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BOAS LEITURAS: OS SEGREDOS DE JACINTA

por Manuel Joaquim Sousa, em 22.02.15

 Fonte: blogue Andanças Medievais

 

A minha última leitura: Os Segredos de Jacinta, da autora Cristina Torrão. Foi o primeiro livro que li desta escritora. O balanço: quando tiver oportunidade nas minhas finanças vou comprar outros da mesma autora. Resultado: um romance histórico muito bom.
A Jacinta é uma jovem miúda que passou muito durante a sua vida, desde novinha. É incrível a forma como era tratada pelos seus familiares, mais parecia que veio ao mundo de forma indesejada, tal a ingratidão dos pais e de alguns dos irmãos. Julgar pelas aparências nunca foi boa solução. A Jacinta era uma miúda destemida que, por diversas vezes, agarrou o seu destino e seguiu por rumos que jamais poderíamos julgar possíveis. Poderia ser uma miúda fraca, mas de fraca seria somente a sua aparência. Era uma rapariga forte, determinada, inteligente e bela. Sabia o que queria da vida, nem que para isso voltasse costas ao seu amor. O amor foi sempre a sua dor, a sua sina; porém, seria abençoada com outra forma de viver - umas vezes mais santa, outras vezes menos puritana. No fim de contas, a velha da serra do cão tinha a sua razão.

Não quero aqui desvendar muito do que acontece na história que a escritora Cristina Torrão nos conta. Prefiro que tenham a oportunidade de ler este romance porque merece ser lido. A escrita é simples, a história também tem um enredo simples. É uma forma de revivermos a história de Portugal até aos tempos de D. Afonso Henriques e a conquista de Lisboa aos Mouros. Podemos com a descrição histórica fazer uma viagem no tempo até ao século XII.

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O SUCESSO DAS 50 SOMBRAS DE GREY ESTÁ NO GLAMOUR

por Manuel Joaquim Sousa, em 22.02.15

Já há muito tempo que não existia uma corrida desenfreada aos cinemas - sabemos bem que as salas de cinema estão condenadas a um público cada vez mais residual. Sim, nestes últimos dias apercebo-me da loucura que é arranjar um bilhete para ver "As 50 Sombras de Grey”. O filme há muito anunciado tem criado uma febre e uma ansiedade nos leitores de uma das trilogias mais vendidas e lidas do nosso século – o sexo continua a atrair a atenção do Homem, independentemente do conteúdo. Ainda o filme não tinha data de lançamento certa, estávamos em 2014, já eu assistia ao delírio das minhas companheiras de equipa lá do trabalho em tentar desvendar quem faz o papel de quem e a delirar com as pequenas cenas que iam sendo publicadas no Youtube ou qualquer outro sítio, só para alimentar ainda mais a ansiedade pela estreia do filme. Quanto mais se aproximava a data, mais se falava do filme em todo o lado – até mesmo no telejornais -, que foram alimentando cada vez mais as expectativas do público, sobretudo feminino.

As sombras do Grey são daqueles calhamaços, com centenas de páginas, onde supostamente há muito erotismo pelo meio e é capaz de prender qualquer pessoa, mesmo aquelas que nem gostam muito de ler. Não conheço pessoalmente homens que tenham lido a trilogia, apesar do livro não ser direcionado para o sexo feminino – acho eu, não o li. Mas, dada a importância que as mulheres lhe deram, haverá muito homem com vontade de ler, nem que seja só para matar a curiosidade do poder sexual que dizem suscitar – poder sexual não sei, atenção suscita muita; enquanto vi mulheres a ler o Grey, reparava que tudo à volta parava e nada mais importante existia durante esse momento de leitura. Claramente que os homens ficam curiosos quando as suas mulheres depositam tanta atenção no livro ou quando as suas faces deixam passar expressões de choque ou malicia – talvez alguns tenham sofrido as consequências de uma companheira anestesiada pelas sombras do Grey (confundidas entre a ficção e a realidade).

