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HAVEMOS DE IR A VIANA

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Cantava Amália: «Oh meu amor de algum dia, havemos de ir a Viana/ Se o meu coração não me engana/ Havemos de ir a Viana».


Não direi meu amor, mas vim a Viana de qualquer das formas.


Parti de Braga manhã cedo, no receio de cá vir, mas encorajado de querer mudar de ares, parti em direcção de Viana do Castelo, de forma descomprometida, mas decidida.


Neste momento, estou a meio da manhã e já percorri algumas ruas da cidade, desde os arredores até ao centro, mais concretamente até à Praça da República.



Na Praça da Republica sento-me na Caravela para tomar a primeira bica do dia porque determinei que todo o meu dia seria em Viana, desde a primeira bica até ao pôr-do-sol. Vamos ver como correm as coisas e se na realidade apenas sairei quando o sol se pôr. Se assim for ainda bem, significa que as minhas expectativas se confirmaram e que valeu vir até ao coração do Alto-Minho.


Esta vinda a Viana do Castelo tem como objectivo a necessidade de um ar bem diferente daquele que se respira todos os dias, na cidade do costume e a crescente necessidade de conhecer novas pessoas e novas vistas, ainda que não tinha saído desse Minho. Será bem diferente do Minho em que vivo o meu dia-a-dia. Aqui está uma das qualidades do Minho, caracteriza-se pela sua diversidade de paisagens, dos vários verdes que o caracterizam e das pessoas que nele vivem e que são tão diferentes de lugar para lugar.


Não sei se por estar numa cidade diferente, aqui noto uma gente muito verdadeira, no sentido de verdadeiro e típico Minhoto. Gente que parece muito simpática e acolhedora, muito simples na sua maneira de ser, de vestir e de olhar. Isto notou-se logo que cheguei à cidade. Entrei num sitio completamente desconhecido, sem mapas e numa pequena aventura automóvel e em vários cruzamentos existia a amabilidade de logo me deixarem passar. Logo que chegava senti-me simpatizado com as pessoas e de uma forma muito natural acabei por esboçar alguns acenos de agradecimento.


A Praça da Republica fez recuar no tempo histórico, tal a beleza das suas fachadas, da fonte, de toda a pequena e pacata praça, como se ainda vivêssemos no tempo em que não existiam carros e como se o tempo por estes lados tivesse parado, não fossem as lojas e as marcas do nosso tempo.


Os becos e ruelas são o mais popular de cada cidade e o que muito aprecio. Também por aqui existem e com nomes bem curiosos. O Beco da Onça e a Praça da Erva (símbolo da cannabis desenhado na placa). Jamais me importarei que me mandem para a Onça, ou outra expressão do género depreciativo, de tão encantado que fiquei com este lugar.


Tomada a bica e escritas as primeira palavras são horas de passear mais um pouco para aproveitar o sol lá fora, que começou a despertar depois de uma amanhecer tão tímido e enevoado.


 


Durante toda a manhã percorri ruas, ruelas, cheias de gente ou mesmo pacatas, tudo isto sem sair do centro da cidade. Muita coisa se pode visitar e apreciar. Muita beleza e encanto se encontra por estas ruas com uma imensidão histórica fantástica e uma arquitectura fabulosa. Vale bem o cansaço de tantos quilómetros percorrer de um lado para o outro na descoberta de algo de novo.



Eram cerca de três horas da tarde e já me encontrava no interior da Sé de Viana. Preparava-me para sair quando olho para trás e reparo na existência de uma pequenina capela. Passou despercebida tal a escuridão no seu interior. No momento em que entro na referida capela fico diante de um enorme Cristo crucificado e nesse momento batem as badaladas das três horas da tarde, como que a assinalar a hora em que este homem morreu pregado numa cruz. Momento simbólico aquele, digno de uma contemplação e ao mesmo tempo de compaixão. Atendi a razão da escuridão. Ali é necessário recolhimento a que o silêncio convida. Estes momentos são mágicos e ao mesmo tempo tão ternos.


Toda a restante Sé é uma mescla de estilos e épocas, desde o Gótico, Barroco, Maneirismo, a algo extremamente moderno, como o altar de celebração e os bancos, que não combinem com toda a restante estética.


 


A sensação de chegar a Santa Luzia é um misto de ansiedade e ao mesmo tempo de comoção porque sempre manifestei o desejo de conhecer um lugar com uma obra tão majestosa e imponente e por estar num local onde é possível contemplar terra e mar.


Contemplar esse horizonte e sentir que o meu olhar se perde na sua imensidão, ao mesmo tempo que no mesmo olhar cabe todo este horizonte.


Fico com a sensação de que os meus olhos necessitavam desta vista, deste horizonte. Espero ter a oportunidade de voltar mais vezes e de cada uma delas sentir esta sensação.


Há expectativas que sentimos que não serão desconcertantes. Esta é uma delas. Tinha a ideia de que iria gostar e pelo pouco que ainda vi gostei imenso.


 


Onde estou?    
Não sei.                                                                                                                                                     


O que sinto agora?                                                                                                                                    
Não se explica.


Estou sentado no interior da Basílica de S.ta Luzia. É tão boa esta sensação. É tão grande esta paz de espírito que se sente cá dentro. Quando entrei estava aberta o livro com a passagem de S. Mateus, em que Cristo no barco de pescadores acalmou a tempestade e as ondas do mar. Aqui a sua presença é tão viva, tão real e tão forte. Aqui as ondas estão serenas. Aqui tudo é calmo e silencioso. É por isso que sinto esse Cristo cá dentro, coisa que não sei explicar por que sinto aquilo que não vejo e não toco.


O templo é pequeno na sua dimensão física, mas muito grande na sua dimensão espiritual. A beleza artística do Homem torna este local único e representativo, para os crentes, da infinita beleza que Deus sobre nós e sobre a Terra.


Existe um misto de abertura e de isolamento. Abertura do espírito e da fé, isolamento de tudo o que é exterior ao Homem e de tudo o que o rodeia.


A fé acaba por se manifestar de uma forma simples e singela e é nestes locais que o nosso estado contemplativo ultrapassa o limiar do físico e natural para o sobrenatural.


Há muita coisa que não se sabe explicar em palavras, mas apenas sentir e recordar no interior com o máximo prazer.


 


É tempo de pensar na partida, de volta para o quotidiano de onde saí. As nuvens cobrem o céu, de forma que hoje não poderei ver o pôr-do-sol, embora esteja na hora de este se começar a recolher, depois de me ter proporcionado um belo dia.


Virado de costas para o horizonte e voltado para o templo, faço a última despedida de uma cidade bonita e encantadora. Foi bom conhece-la só. Da próxima espero que com uma boa companhia, para que seja uma visita conversada em contraste com esta que foi sobretudo pensada e interior.


Caminhar só à descoberta foi fantástico e valeu apena tudo o que descobri, vi e vivi. Foi uma mescla de sensações que a minha pessoa gostou.


Neste momento, no meu pensamento ecoa o fado de Amália em jeito de despedida.


Manuel de Sousa


manuelsous@vodafone.pt


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