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O ENCONTRO NA ESTAÇÃO DE COMBOIO: O AMOR VIVE DA SAUDADE.

por Manuel Joaquim Sousa, em 15.02.14

Caminha em passo acelerado pela rua fora com uma determinação que ninguém lhe tira, nem os buracos do passeio a fazem tropeçar como às outras pessoas, nem as pessoas que caminham em sentido contrário lhe travam a rota que mentalmente traçou para si com o objetivo de chegar a um lugar; continua a andar em passo decidido e quando alguém caminha mais à frente, em passo mais lento, desce para o alcatrão e acelera para voltar a subir para o passeio e continuar o seu caminho. Já caminha há longos minutos, por uma cidade apinhada de gente e onde o barulho dos carros, dos autocarros, das ambulâncias jamais são capazes de tirar do seu momento de concentração. Chega a um largo, onde os automóveis fazem fila num para e arranca constante, os táxis chegam e partem a toda a hora e os autocarros são contantes a trazer e a levar pessoas, como se tratassem de mercadorias. Num largo tão movimentado apenas há um pequeno espaço, no passeio, com uns bancos onde se encontram os velhos reformados do costume que passam o seu tempo a admirar toda aquela corria de pessoas que entram e saem daquela estação de comboios. Sim, a mulher caminha em direção à estação de comboios, era aqui que queria chegar neste seu andamento tão apressado.
Passa a entrada principal da estação e olha de frente para o painel dos horários de partidas e chegadas, olha para o seu relógio porque o velho relógio da estação parece ter parado no tempo e só está certo duas vezes ao dia, de seguida olha para as linhas e: não está nenhum comboio – chegou a tempo. Caminha novamente em passo mais lento, chega até ao pé da linha e senta-se num banco à espera, não sabemos do quê - também nós temos de aguardar para perceber qual o motivo desta espera.
O tempo vai passando e a cada minuto mais pessoas vão chegando ao mesmo sítio e ficam na mesma espera. Falta um minuto para as oito da noite e lá ao fundo vem um comboio, ela levanta-se num ápice e acompanha com o seu olhar a sua chegada, sente-se a sua inquietação e um certo estado de ansiedade, como se o coração saltasse por dentro. O comboio chega, abranda o seu ritmo até parar e rapidamente se abrem as portas.

Horas antes, numa outra estação, num outro lado do país, um jovem  está sentado num banco com uma mochila a seus pés; está calmo, com uma aparência tranquila olhando para a linha de comboio e acompanhando com o seu olhar até ao horizonte e a perdê-la de vista. Ao seu lado está um homem com alguma idade, denunciada pelos cabelos brancos, que lê o seu jornal de forma descontraída como se nada passasse à sua volta – de facto nada se passa. O local é calmo, poucas pessoas ali permanecem naquela estação. Entretanto, no sentido oposto, ouve-se um barulho de um comboio que se aproxima e para diante daqueles dois que estão no banco. O jovem e o outro homem levantam-se e entram no comboio. A tarde ainda está a começar e para o jovem há longas horas de viagem pela frente e muitas paragens em vários apeadeiros. O comboio arranca e segue a sua viagem com passagem por diversas terras, lugares cheios de gente e outros em que não se vê viva alma, atravessa por campos, rios e uma série de sítios que a voz do comboio vai mencionando a cada aproximação de paragem e em cada paragem, mas, o jovem deixa de aperceber por onde passa porque fecha os olhos e faz grande parte do trajeto a dormir com os phones nos ouvidos, a ouvir uma música qualquer. Entretanto acorda e repara que já passou algum tempo porque o sol já está a desparecer no horizonte; olha para o relógio e repara que falta pouco para a chegada; movimenta-se no banco para ajeitar as costas e nota-se que a sua tranquilidade vacilou um pouco e um ar de ansiedade está patente no seu rosto. Ao fundo da carruagem está o revisor que vem na sua direção. Boa tarde, o seu bilhete, por favor, há pouco não o quis acordar. O jovem sorriu, agradeceu, meteu a mão ao bolso e tirou o bilhete para o revisor picar. Obrigado – disseram em coro. O revisor lá foi, até à outra carruagem.
A noite já caiu, o destino está muito próximo, já se vê as luzes da cidade lá ao fundo. O jovem fica ansioso, nota-se que agora acordou mesmo. A voz anuncia a chegada da última estação e todos se preparam para sair. Chega o comboio ao destino, numa estação cheia de gente à espera daquele comboio. O jovem pega na sua mochila e ansiosamente espera que a porta abra, que o comboio pare – estes últimos momentos parece que nunca mais terminam. As portas abrem e todos saem.

