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QUEM PODE SER UM TERRORISTA?

por Manuel Joaquim Sousa, em 02.04.16

Eu poderia ser um terrorista. Não sou, graças a Deus. Graças a Deus porque é em nome Dele que banhos de sangue acontecem ainda nos dias de hoje, sem razões racionais - pelo menos à luz da cultura ocidental. Poderia ser terrorista, embora eu não tenha traços de quem vem de oriente - como se só no Oriente e do Oriente viessem os terroristas e como se fossem todos árabes. Mas poderia ser um terroristas porque os terroristas dos nossos dias estão dentro da Europa, são Europeus - não são os tristes refugiados que fogem à guerra e poder do terrorismo.

Acabaram-se os estereótipos de quem tem perfil para ser terrorista. Existem os mais estudados, os marginalizados, os que foram para países árabes, os que nunca de cá saíram, os que agem por amor a um Deus mau, os que se detonam por simples loucura ou desejo de morte, os que chamam por Alá, os que nos chamam infiéis. Terrorista pode ser um qualquer que tenha em mente provocar o mal entre os demais. Já não se trata apenas de uma questão religiosa, mas também política, de poder, supremacia ou simplesmente de coisa nenhuma.

A única coisa que move esta gente é a estupidez. Estupidez ao desejar que o mundo ocidental deixe de ser livre. Terrorista é aquele que é contra a liberdade. Abnegados seremos se aceitarmos esssa condição.

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O meu umbigo é mais importante que o dos outros. Por isso, é mais importante o que acontece no meu umbigo, que no umbigo do meu vizinho. Somos assim. Coisas da raça humana. Estamos doridos do que aconteceu em Bruxelas - o coração da Europa -; é razão para estar. Ainda nos estavamos a recompor dos acontecimentos de Paris e fomos abalados. Ficamos com medo porque a Europa deixou de ser segura. Os terroristas viraram-se para nós - somos as vítimas. O jornal Expresso lançou um trabalho de pesquisa sobre o terrorismo que aconteceu por todo o mundo, desde o Verão de 2014 até aos acontecimentos dos últimos dias e concluiu que, no período de dois anos, morreram em média 10 pessoas por dia. Sim, 10. Cada vida é uma vida, mas se morreram 7000 civis em 190 ataques por todo o mundo devemos parar para pensar. A maior parte desconhece estes dados - eu desconhecia. Então há algo de estranho. Qual a diferença para a dor em toda a Europa, e mesmo no mundo, ser maior por Paris e Bruxelas do que por qualquer outra cidade do mundo em que morreram pessoas, muitos mais até? Istambul, Ancara, Costa do Marfim foram outros locais alvos de atentados neste mês de Março. Mereceram igual preocupação, igual manifestação de pesar, igual tratamento nas redes sociais e nos media? Pois... Não tivemos grandes notícias. Muitos dos atentados apenas representam pequenas peças e pequenos apontamentos nas notícias. Os Europeus - no qual me incluo - somos solidários mas para com os nossos. Os outros? São um mal menor. A Europa ainda é um local seguro. Acreditem, mesmo que ainda estejamos com dor pelos que morreram estes dias. É cruel dizer isto? Sim. Se somos tão bons a tomar as dores de revolta pelos nossos camaradas europeus, seria bom tomar as dores de todos os que são vítimas em qualquer parte do mundo. Só quando tivermos a noção de que se trata de um mal global seremos capazes de ter armas e fazer frente a esta gente. Ou será a Europa conivente com alguns dos atentados fora de portas?

Afinal, o meu umbigo não é mais importante que o do vizinho.

 

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Se, por vezes, partilhar a privacidade com um médico de família não é confortável, será confortável, para qualquer um, ter a mala de viagem revistada por um segurança do aeroporto? 

