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AMIGOS DE TIMOR EM NOME DA DIPLOMACIA. ATÉ QUANDO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 08.11.14

Sempre em nome da diplomacia. É assim que Portugal reage às afrontas do Governo de Timor-Lorosae com a decisão de expulsar oito cidadãos portugueses com que havia um acordo de colaboração na área da justiça. Se não estou equivocado, foram seis juízes, um procurador e um polícia. O argumento de que estavam a lesar o Estado de Timor em muitos milhões de euros, por causa das decisões judiciais em favor das petrolíferas, é no mínimo uma explicação ridícula.

 

Vejamos: qual a relação de um agente da PSP com a decisão dos juízes nesses processos com as petrolíferas? Nenhuma. Qual a relação deste com os juízes para além da nacionalidade? Alguma. Os juízes estavam a investigar casos menos claros – corrupção –, que envolviam membros do Governo de Timor. José Brito, o oficial da PSP, foi para Timor em 2009, integrado numa missão da ONU e estava numa comissão anti-corrupção do governo. Agora dá para perceber a razão destas expulsões – todos investigavam a corrupção em membros do Governo. A reportagem do semanário “Expresso”, de 8 de Novembro, de 2014, fala exatamente do que se passa no Governo de Xanana Gusmão. Há casos de corrupção que envolvem o próprio Xanana. E há provas disso mesmo.

 

Recuo na história. Agosto e Setembro de 1999. Portugal foi o país que mais lutou e defendeu a independência de Timor. Estão na memória de muitos os acontecimentos que se sucederam ao anuncio do resultado das eleições. Ataques dos soldados indonésios à população. Fugas dos habitantes para as montanhas. Luta do Bispo de Díli, dentro e fora de Timor para defender as populações e a necessidade da comunidade internacional encontrar uma solução para o país. Foram os portugueses que mais se manifestaram – como nunca antes se tinha visto – pela defesa do país e posteriormente foram os que mais lutaram para a construção da nova democracia. Nesses tempos, Xanana Gusmão era o herói. Primeiro por estar na prisão e depois por lutar como guerrilheiro nas montanhas. Todos recordam a frase “Povo de Timor” dita no tom mais arrastado e demorado com incendiava os corações dos que defendiam um futuro diferente para o país. Anos se passaram e tudo mudou. Xanana - o herói - hoje é diferente. De democrata está a tornar-se o ditador. Está a tornar-se no que outros foram consigo. A falta de liberdade de comunicação já se sente no país com a limitação do acesso dos jornalistas à profissão. A incapacidade de separação de poderes entre a justiça e a política. A tendência para se deixar corromper. Hoje o grito “Povo de Timor” deixou de fazer sentido – há negócios bem mais importantes. É pena que assim seja.

 

Na reportagem do “Expresso”, que mencionei anteriormente, lê-se “o sistema está de tal maneira corrupto que tudo dá em desastre, as obras não têm qualidade, os projetos são maus, usam e abusam da emergência para fazer ajustes diretos”. Alegadamente existem muitas decisões ilegais.

 

Pior de tudo isto é a forma como o Portugal é tratado em toda esta questão. Há uma falsa diplomacia entre Timor e Portugal. Há desconforto na relação dos dois países. Mas, em nome da diplomacia e porque existem ainda 800 portugueses na região, tudo tem de ser gerido com “paninhos quentes”. Até quando? Temos necessidade de ser subservientes de Timor, depois de toda a ajuda que prestamos durantes estes anos? Em nome da diplomacia tudo é justificável?

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Por: Manuel de Sousa


manuelsous@vodafone.pt 


 


Nos momentos quentes das revoluções no Médio Oriente, como Egipto, Tunisia e Libia, recupero um artigo da minha autoria publicado no Blogue Ponto de Vista, no JN, sobre a revolução Iraniana de 2009.

29/06 As manifestações continuam em Teerão e teimam em não abrandar, apesar das forças policiais estarem a utilizar a força como meio de coagir sobre os manifestantes. As eleições foram realizadas a dia 12 de Junho e a situação continua sem um fim previsível à vista. Segundo dados da Federação Internacional das Ligas dos Direitos do Homem foram detidas mais de duas mil pessoas, enquanto que centenas de outras estão dadas como desaparecidas.


A ordem e a força são para avançar e a ilegalidade decretada para qualquer das manifestações não tem impedido os protestos, basta ver pelos três mil manifestantes na manifestação deste domingo, a norte de Teerão.


A situação caótica tem também provocado algumas divisões na ala religiosa. Se por um lado o Ayatollah Ahmad Khatami pede a execução dos dirigentes subversivos, por outro, o Ayatollah Mousavi Ardebili defende que não é possível pacificar os protestos com a força.