A mulher vê tanta gente a sair, estica-se em bicos de pés, para encontrar alguém. No meio das pessoas estava um rapaz a fazer a mesma coisa. De repente, os olhares do jovem e da mulher cruzam-se e fixam-se por momentos, segundos, que se tornam uma eternidade, e sente-se a passagem de uma corrente entre os dois, que ambos caminham na direção um do outro como se entre eles não existisse mais ninguém. Chegam ao pé um do outro e abraçam-se intensamente, beijam-se com uma vontade tão grande como se esse estivesse guardado há tanto tempo, para este momento e encontro deste jovens namorados, na estação de comboio. Entre beijos sucessivos curtos e longos, nota-se um crescente alívio da ansiedade que ambos estavam a sentir com a chegada à estação; as suas faces unidas pelos lábios esboçam um grande sorriso e uma grande ternura entre os dois - não há palavras que o consigam descrever este momento e este sentimento que os une, imaginem e sintam.
O mesmo homem de cabelos brancos que estava na paragem, no mesmo banco que o jovem, a ler o jornal é a única pessoa que está a ver este momento e a aprecia-lo com uma grande admiração e um sorriso de saudade como se em outros tempos também tivesse vivido um momento assim. Todas as outras pessoas estavam apressadas demais para reparar neste momento – acham isto muito vulgar. Aquele momento entre os jovens durou ainda algum tempo, tanto tempo que o comboio partiu novamente para trás, para outra viagem e, com a sua ida, aquela linha estava a ficar despida de gente, a ponto de ficarem poucas pessoas para além dos três. O homem de cabelos brancos que apreciava tudo aquilo estava novamente sentado com o jornal na mão, desta vez com ele dobrado, pois ainda estava contagiado pela cena. No momento em que os jovens param de beijar e começam a dizer as primeiras palavras, o homem de cabelos brancos começa a falar: Agora percebo a sua ansiedade meu jovem; quem não estaria ansioso sabendo que iria viver um momento tão intenso como este; recordem sempre deste momento para o resto das vossas vidas, pois será este que vos fará sentir bem, mesmo naqueles dias em que tudo corre mal e andamos caídos; este momento faz ressuscitar muita coisa na relação de duas pessoas e na vida de cada um; o amor é coisa rara nos dias que correm, mas onde existe manifesta-se de uma maneira tão pura e tão simples. Os jovens coraram, mas não esconderam um sorriso de aprovação meio desajeitado. Perguntou o jovem: o senhor estava comigo na outra paragem a ler o jornal e aqui está sentado novamente a ler o jornal, o que espera? O homem, voltou o rosto para o horizonte, sorriu, ficou em silêncio uns instantes e com umas lágrimas escondidas disse: há anos que espero em muitas estações deste país por alguém que julgo não vir mais; aquilo que vocês vivem hoje, vivia eu na minha juventude, esperava três vezes por ano pelo comboio que trazia a mulher da minha vida, mas um dia esse comboio teve um acidente muito grave, morreram todos, e eu perdi-a para sempre; quanta amargura e saudade desde esses tempos; hoje o comboio traz a saudade para que eu ainda consiga viver, pois dela me alimento; o amor vive da saudade.



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QUAL O SENTIDO DO TEU NATAL?

por Manuel Joaquim Sousa, em 22.12.12

Em 2008, publiquei num velho blogue da minha autoria um texto sobre o Natal. Decidi partilhar esse texto neste blogue porque parece que continua atual. Tem uma dose de moralismo, que até a mim me atinge porque pertenço à mesma sociedade cheia de vícios e a precisar de uma renovação.
 

«Dar, oferecer, termos que muito se usam neste período de festas.