 

No artigo de Clara Ferreira Alves, na Revista E, do semanário Expresso, de 21/02, retiro este excerto que dá muito que pensar: “Sem o condomínio com vista de Seatle, sem o jatinho privado, sem o descapotável, sem os vestidos de alta costura, sem as prendas, o dinheirinho, the money, sem o simples facto de que Grey é um milionário com bons fatos e a versão contemporânea do príncipe encantado, por causa, justamente, de ser milionário, é que a pancada se aguenta. Se o Grey fosse empregado numa garagem e levasse a pequena para um esconso a cheirar a couves e óleo de motor e lhe desse de beber uma cerveja em vez de champanhe, se a levasse a ver futebol e arrotasse, não havia pequena nem prazer aveludado.” Nisto Clara tem a sua razão, o que dá importância ao “romance” ou o que suscita prazer no leitor será todo o glamour em torno das cenas eróticas porque sem esse glamour o livro seria a descrição de cenas obscenas e sujas, capazes de criar o inverso do prazer pelo sexo. O glamour que existe no erotismo esconde o que na vida real de muitos casais chamamos maus tratos, violência ou mesmo violação. A fronteira entre o sadomasoquismo e o crime de violência fica muito ténue num país em que morrem centenas de mulheres por maus tratos – em tribunal o argumento das “sombras do Grey” pode deixar a justiça confusa? É claro que a violência e o sadomasoquismo são distintos, nem que seja pela forma como é consentido entre os parceiros – não deixa, no entanto, de ter em comum a submissão que um tem sobre o outro.

Não posso aqui falar sobre se os livros são de leitura light/pesada, bem escritos ou não, porque não os li. Não sei quem é que se submete a quem – se a mulher é submissa ao poder masculino. Apenas conheço o fascínio que estes provocam nos leitores pelo delírio e pela forma de satisfação com que falam dos livros e a ansiedade de arranjar um bilhete de cinema entre contactos entre grupos para arranjarem um, nem que seja para as sessões mais tardias. No dia seguinte, aquelas que ansiosamente esperaram pelo filme, trazem estampado um certo desconsolo porque esperavam mais; esperavam cenas que consideravam importantes e não foram retratadas e porque as imagens que construíram ao longo da sua leitura em nada corresponderam com as cenas. O Grey parece ter desiludido aqueles que estiveram atentos enquanto leram, no entanto ainda faltam dois filmes para se redimir e conquistar novamente os leitores.

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UM PEDAÇO DE NOITE BEM PASSADO COM INÊS PEDROSA

por Manuel Joaquim Sousa, em 17.11.12

 

Não tem qualquer valor ler livros que não acrescentam nada à nossa vida ou à nossa forma de pensar – para quê queimar as pestanas?

Esta foi uma das conclusões que me vincou – e me fez pensar até este momento em que escrevo - na conversa que Inês Pedrosa teve com os seus leitores, esta noite em Braga. Foi um momento bem passado, um momento diferente de encontro direto com a escritora que, há muito, fui lendo pelas páginas da Revista do Expresso. Escrita interessante, simples e “pegajosa” (no bom sentido do termo) porque sempre me senti apegado às crónicas, pois tem a capacidade de nos mergulhar desde a primeira frase até à conclusão - só os grandes colunistas são capazes de fazer isto, sem que o leitor se aborreça com o assunto.

Não querendo resumir, mas a conversa foi muito para além do seu novo Romance - Dentro de Ti ver o Mar -; houve uma oportunidade para uma abordagem por várias das suas obras; a forma como se trabalha o gosto pela leitura e se incute nos mais novos; como no ensino poderia ser feita a escolha dos autores; a sua personalidade refletida na sua escrita e nos seus livros; a escrita feminina (que para si não existe); a Fotobiografia de Cardoso Pires; uma abordagem também à sua amiga Agustina; a crítica e passagens dos preconceitos de escritores e jornalistas em falsos julgamentos; até mesmo uma abordagem sobre obras de outros autores como termo de comparação do romance em várias épocas e em vários “estilos amorosos”.

Um pedaço de noite bem passado, com assuntos de interesse e que só assim podemos partilhar com alguém, que está longe e nos entra em casa, de forma muito íntima, através de uma crónica ou através de um livro e nos marca - sem que para isso se queimem pestanas.

«Nas tuas mãos» será a obra que estará na mesa-de-cabeceira, durante algum tempo. Pelo pouco já li, existe muita História que enriquece todo o livro – espero que seja capaz de me enriquecer.

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A LITERATURA QUE REPUGNA OS JOVENS. CULPA DE QUEM?

por Manuel Joaquim Sousa, em 19.06.12

No blogue Escada Acima, a Joana publica um texto "Por Favô" em jeito de desabafo que no exame de hoje não lhe apareçam os Lusíadas ou a Mensagem no exame de Português. Os mais velhos dirão: que insensibilidade para com obras de grande renome e que são representativas da cultura literária portuguesa. Eu nos meus tempos de estudante também era insensível a este tipo de obras. Com o tempo fui-lhes dando valor e com o tempo fui desfolhando e lendo cada estrofe com uma delícia que não sentia antes. Hoje valorizo mais que nos meus tempos de estudante.