Esta divergência de opinião é a prova de que a visão dos acontecimentos transmitida pelos jornalistas estrangeiros não está assim tão longe da realidade como querem fazer passar ou *** como dizem os apoiantes do presidente eleito Ahmadinejad. As imagens das manifestações são prova disso mesmo e contra elas não há forma de desmentir, já para não falar na repressão que está a ser feita para controlar e impedir que qualquer informação ou notícia seja passada para o exterior.


Ainda que as potências mundiais tomem posições que mais lhe convém no momento e a pensar nas relações económicas e políticas futuras, independentemente da revolta do povo (o povo é apenas um motivo), tal não justifica que o mundo não mostre a sua revolta e desagrado, mesmo que este não deva interferir sobre a política interna do país e apenas possa actuar em forma de opinião e de acompanhamento dos acontecimentos.


Mas, a visão ocidental será assim tão deturpada da realidade e tão ***? Poderá ser de facto à luz dos dirigentes iranianos porque os conceitos de democracia e manifestação são diferentes do ocidente para o oriente. Porém, o ocidente não pode ter uma visão assim tão ***, quando a Amnistia Internacional menciona a tortura de reformistas para confessar que actuavam sob ordem da comunidade internacional contra o regime.


A visão de todos os países ocidentais será a mesma de países com a Alemanha, França, Estados Unidos e Reino Unido, aqueles para quem os resultados não são favoráveis?


 


 


Iran " Invincible" photostream..(RIP NEDA)


22/06  A situação no Irão começa a tomar proporções ainda mais preocupantes com o desenrolar da situação e da forte instabilidade política que se está a registar, apesar do Ayatollah Khamenei ter afirmado novamente, nas orações de Sexta-feira, que Ahmadinejad é o candidato vencedor das recentes eleições. Com esta tomada de posição não existirá qualquer recontagem parcial do votos, muito menos a anulação do acto eleitoral, dado que, segundo este, não ocorreu qualquer irregularidade e que não há irregularidade que justifique a realização de novas eleições presidenciais. Quanto às 646 queixas de irregularidades apresentadas e que careciam de uma análise, simplesmente devem ter sido esquecidas pelo Conselho dos Guardiões, que não parecem demonstrar uma total independência perante a situação.


O mesmo Ayatollah Khamenei, condenou as manifestações como incentivo à violência e à desordem, considerando que qualquer acto de manifestação contra os resultados eleitorais é ilegal e deve ser repreendido. Independentemente da comunidade internacional e das muitas pessoas que pelo mundo fora acompanham o desenrolar dos acontecimentos, considerarem como duvidosa toda esta questão das eleições e da legitima vitória de Ahmadinejad, é condenável a acção por parte do poder em tentar silenciar as vozes da oposição, com o argumento de que é necessário colocar a ordem na população. Estas atitudes mostram com evidencia o conservadorismo e repressão que o poder se encontra a fazer junto da população e a tentativa de que todas estas acções permaneçam no silêncio, sem que a comunidade internacional tenha acesso ou interfira na situação. Os jornalistas estão a ser pressionados, tendo o correspondente da BBC sido expulso e o correspondente da Newsweek preso sem que existam razões que justifiquem estes actos.


O Ministro da Cultura Iraniano ameaça que serão tomadas outras medidas se a comunicação social estrangeira continuar a interferir nos assuntos internos e se continuar a transmitir informações que sejam enganosas. Como se o pouco que podemos ver através de imagens e relatos dos nossos jornalistas fosse algo duvidoso ou mesmo enganoso e uma criação, de forma a manipular a opinião pública mundial.


Poderiam os jornalistas não terem o direito de interferir ou de transmitir o que se passa em Teerão e que os acontecimentos são meramente internos e aos outros países não lhes diz respeito. Porém, existem muitos iranianos espalhados pelo mundo inteiro, que têm a legitimidade de acompanhar o que está a acontecer no seu país e também é dever da comunidade internacional estar a par dos acontecimentos, dado este ser um país com quem existem acordos com outros países em matéria económica. É necessário que todos saibam que país é este, que governo está no poder e com que legitimidade pode o Irão celebrar ou manter qualquer acordo ou parceria.


O número de vítimas dos protestos torna-se preocupante, inicialmente eram sete vitimas resultantes dos protesto de Segunda-feira passada, nos protestos de Sábado, em Teerão, foram mortas treze pessoas e mais de uma centena foram feridas. Pelo mundo, através do Youtube e do twitter, circulam as imagens de Neda, uma mulher que foi atingida no peito enquanto se manifestava contra o regime. As imagens são reais e são as provas da dura repressão exercida pelas forças de segurança em nome do regime instalado, que não convive com as necessidades de liberdade do povo iraniano. Teme-se que o número de vitimas seja superior ao que é conhecido oficialmente e que as retaliações comecem a intensificar-se na medida em que o controlo da informação começa a ser cada vez mais apertado.


Não sabemos quando isto irá terminar.