Todos os anos é sempre a mesma coisa, a ponto de se tornar numa rotina anual, que provoca em nós uma azáfama e uma correria, causadora de um certo stress e mau estar - ter que pensar naquilo que temos para oferecer, a quem oferecer e se será a prenda ideal. 

 

Em tempo de crise, em que o dinheiro pouco chega para o dia-a-dia e muito menos para as prendas, a preocupação das ofertas mantém-se, sem que haja qualquer controlo sobre a situação. Se há pessoas que têm a doença consumista durante todo ano, nesta altura, a mesma doença atinge uma grande proporção, capaz de contagiar a sociedade na sua generalidade.

 

O Natal tornou-se algo assim - perdeu grande parte do seu espírito e passou a ser uma festa consumista, que a sociedade aproveita para dar e receber a tudo e a todos, quando durante o ano muitos dos amigos e das pessoas ficam esquecidas e são simplesmente ignoradas. 

 

É a febre do consumismo que altera o sentido de comemoração do Natal como festa Católica, mas ao mesmo tempo Universal, onde o verdadeiro sentido é o da fraternidade e comunhão entre todos. No entanto, muitas vezes, acho que no meio de tanta confraternização, haja uma certa hipocrisia de época e um certo trocar de sorrisos amarelos. Ainda existe o uso de usar a roupa nova para mostrar à família e aos amigos. Ainda existe o hábito de ir á missa do dia de Natal, quando durante todo o ano a importância pelo Deus Menino é mínima ou inexistente. 

Num mundo laico e racional, em que supostamente deveríamos viver, está a tornar-se num mundo de crença ocasional, em que Deus é a presença ocasional e utilizado para uma exibição social.


O verdadeiro espírito natalício, que deveria residir no coração e exteriorizado de forma simples e sincera, está transformar-se numa exteriorização extravagante e sem qualquer sentido interior. Aquilo em que esta época se torna é um vazio, onde o calor humano é cada vez mais raro.

 

Valerá a pena apregoar que o Natal é sempre que o Homem quiser, quando o sentido em que vivemos é muito diferente? Valerá a pena o envio massivo de mensagens escritas, para pessoas que durante o ano não recebem um simples olá por mensagem? Terá sentido mensagens formatas e plásticas, iguais para todos, quando na realidade cada um merece uma felicitação em particular com o verdadeiro sentido que une essas pessoas? 
Fará sentido apenas no Natal serem efectuadas campanhas de solidariedade, para dar a quem mais precisa coisas tão essenciais à dignidade humana, quando essas necessidades perduram todo o ano? Porque razão o sentido de dar apenas ganha expressão nesta época? Onde estamos nós durante o resto do ano? Estaremos no mesmo mundo? Veremos as mesmas pessoas?

 

Parece que não, parece que a solidariedade não é necessária e o mundo vive no seu melhor conforto - era bom que assim fosse -, mas a realidade do dia-a-dia é bem diferente e um tanto dolorosa. 
Era bom que o Natal voltasse a ter o sabor e o espírito do antigamente, onde muito mais que uma troca de presentes, fosse uma troca de sentimentos verdadeiros e sinceros e que permanecessem durante todo o ano. Era bom que deixasse de ser aquela rotina de compra de prendas, com que se entopem as nossas cidades, que na procura desesperada de alguma coisa que não sabemos o quê. 

Está nas nossas mãos um pequeno esforço que estale o verniz com que nos untamos, para parecermos bonitos nesta época - quando durante todo ano nos mostramos como pessoas feias.

 

O Natal vem de dentro para fora e não o contrário. Será que ainda vamos a tempo de contrariar esta tendência? 
Era bom que sim; mais vale tarde que nunca; mas há sempre uma incógnita quanto ao futuro.»

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UM POETA EM GRANDE ENTRE OS PEQUENOS

por Manuel Joaquim Sousa, em 12.08.12

Já escrevi por aqui que não tenho qualquer jeito para poesia. Lá no fundo admiro a capacidade dos poetas, dos escritores - lá no fundo porque eu estou a anos-luz do trabalho destes.
Porém, hoje decidi fazer descer sobre mim o dom de escrever versos, assim como muitos que escrevem poemas mas que não têm qualquer jeito (podem incluir-me nesse grupo).

