como Cavaco Silva em 1988, José Sócrates vai ignorar a voz da rua, voz de indignação para a actual situação económica? Da minha parte, nas minhas palavras mostrarei sempre a indignação perante este Governo, ainda que elas pouco eco possam ter naqueles que estão na cadeira do poder.


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CAMINHAMOS PARA UM NOVO MUNDO ÁRABE?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa
manuelsous@vodafone.pt



(artigo publicado no Expresso, edição de 05-03-2011)


Caminhamos para um novo mundo árabe? É a questão que coloco, neste momento, após ter lido em detalhe toda a informação que Expresso publicou na sua edição 2000 e após ter acompanhado todas as notícias, que correram mundo com as imagens das revoltas em diversos países como a Tunísia, Magrebe, Egipto e recentemente na Líbia. Não se sabe ao certo se este movimento de revolta se irá estender a outros países controlados por ditadores ou monarquias envelhecidas e que condicionam a liberdade dos povos.
As revoluções que se foram sucedendo país a país, dia após dia, têm origem numa população que vive cada vez mais pobre, sem possibilidades e oportunidades de encontrar emprego e formas de subsistência, enquanto o poder granjeia em grandes riquezas. Estas mobilizações têm como objectivo manifestarem-se contra a actual situação e impedirem que continue e que nada seja feito pelas populações. São realizadas por jovens que tentam acordar os demais para a situação em que vivem. A proliferação da Internet e das redes sociais como o Facebook e o Twiter são o rastilho, por fazerem passar a mensagem de revolta e o encorajamento de outras pessoas para a luta. Sangue e revolta são as imagens que nos chegam e que têm permitido a queda inevitável dos ditadores, ainda que alguns com maior resistência como no caso do Egipto e da Líbia.
No Egipto a demora da queda do regime provocou forte ansiedade nos manifestantes que esperavam pela demissão de Mubarak a cada intervenção que este fazia à comunicação social. Na Líbia, a este momento, o regime contínua erguido, com Kadhafi no poder, embora cada vez mais isolado e reduzido apenas à cidade de Tripoli, onde ainda vive no seu bunker e onde as forças armadas ainda lhe são fiéis. Recusa-se a demitir, porém, prefere morrer como mártir. Os seus últimos discursos revelam uma aflição em relação ao rumo que a situação nacional se encontra a passar, ao ordenar a morte a todos os manifestantes contra o regime e semeando o pavor de uma guerra civil provocada por si. A atitude de Kadhafi tem sido no sentido de destruir o país e o deixar numa situação mais precária que aquela em que se encontra, numa nova Somália.
Mas, a questão que se coloca é aquela que deu origem a este artigo, Caminhamos para um novo mundo árabe? Talvez sim. Talvez não. O futuro não será igual em todos os países e muito vai depender das alternativas existentes em cada um deles. Nos países em que existir uma oposição estruturada, com referências, ideias concretas para o futuro, referências e movimentos pró-democracia que já existiam durante o regime ainda que silenciadas, sim existe uma esperança no futuro de reconstrução sob um modelo democrático que permita criar oportunidades para todos e que há muito são reclamadas.
Porém, nos países em que o modelo ditatorial não permitiu qualquer organização de oposição e onde todos os movimentos e secções da sociedade foram sempre bem controladas, quer movimentos políticos ou estudantis e outras estruturas onde se iniciam as primeiras revoltas e frentes de luta, nesses não creio que exista uma alternativa para a criação de um futuro democrático. Nestes países, como o caso do Egipto corre-se o risco da queda num novo regime ditatorial.
Portugal, por exemplo, apenas evoluiu para a democracia porque existiam movimentos políticos e estudantis que se haviam organizado antes do 25 de Abril e que seriam a alternativa para uma democracia parlamentar.
Outra questão que me ocorre é, onde ou até onde se estenderá toda a revolta da população nos diversos países do mundo árabe? Em que situação política estarão outros países como a Arábia Saudita e Marrocos à mercê da revolta popular ou mesmo o Irão, onde no passado recente existiram manifestações sérias, mas que não levaram à queda do regime? Também nesses países as populações têm aspirações e necessidades, a ponto destes países tomarem algumas medidas de urgência para evitarem o levantamento de qualquer contestação que agrave ou que provoque uma convulsão política. Mas estarão receptivos a mudar definitivamente? Da parte do Irão são notórias as limitações à Internet ou às redes sociais para evitar a revolta.
A democracia continua a ser o modelo mais desejado e a alternativa à ditadura por muitos defeitos e virtudes que possa ter. Porém, na altura da revolta ou se sabem quais a medidas e orientações a tomar ou se cria um novo regime ditatorial ainda mais sério. Mas, a revolta é um começo para a esperança.


 


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