A Joana amavelmente me respondeu: "Na verdade, Manuel, dou muito valor a estes autores. Sei bem o valor que têm e a grandiosidade das suas obras. Hoje, infelizmente, não os há assim. A única razão pela qual eu não "queria" que saíssem em exame era o facto de achar que a interpretação é muito subjectiva. Aliás, aconteceu-me fazer o exame e, ao ver os critérios, reparar que fiz uma interpretação completamente antagónica à sugerida como correcta."

 

Perante isto respondi que compreendo bem que nem sempre as nossas interpretações são bem vistas pelos outros - os corretores das provas que se cingem à folha de correção. O nosso ensino e mesmo a leitura de bons clássicos peca por este ponto: somos obrigados a seguir um padrão de interpretação e de leitura e nada podemos fugir deste (se fugirmos estaremos condenados a errar ou a ser considerados como "hereges" da literatura). 
Por isto que em Portugal se lê muito pouco e não sei se lerá cada menos. Pensar que é fruto da crise é verdade, mas mais que da crise económica é da crise de valores. Ninguém gosta de ler contra vontade e numa sociedade livre deveria ser permitido pensar e expressar livremente o que se sente quando se lê uma obra ou um poema e esquecer o que é determinado pelos critérios estatais que determinam o pensamento - isso é querer que se tenha um pensamento único contrário às leis democráticas conquistadas com a revolução dos cravos.

Em conclusão: evito condenar apenas os jovens pela falta de leitura ou pelo desapego à cultura literária; critico muito mais quem constrói os programas estáticos, que nem sempre olham para a variedade da nossa literatura, mesmo da contemporânea.

É natural que o que aqui escrevo pode ser uma profunda heresia para quem trabalha no ensino, mas é a opinião de quem já passou pela fase que os estudantes passam neste momento (medo de um exame por poderem interpretar de forma diferente ao instituído).
Nunca fui um bom exemplo a português e por essa razão, poderei não ser um bom exemplo ao expressar esta opinião, porém é o que penso. Estarei errado?

(já que estamos a falar de Português, agora mesmo reparei que o meu word foi actualizado e a correcção está a ser feita de acordo com o novo acordo ortográfico. Aqui no Sapo ainda se mantém a fórmula antiga. Tenho mesmo de pensar o que vou fazer no futuro). 

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AFONSO HENRIQUES, O HOMEM E O DEVER DE CADA PORTUGUÊS

por Manuel Joaquim Sousa, em 15.08.11




Portugal atravessa actualmente uma crise económica, uma crise de valores e uma crise de identidade. Precisa de encontrar um novo rumo e uma nova filosofia para que os seu designios possam ser cumpridos. Não podem os portugueses sentirem-se desanimados porque vivemos tempos dificeis. Antes pelo contrário, devem ter esperança que amanhã a vida poderá ser diferente, com outros horizontes e com outras expectativas. Para isso, é necessário trabalho, dedicação, originalidade, energia, vontade de vencer, vontade de inovar, tudo o que permita lutar contra a pacividade.

Já passamos por épocas dificeis, já perdemos a independência, as crises não são novidade, mas já fomos conquistadores, já partimos à descoberta e já fizemos grandes revoluções, das quais sempre fizeram do povo português um povo com prestígio.
D. Afonso Henriques deu início ao grande projecto que é Portugal, desde o pequenino Condado Portucalense. Hoje somos nós que temos de fazer cumprir o designio de transformar um grande país. Está na tuas mãos e nas minhas essa dura tarefa. 

Recomendo o Romance Histórico «Afonso Henriques, o Homem», de Cristina Torrão, para que se lembrem sempre deste homem que lutou por Portugal, mas que também terá tido a sua vida sentimental e amorosa como qualquer um, independentemente da condição de Rei.
Acedam a: http://www.esquilo.com/afonsohenriques.html e se puderem comprem um exemplar e inspirem-se na história.



Manuel de Sousa
manuelsous@sapo.pt




 

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Por: Manuel de Sousa
manuelsous@sapo.pt


A literatura portuguesa ficou, não direi mais pobre, mas mais triste pela perda de José Saramago, uma personalidade de grande relevo e importância na escrita, independentemente das polémicas e das controvérsias das suas posições. Partiu 12h 30m, do dia 17 de Junho de 2010, com 87 anos de vida, devido a uma múltipla falha orgânica, após doença prolongada, na companhia dos mais próximos. Consta-se que partiu de forma serena e tranquila, talvez com a sensação de trabalho feito durante esta sua vida que sempre julgou apenas como sendo terrena e sem qualquer continuação para lá da morte.


