Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Por: Manuel de Sousa

«Encontramo-nos no meu próximo romance.» É desta forma que Rosa Lobato Faria termina a sua autobiografia, publicada no Jornal de Letras. Da mesma forma se despede dos portugueses e deste mundo aos 77 anos de vida.
Muitas histórias teria esta bela senhora para contar a este mundo que poderia muito viver delas e acreditar que esse mundo fosse possível de se tornar realidade.

Uma das grandes lições que podemos retirar da vida de Rosa é o facto de ter renascido aos 63 anos de vida e, desde aí, escreveu doze romances em 10 anos, um livro de contos e sete ou oito livros infantis. É sem dúvida um exemplo de renascimento que todos temos de aprender e interiorizar de tão cansados e desiludidos que andamos vagueantes por este mundo, sem saber exactamente para onde queremos ir.

Rosa Lobato Faria teve, como qualquer mulher de tempos idos, as suas dificuldades em poder pensar, agir por força própria, em escolher independentemente das opções de um marido ou fechada na família conservadora da época. Exalta a revolução que as mulheres fizeram nos últimos 50 anos, independentemente de quem quer que a tenha feito. O que interessou para si foi «descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais».

Aprender foi a sua palavra-chave e foi por querer aprender mais e mais que renasceu aos 63 anos. Aprendeu que a vida tinha muito mais para lhe dar e para nos dar; muito mais que simples histórias, lições de vida para um mundo perfeito que poderíamos criar.
Viver uma verdadeira infância foi um crescimento saudável que hoje já quase não se pode viver; longe de problemas «coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. (?) A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve.» Quanto era bom que a maldade do planeta se resumisse a uma bruxa que facilmente, e como em todas as histórias, se destruiria e tudo terminasse com um final feliz.

Na sua infância como na minha as escolas existiam em qualquer aldeia e não se pensava em fechar lá porque tinham poucos meninos. Aprendíamos coisas tão complicadas e absurdas ao dia de hoje, mas não batíamos na professora «levamos-lhe flores». Era mesmo assim, aprendíamos a tabuada, as linhas de ferro que entretanto deixaram de existir, as serras, os rios e o português sem acordos ortográficos.
Que contraste com o mundo dito livre e desenvolvido de hoje, mesmo eu que nasci muito tempo depois de declarada a liberdade. O desenvolvimento também quebrou muitos sonhos de criança, aqueles que acreditávamos ser possível pelo que líamos nos livros infantis da carrinha que ia à terra e levava muitos livros. Hoje já não se liga à doçura das bolas de Berlim porque há porcarias melhores e porque provocam obesidade. Nessa infância não existia obesidade porque mal chegavam as calorias das bolas de Berlim para as brincadeiras sabe-se lá onde, nos sítios mais esquisitos que se possam imaginar; fosse lá no campo, numa sucata, no meio do monte ou numa casa velha. Isso sim, cheirava a liberdade. Tínhamos as nossas brigas e tudo ficava resolvido sem fazer queixinhas ao pai ou à mãe.

A autobiografia de Rosa Lobato Faria faz-nos perder por um tempo de saudade, alegria e aventura. Um tempo de verdadeira liberdade sem nunca perder os valores fundamentais na pessoa humana. Afinal os valores ganham-se com esta liberdade sã.

Não existiam desenhos animados de luta por luta. Tínhamos Rua Sésamo, Tom Sower, Floresta Verde, Abelha Maia, Aventuras de Tintin, o Mundo Disney, etc, etc e deitávamos depois do Vitinho. Havia variedade para o sonho. Lembrar disso é traçar um sorriso com o passado de pequenino e acreditar que podemos ser crianças a qualquer momento. Quantos de nós ainda gostariam de voltar a brincar com carrinhos e as meninas com bonecas? Pois, mas não podemos porque ainda nos acham tolos.

O fascínio de Rosa está aqui, levar a divagar por um mundo perfeito que muitos tiveram a oportunidade de viver em tempos e que, por mim, voltaria a viver. Só por isto, já é uma grande mulher.

Pena que o valor que muitos de nós deveríamos dar a esta pessoa não foi feito enquanto estava fisicamente presente neste mundo. Lembram-se outras pessoas e esqueceram esta mulher que deixou um marco rico na nossa cultura em várias vertentes. Pena que a sua morte tenha passado ao lado de muitos que não experimentaram reviver o que ela nos tinha tanto para oferecer. Mágoa poderá a sua alma sentir por este país ser tão ingrato com quem lhe faz bem e por quem deixa um contributo eternamente marcado na cultura e na memória de muitos.

A vida está cheia de coisas inúteis, mas nem por isso nos devemos voltar contra ela, antes pelo contrário, ter a capacidade de renascer seja qual for a idade do corpo físico.
De lembrar que esta bela forma de pensar tornou-a numa pessoa tão bonita que nem a idade lhe roubou essa beleza física. Agora imaginem na infinidade da sua beleza interior, uma Rosa.

Esperemos encontra-la no seu próximo romance porque ela continua no meio de todos nós.



Leiam a sua Autobiografia em http://aeiou.visao.pt/um-rasto-de-hortela=f546518

Autoria e outros dados (tags, etc)



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Maio 2017

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031

Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa




Tags

mais tags