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CAMINHAMOS PARA UM NOVO MUNDO ÁRABE?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa
manuelsous@vodafone.pt



(artigo publicado no Expresso, edição de 05-03-2011)


Caminhamos para um novo mundo árabe? É a questão que coloco, neste momento, após ter lido em detalhe toda a informação que Expresso publicou na sua edição 2000 e após ter acompanhado todas as notícias, que correram mundo com as imagens das revoltas em diversos países como a Tunísia, Magrebe, Egipto e recentemente na Líbia. Não se sabe ao certo se este movimento de revolta se irá estender a outros países controlados por ditadores ou monarquias envelhecidas e que condicionam a liberdade dos povos.
As revoluções que se foram sucedendo país a país, dia após dia, têm origem numa população que vive cada vez mais pobre, sem possibilidades e oportunidades de encontrar emprego e formas de subsistência, enquanto o poder granjeia em grandes riquezas. Estas mobilizações têm como objectivo manifestarem-se contra a actual situação e impedirem que continue e que nada seja feito pelas populações. São realizadas por jovens que tentam acordar os demais para a situação em que vivem. A proliferação da Internet e das redes sociais como o Facebook e o Twiter são o rastilho, por fazerem passar a mensagem de revolta e o encorajamento de outras pessoas para a luta. Sangue e revolta são as imagens que nos chegam e que têm permitido a queda inevitável dos ditadores, ainda que alguns com maior resistência como no caso do Egipto e da Líbia.
No Egipto a demora da queda do regime provocou forte ansiedade nos manifestantes que esperavam pela demissão de Mubarak a cada intervenção que este fazia à comunicação social. Na Líbia, a este momento, o regime contínua erguido, com Kadhafi no poder, embora cada vez mais isolado e reduzido apenas à cidade de Tripoli, onde ainda vive no seu bunker e onde as forças armadas ainda lhe são fiéis. Recusa-se a demitir, porém, prefere morrer como mártir. Os seus últimos discursos revelam uma aflição em relação ao rumo que a situação nacional se encontra a passar, ao ordenar a morte a todos os manifestantes contra o regime e semeando o pavor de uma guerra civil provocada por si. A atitude de Kadhafi tem sido no sentido de destruir o país e o deixar numa situação mais precária que aquela em que se encontra, numa nova Somália.
Mas, a questão que se coloca é aquela que deu origem a este artigo, Caminhamos para um novo mundo árabe? Talvez sim. Talvez não. O futuro não será igual em todos os países e muito vai depender das alternativas existentes em cada um deles. Nos países em que existir uma oposição estruturada, com referências, ideias concretas para o futuro, referências e movimentos pró-democracia que já existiam durante o regime ainda que silenciadas, sim existe uma esperança no futuro de reconstrução sob um modelo democrático que permita criar oportunidades para todos e que há muito são reclamadas.
Porém, nos países em que o modelo ditatorial não permitiu qualquer organização de oposição e onde todos os movimentos e secções da sociedade foram sempre bem controladas, quer movimentos políticos ou estudantis e outras estruturas onde se iniciam as primeiras revoltas e frentes de luta, nesses não creio que exista uma alternativa para a criação de um futuro democrático. Nestes países, como o caso do Egipto corre-se o risco da queda num novo regime ditatorial.
Portugal, por exemplo, apenas evoluiu para a democracia porque existiam movimentos políticos e estudantis que se haviam organizado antes do 25 de Abril e que seriam a alternativa para uma democracia parlamentar.
Outra questão que me ocorre é, onde ou até onde se estenderá toda a revolta da população nos diversos países do mundo árabe? Em que situação política estarão outros países como a Arábia Saudita e Marrocos à mercê da revolta popular ou mesmo o Irão, onde no passado recente existiram manifestações sérias, mas que não levaram à queda do regime? Também nesses países as populações têm aspirações e necessidades, a ponto destes países tomarem algumas medidas de urgência para evitarem o levantamento de qualquer contestação que agrave ou que provoque uma convulsão política. Mas estarão receptivos a mudar definitivamente? Da parte do Irão são notórias as limitações à Internet ou às redes sociais para evitar a revolta.
A democracia continua a ser o modelo mais desejado e a alternativa à ditadura por muitos defeitos e virtudes que possa ter. Porém, na altura da revolta ou se sabem quais a medidas e orientações a tomar ou se cria um novo regime ditatorial ainda mais sério. Mas, a revolta é um começo para a esperança.


 


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