De José Saramago já muito se falou nestes dias e a notícia da sua morte correu de forma rápida e da mesma forma se fizeram imensos comentários um pouco por todas as formas de comunicação. Como sempre, muitas opiniões a lamentar a sua morte como uma perda para a literatura e para o mundo da cultura e outras em tom de crítica quanto à sua personagem, pertinência a suar a uma certa arrogância, opiniões que roçam o político e o religioso, faces da vida que sempre marcaram Saramago ao longo de uma vida conturbada. Atrevo-me a dizer que uma vida bastante rica e com uma inteligência invulgar.



O HOMEM

No dia das cerimónias fúnebres de Saramago, muitos, entre personalidades e anónimos lembraram a pessoa que era o José e a sua simplicidade, contrária ao que muitos de nós se habituaram ou nos construíram pelas suas reacções, por vezes ácidas, com que comentava os temas ou as questões que lhe propunham. Sem dúvida que para muitos foi criada a imagem de um homem frio e distante de todos e dos seus. Porém, as pessoas com quem privara têm uma noção e uma visão bem diferente da pessoa. Nos seus discursos públicos José Saramago costumava lembrar as suas humildes origens Ribatejanas e a sabedoria de seu avô Jerónimo, que na altura de Verão dormia com o seu neto debaixo da figueira depois de divagar sobre as suas histórias de vida. Saramago aprendeu com esta sabedoria e quiçá será um reflexo da vida de seu avô e da sua avó não menos sábia, como dizia.


Independentemente de todas as tomadas de posições, criticas e azedumes, crê-se que era um homem de fortes convicções em quem se podia confiar pela sua fidelidade aos amigos e aos valores. Um exemplo de integridade para o mundo actual, mesmo que isso lhe trouxesse dissabores. No discurso da Real Academia Sueca, por altura do Nobel que recebeu em 1998, a certa altura disse: «A biologia não determina tudo e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga (?) Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras de minha vida (?) a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou». Estas pequenas palavras transcritas do seu discurso resumem parte da essência deste homem, José Saramago.



O ESCRITOR

A sua carreira sem dúvida que ganhou uma grande projecção quando foi galardoado com o prémio Nobel da Academia Sueca, em 1998, quando completava 76 anos de idade. Este era um prémio há muito aguardado pelas várias vezes em que o seu nome foi apontado para ser eleito. Porém, a sua obra com ou sem grande prémio de referência internacional, continuou a ter a mesma qualidade de sempre e com o mesmo gosto e a mesma acutilância que todos esperam quando compra um livro seu.
A forma de escrita deste senhor da literatura foi sem dúvida revolucionária e nem sempre bem aceite pelo nosso público, que construiu uma imagem em torno de uma pessoa com uma escrita considerada incompreensível. Reinventou uma forma de escrever, que podem chamar de barroca, mas que não perde qualquer sentido quando lido com o sentido que o autor entende ser dado. A inteligência de Saramago não era apenas a pensar nas histórias que editara, era também sua intenção escrever de uma certa forma, para que a leitura tivesse a posição que este defendia e considerava importante ter. Uma forma indirecta de partir para o convencimento de forma lógica e breve. A pontuação criticada por muitas vozes como sendo obscena e sem qualquer rigor linguístico, provoca exactamente o contrário, ou seja, fazem o leitor deambular ao longo das páginas com uma rapidez tal, de forma a não sentir qualquer maçada na leitura, mas prazer.
As crónicas, contos, diários, ensaios, memórias, poesias e romances fazem da obra de José Saramago algo de uma riqueza impressionante, que estará sempre viva no futuro porque é ao futuro que se dirigem as suas palavras. Saramago escreveu para o hoje e muito para o amanhã, o que marcou a diferença de grandes homens da literatura portuguesa que escreveram para o passado e para o presente e que por muito rica se sejam suas obras, nem sempre se poderão projectar no futuro contemporâneo. A acutilante escrita procurou desassossegar as mentalidades mais adormecidas e procurou remexer as teorias que perduraram na História durante séculos. A sua escrita procurou remexer com as instituições e aquilo que o mundo tenta manter como estático e imóvel para o acomodar das consciências. Escreveu sobre um povo português que sempre amou mesmo após vários azedumes. Foi um homem que através da escrita tentou dar luz ao sonho. Deu, com certeza, luz ao sonho de muitos.
A toda esta sensibilidade e capacidade lhe valeram os prémios de uma carreira como Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Camões, para além do Prémio Nobel da Literatura, a 1998. Um autor internacional, traduzido em muitas línguas, tantas quantas as que quiseram conhecer a sua obra de dignidade para a Língua Portuguesa.