 

Até onde pode ir a minha liberdade e a minha privacidade, para, em nome da segurança, partilhar tudo aquilo que faço, com quem faço, de onde venho e para onde vou? Até onde uma autoridade se pode intrometer na minha vida particular, em nome da segurança do outro? Somos todos suspeitos perante o Estado e os demais? Em que circunstâncias e com que fundamento passamos de vítimas de atentados a suspeitos de terrorismo? - passamos a ser vigiados e revistados porque podemos ser mais um. São questões pertinentes que os Europeus têm de debater em nome da segurança de todos. Esta questão coloca-se quando acontece a desgraça, mas é esquecida quando se baixa a guarda dos atentados terroristas. Não pode. A luta contra o terrorismo não pode ser mero impulso das circunstâncias, mas um trabalho contínuo para se pensar em adianto e evitar mais ataques e mais vítimas. Mas, vou permitir estar sujeito às suspeitas que se podem criar porque tenho uma crença religiosa ou uma ideologia porque procuro um destino? Não posso andar livremente na rua sem estar sujeito às câmaras de vigilância que percorrem os meus passos e seguem o trajeto como se fosse um criminoso? Serei suspeito se um dia comprar um livro que fale de extremismo, só porque o tema é esse? Terei liberdade de partilhar a minha vida no facebook sem correr o risco do meu perfil ser revistado e analisado como que à procura de um indício de algo? Não seremos, por circunstâncias da sociedade, suficientemente expostos à mesma sociedade, quando desejo que ser mais resguardado em relação ao que partilho nas redes sociais? Com que objetivo? Os atentados acontecem à mesma. O terrorista está sempre à frente de tudo isto e a nossa segurança está tanto mais em risco quanto mais vigiados estamos. Eu quero estar na rua e em casa seguro, mas quero ser livre nos meus atos e nas minhas escolhas - cumprindo aquilo que as leis e regulamentos determinam. Se, por vezes, partilhar a privacidade com um médico de família não é confortável, será confortável, para qualquer um, ter a mala de viagem revistada por um segurança do aeroporto? Quando não temos nada a esconder não devemos ter constrangimento - uma autêntica falácia. Se fosse assim tão verdade andaríamos a partilhar por aí as nossas roupas íntimas, os nossos momentos reservados ou mesmo toda a nossa casa e todos os cantos onde guardamos algo que nos é pessoal. A sociedade só é livre se deixarmos a ideia do big Brother de lado. Caso contrário o mundo ocidental deixa de ser aquilo que nos distingue dos outros mais extremistas e que repudiamos.

 

 

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E AGORA?

por Manuel Joaquim Sousa, em 22.03.16

Já era de esperar o que aconteceu hoje em Bruxelas. Desde os atentados de Paris que Bruxelas estava sob ameaça. O que aconteceu desde esse momento? Quatro meses depois é que foi possível deter o cérebro – segundo se diz – dos atentados. Se Bruxelas era o alvo; se sabiam onde se localizam os bairros mais problemáticos; se desde os acontecimentos de Paris existiu uma ligação imediata a Bruxelas; como foi possível? Estaremos perante um caso de falha nas investigações? Terá a Bélgica baixado a guarda da sua segurança?

 

E agora? Qual o próximo passo?

 

Definitivamente que nos Europeus não se encontram seguros e acredito que qualquer país é vulnerável e não poderá ser mais seguro que o seu vizinho. Se com sucesso se ataca o coração da Europa, com igual sucesso se ataca outra cidade de outro país. A União Europeia é cada vez mais uma manta de retalhos, incapaz de fazer frente aos desafios globais. Com esta UE estamos longe de atingir a prosperidade, a segurança e o humanismo que deveria ser o objetivo da sua existência.

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EU TAMBÉM ME TORNEI CHARLIE E TU?

por Manuel Joaquim Sousa, em 09.01.15

 

A imagem de fundo negro com inscrição “Je suis Charlie” tornou-se, nestes dias, numa das mais partilhadas do mundo através das redes sociais, como manifestação de solidariedade e pesar pelos acontecimentos em França - atentado as instalações do semanário satírico Charlie Hebdo, onde morreram doze pessoas entre funcionários, polícias e corpo redatorial do jornal.

 

Como qualquer atentado, foi horrível. Rápido, bem-sucedido, praticado por jovens com uma preparação fora do normal (embora pouca preparação mental). Foi horrível pelas vidas que se perderam. Foi horrível pelo ataque aos valores mais importantes de França - a liberdade de expressão.

Neste momento crítico, confirmamos que a liberdade de expressão tem um preço muito elevado e serve também para termos consciência disso mesmo. Por vezes, podemos cometer o erro de achar que a liberdade é um direito adquirido. Na realidade, não é um direito porque em todos os países onde se lutou por essa liberdade existiram custos elevados para muitas vidas.

