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JOSÉ, O VELHO PESCADOR.

por Manuel Joaquim Sousa, em 30.06.12

José, o homem que olha para o mar durante as longas horas do seu dia. Assim vive a sua vida, o resto da sua vida, os seus últimos dias, embora não saiba quantos. Este homem diz para si e para os outros que: a vida quanto mais longa é mais curta fica; não há volta a dar, por mais que o José queira. É um homem crente, um homem de fé num Deus que o acompanhou durante toda a sua vida (assim o conta a qualquer um); mas tem desejo que a sua vida volte para trás, até aos anos da sua juventude. Sabe que isso não é possível - razão pela qual fica sentado no banco de madeira, junto ao porto, a admirar o mar, o seu amigo de uma vida.

José, o pescador, como lhe chamam foi durante uma vida um homem do mar - foi daí que lhe veio toda a sua sabedoria, que o torna num homem muito respeitado por estes lugares (os homens do mar são gente de sabedoria divina e terrena - mesmo que a terra seja algo que pouco conheçam), muito mais que o padre da paróquia, que o médico do centro que o Governo quer fechar ou que o professor que se reformou porque fecharam a escola deste lugar. O seu desejo de juventude tem uma grande justificação - o desejo de ter a vida do mar e de viver numa terra produtiva que os governos foram assassinando até que os novos foram embora e os velhos por cá ficaram como que arrumados no tempo e no espaço até terminarem na cova do cemitério desta aldeia .

Será feliz ou triste a vida do velho José, que vive refugiado nas suas memórias? Agora vive descansado, ainda que tenha de contar os tostões da sua reforma e da partilha da sua casa com a sua esposa - a companheira que sempre esperou ansiosamente pelo regresso do marido dias e dias no mar (o amigo que nem sempre o foi, pelo menos para outros pescadores). Vivem sozinhos na sua velhice, longe da cidade grande onde vivem os seus cinco filhos - que voltaram as costas à árdua vida desta aldeia e ao isolamento a que se viu condenada.

O velho pescador assim continua, sentado no banco, a lembrar memórias de outros tempos (a vida não volta para trás) até que o sol se ponha e depois voltará para casa; mais uma vez para junto da sua esposa que o espera, para jantarem o caldo de todos os dias - espera ansiosa porque o coração cansado do seu marido poderá não aguentar a caminhada do regresso. Talvez a terra seja mais traiçoeira que o mar.

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