O POLÍTICO
 


Conhecido homem de esquerda, José Saramago foi militante do Partido Comunista desde 1969, nos tempos da clandestinidade e na preparação para a aurora de Abril. Foi por Abril que este ser lutou porque sempre sonhou com a liberdade do povo português. Comunista, o ideal marcado nos seu código genético, que assegura nunca ser possível libertar mesmo que fosse essa a sua intenção. Porém, nem sempre concordou com posições do partido e de Álvaro Cunhal, mas tinha a frontalidade de o afirmar a quem de direito como forma de respeito para com os outros e como sinal de lealdade para com o partido e para com a sua consciência. Apesar dos prémios e da fama que lhe foi sendo marcada com a passagem do tempo, nunca abandonou as suas convicções. Foi político autárquico por Lisboa e mesmo para o Parlamento Europeu em lugar não elegível. Muito criticado pela defesa de uma aproximação a Espanha e defensor de uma posição de um país ibérico.
Mas, apesar de tudo nunca deixou o seu patriotismo português e teve a frontalidade de o dizer publicamente quando recebeu o prémio Nobel como sendo também um prémio para os portugueses. Não negou as suas origens e como tal, uma defesa do seu patriotismo. Partiu para Espanha, para Lanzarote, mas permanentemente vinha a Portugal onde possuía residência e a quem pagava os seus impostos. A sua ida para Espanha foi uma decisão pelo que o Governo Português, na pessoa de subsecretário de estado do Ministério da Cultura, António Sousa Lara, em 1992, tomou quando decidiu riscar a obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo, da lista de livros concorrentes ao Prémio Literário Europeu. Uma acção de censura, por considerar que este foi um acto contra o património cultural e religioso de Portugal. O Governo de Cavaco Silva não o considerava quiçá bem-vindo.
Talvez este reflexo seja a justificação para o Chefe de Estado português, Cavaco Silva, não se encontrar presente nas cerimónias fúnebres. Uma falta de sensibilidade, cortesia, uma falha que não se preenche com um representante da casa civil. José Saramago foi bem claro quando disse que agradecia o que os portugueses fizeram por ele e que não guardava, por isso, qualquer ressentimento.



O RELIGIOSO
 


São do conhecimento de todos as críticas e ataques que José Saramago dirigiu contra Deus e contra a religião, nas suas obras e mesmo nas suas intervenções públicas. As últimas e mais ferozes terão sido na altura a publicação do Caim, em Outubro de 2009, quando classificou como Deus da Bíblia um ser monstruoso e o Livro Sagrado como um livro de maus costumes e que deveria ser afastado da leitura dos jovens, por existir sangue, ódio e incestos. A Igreja Católica apesar de lamentar a sua morte, não deixa de lado as críticas de que foi alvo por Saramago, das suas influências anti-religião e marxistas, que utilizou para granjear prémios e popularidade.
A verdadeira intenção do escritor era o levantamento de questões religiosas, nem sempre bem esclarecidas e que mereciam uma análise. Para Saramago, acreditar sem questionar não faria qualquer sentido e essa foi a sua intenção, independentemente de alterar ou não a fé de cada um.
Apesar de não acreditar em Deus, não deixa de mostrar, na sua obra, a preocupação em relação a Ele e à possibilidade de este existir quando tem a pertinência de o questionar em relação ao que vê com os seus olhos no mundo actual. A sua constante negação não põe de lado a defesa da sua mentalidade que no fundo é Cristã e os seus valores estão enraizados e recheados de Cristianismo e foi essa cultura e mentalidade que o perseguiu durante a sua vida. Preocupava-se muito com Deus porque dizia que Ele está na cabeça de cada um.
Sem dúvida um sentimento religioso que o preocupava e que pretendia desacreditar, levantando inúmeras questões com o objectivo de não existirem repostas válidas ao que é difícil explicar.


Muito mais haveria a falar da riqueza da vida de José Saramago, mas todas as palavras serão muito poucas, comparadas com as palavras escritas por si e que tivemos o prazer de ler e partilhar.
Para o Homem que dizia que morrer é simplesmente natural, a natureza cumpre assim o seu papel de levar um homem que deu muito a muitos, mas que nunca se perderá na memória. Isso temos a certeza, de ser imortal, num mundo de coisas que nascem e morrem.


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