 

A cultura ocidental é muito diferente de outras paragens, de outros países ou povos que vivem em repressão, e o contraste com países de maior liberdade leva à existência de quem festeje estes acontecimentos como uma grande vitória – embora a maior parte do mundo tenha condenado. Só quem vive em França é que consegue perceber a diferença entre o satírico Charlie e a tolerância do povo em aceitar de forma aberta todas as críticas, independentemente dos assuntos e temas que esta toca. Cartoons, sátiras são formas de expressão em relação aos nossos costumes, religiões, política ou sociedade. É saudável convivermos bem com a crítica. É saudável o respeito pela opinião do outro, seja em contexto sério ou satírico. O humor é mesmo assim - ninguém ri do bem, mas do mal do outro e do ridículo a que a espécie humana foi condenada. Brincar com Deus não tem mal algum porque imagem dessas caricaturas ou cartoons é aquela que outros homens, pelos seus atos, fazem passar sem que tenham consciência disso. Se Maomé tem um turbante foi porque a atitude de alguns e os seus atos fizeram outros criar essa imagem. O humor como qualquer forma expressão e arte merece o seu respeito ou a ignorância daqueles que não gostam e não se reveem - nada justifica atentado dia 7 de janeiro.

 

A melhor reação que podemos ter a este ataque é usar como armas: o papel, a caneta, o lápis e todo material de transmissão de opinião que nos vai no pensamento para algum suporte como forma de transmissão e divulgação. Usar estas armas implica coragem, mas são as armas mais fortes. A forma como uma caneta fere é mais profunda, duradoura e imortalizada em tantas almas, que uma arma convencional não consegue matar.

 

Podem aqueles três terroristas vingarem ou achar que vingaram Alá ou Maomé. Na realidade, não foram vingados, mas despertaram nos cidadãos de todo o mundo uma revolta bem pior. Poderão suscitar outros sentimentos mais dolorosos em relação a pessoas, culturas, sem que tenham culpa disso mesmo.

Charlie Hebdo não foi silenciado, mas tornou-se mais forte entre a dor da perda de preciosos elementos. Hoje há muitos mais. Hoje muitos de nós tornaram-se Charlie.

 

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FIQUEI SOB ESCUTA E PAGUEI POR ISSO

por Manuel Joaquim Sousa, em 07.11.13

Acredito que ao escrever neste texto palavras como NSA, PRISM, terrorismo, EUA, espionagem, CIA, entre outras, o tornem num alvo de análise por essa entidade de (in)segurança interna dos EUA – a NSA. Muito maior será o seu interesse ao saber que estão concentradas nestas poucas linhas de escrita.

 

Assim vai o mundo que se quer mais seguro e tendencialmente se torna muito inseguro, não por culpa dos criminosos tradicionais, mas por culpa de entidades oficiais, que deveriam preocupar-se com a segurança dos cidadãos – dos norte-americanos –, em vez de espiar outros Estados, para obterem dividendos políticos e económicos – esta é a justificação que posso dar para a existência do PRISM. Para mim, Snowden é a maior vítima desta história, que acaba por ser rejeitado por diversos países que não lhe dão asilo (não sei por que motivo), mesmo que estejam contra a atitude dos EUA em espiar os chefes de estado de vários países. Creio que estas excessivas atenções sobre Snowden sejam para desviar atenções da existência de um programa de espionagem global, que continua em franca exploração.

 

O acesso a dados do Google, Facebook, Apple, Microsoft, entre outras empresas dos EUA, das quais nos tornamos cliente com muita facilidade, torna-nos a todos, ou quase todos, alvos de espionagem - como se cada cidadão fosse um potencial perigo para a América. Pela razão inversa, cada um de nós tem o direito de ter sérias dúvidas em relação a estas empresazinhas, nossas amigas, mas que aos poucos recolhem dados confidenciais e os fornece a alguém que não sabemos ao certo quem é. Temos o direito de não nos sentirmos seguros da privacidade de dados, ainda que existam os termos e condições que garantem a privacidade.

 

Por aí se diz que estamos a viver tempos semelhantes à Guerra Fria, mas desta vez de uma forma mais global e em que todos estamos sujeitos a sermos espiados.

Porém, apesar desta consciência e do debate gerado em torno da banalidade em que se tornou grande parte da nossa vida, quase todos continuamos a ter a nossa conta no Facebook, a comprar Android (Google), Apple, Microsoft, a quem pagamos e corremos o risco de ser espiados.

Eu paguei para ser espiado.

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