Aqui vai:

 

Poesia não tem de ser:

um fado triste,

murmúrio do passado,

lamentos do presente.

 

Poesia deve ser:

riqueza interior,

pensamento do momento 

e gestos da alma.

 

Viver para a poesia

não tem de ser vida amargurada,

sonho irreal

ou momento doloroso.

 

A poesia vive:

do poeta com sentimento,

da alegria, amor e paixão,

em profundo desprendimento

entre o sentimento e a razão.

 

Poesia será sempre:

o pensamento,

o grito,

na força das palavras

ou da forma como são ditas.

 

Foi lindo (pelo menos para mim que me limito a estas palavras)! Foi sentido! Veio-me lá do fundo arrancado a ferros.

 

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COGITARE II: ESCRITA: UM ACTO DE SEDUÇÃO E DE FÉ

por Manuel Joaquim Sousa, em 01.07.12

A escrita é uma forma de sedução do tempo, que teima em fugir e fazer que tudo passe tão depressa sem termos tempo de viver, sentir, abraçar, saborear.
Escrever permite que os pensamentos, os desejos, os sentimentos fiquem congelados para a eternidade, contornando as fortes limitações temporais em que vivemos. Além do mais, permite que os escreventes parem por momentos, para sentir o que realmente vai dentro de si.
A escrita é uma terapia para os escravizados do tempo repentino e em constante fuga para a rotina tenebrosa do dia-a-dia.
Por vezes, temos dificuldade em escrever uma única palavra onde quer que seja. Não podem escreventes e escritores permitir que isso aconteça em qualquer momento de suas vidas, para que a sua liberdade se mantenha e assim o que desejamos, pensamos e sentimos possa ficar registado para a eternidade.

O acto de escrever ajuda o Homem a ser eterno, como se escrever fosse um acto de fé. Na verdade é um acto de fé, que implica acreditar que se pode passar em palavras bonitas e deliciosas o que tantas vezes desejamos. Os escreventes procuram essa fé em cada frase e em cada palavra, enquanto que os escritores são os seres iluminados que dão aos outros pão que necessitam para a sobrevivência como seres pensantes.

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UMA NOVA IMAGEM NO MEU BLOGUE

por Manuel Joaquim Sousa, em 21.06.12

 

O meu blogue cá continua. Alguns visitantes a passar por cá, a ler o que por aqui vou dizendo. Hoje decidi alterar a imagem de apresentação - coloquei uma imagem mais pessoal, uma fotografia que tirei há algum tempo. Esta é a imagem de dois bebés que fazem parte de uma sepultura, no cemitério de Agramonte, na cidade do Porto, junto à rotunda da Boavista.

 

Este é um local digno de visita - apenas não será agradável para quem tem arrepios de cemitérios - pelas obras de arte que por lá se encontram nas sepulturas e nos jazigos. Sem dúvida um imenso espaço onde se pode respirar um pouco de calma, paz, tranquilidade e ao mesmo tempo desapego do mundo terreno. Por aqui existe vida, num conceito diferente do que estamos habituados a viver. Existe vida (não sei se sobrenatural) que contagia os crentes e não crentes, ou seja, curiosos pelo que está para além deste tempo terreno.

Em cada passo que se percorre sente-se algo interior muito forte, como se parte da identidade pessoal estivesse lá, mesmo que não existam familiares por lá sepultados. Estranho? Bizarro? Talvez possa parecer e eu estar a estrapular algo que só eu apenas sinto, mas sem dúvida que é um local especial, que já visitei mais que uma vez. Imaginem-se que estão acompanhados, mesmo que estejam sós.

 

Mais pessoas devem sentir o mesmo porque este é um local a onde acorrem muitas pessoas - não apenas os familiares que vão cuidar das sepulturas; esses são muito poucos comparados com os que vão de visita.

 

Nem sempre os cemitérios são locais de símbolo da morte, mas símbolo de vida, símbolo de uma passagem para uma outra dimensão que desejamos muito saber se existe e como é. Nem sempre são locais de tristeza e sofrimentos, mas locais de paz, tranquilidade e desapego.

Há mais vida para além desta rotina em que vivemos; há uma outra dimensão que existe dentro de nós e que desvalorizamos. 

Vive a vida em todas as suas dimensões.

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