 



 


19/06  A situação no Irão ainda continua a ser caótica com as ondas de protestos que não cessam a cada dia que passa. As manifestações continuam a ser alimentadas pelas forças opositoras ao regime instalado, como forma de fazer pressão para que o Conselho dos Guardiões anulem os resultados e convoquem novas eleições, em vez uma contagem parcial dos votos.


Os apoiantes de Mir Hossein Mussavi não aceitam de qualquer forma o recente apuramento dos resultados e no dia de ontem saíram para a rua vestidos de luto, com velas, em homenagem aos sete manifestantes mortos na passada Segunda-feira. Os protestos apesar de serem pacíficos ou com essa intenção foram proibidos e considerados ilegais pelo Ministério do Interior.


As notícias também têm sido muito escassas devido ao aperto da informação e à limitação da acção por parte dos jornalistas, que são impedidos de transmitirem imagens das manifestações. Conta-se que hajam constantes cortes da Internet, das comunicações por satélite e mesmo da rede de telemóvel.


Existem muitos boatos lançados sobre o que se está a passar em Teerão, como prisões a ser efectuadas a manifestantes oposicionistas. Porém, não existem quaisquer provas até ao momento de que tal possa estar a acontecer.


O Conselho dos Guardiões propôs a possibilidade de se reabrirem a conversações com três dos principais candidatos que foram derrotados, para chegar a uma solução que termine com a crise instalada. Terão também de analisar 646 queixas de irregularidades registadas durante as eleições e avaliar o peso das mesmas para validarem ou não a possibilidade de um novo acto eleitoral ou apenas a recontagem parcial dos votos.


As manifestações poderão continuar durante os próximos dias e a possibilidade de estes serenarem vai depender da decisão tomada pelo Conselho dos Guardiões, de quem depende o futuro político do país.


Apesar de ser uma eleição interna, estas têm provocado alguma preocupação um pouco por todo o mundo, dada a influência e projecção que este país pode ter numa economia Global.


 


 


 



 


Se pensamos que o Irão está bem longe da nossa realidade e bem longe geograficamente a ponto das recentes eleições nada interferirem com a nossa diplomacia ou com a diplomacia da Europa, estamos enganados. Vivemos num mundo Globalizado em que as eleições de cada país interferem com o futuro de outros. Por terem muita importância internacional a vários níveis nos chegam constantes notícias da campanha, das eleições e agora do período pós-eleitoral, muito conturbado e que têm causado alguma preocupação um pouco por todo o mundo.


Se pensarmos que o Irão é pouco desenvolvido e que as suas eleições foram como sempre foram, também estamos enganados. Estas eleições passaram do limiar do normal e do considerado tradicional e saltaram de forma inesperada para as novas tecnologias da Internet através do Youtube ou de redes sociais como o Twitter ou o Facebook. Foi assim durante a campanha e é assim que continua a ser neste tempo pós-eleitoral, onde a informação jornalística começa a ser escassa com a saída dos jornalistas devido à não renovação dos vistos de permanência e com a impossibilidade dos jornalistas locais de poderem sair para reportagem. São as redes sociais a forma de travar e contrariar o aperto ao controlo de informação. Apesar de tudo, a informação continua a espalhar-se a um ritmo imparável, mesmo com a quebra de rede móvel em Teerão. Basta ver a quantidade de manifestantes de ambas as partes.


As eleições Iranianas tiveram em tudo diferente do normal, talvez porque o povo tenha acordado para através das vantagens democráticas manifestarem-se contra o regime de Ahmadinejad. Conta-se que estamos perante uma das maiores, senão a maior, manifestação nas ruas do Irão desde a Revolução Islâmica de 1979.


Este ano até sondagens, nunca permitidas, foram efectuadas pela Universidade de Azad que consultou a população e apurou um resultado favorável ao candidato Moussavi na ordem dos 56% e de 42%para Ahmadinejad. Estamos perante um país com 45 milhões de eleitores, sendo que nestas eleições votaram 40 milhões, confirmando-se um dos actos mais participativos alguma vez realizados, num país em que 33% dos eleitores são pertencentes a zonas rurais, 34% a pequenas cidades e os restantes 33% a grandes cidades.


Os confrontos a que temos assistido nos últimos dias são resultado da contagem em Teerão, que deu vitória a Mousavi com 60% dos votos contra os 40% de Ahmadinejad, que são o oposto dos resultados gerais do país que consagram o actual presidente como derradeiro vencedor.


Corrupção? Não sabemos a que se devem estes resultados. As manifestações quer em Teerão, quer um pouco por todo o mundo, como por exemplo em Lisboa, dos apoiantes de Mousavi exigem do Conselho dos Guardiões umas novas eleições com fiscalização mais reforçada. No entanto, fica a duvida da possibilidade, vantagem e transparência de novas eleições depois de tantas manifestações e da confusão instalada e se estas não iriam conduzir a uma indefinição política no Irão.


Alterar os resultados das eleições a uma escala de 40 milhões de votantes é muito complicado e implica uma grande organização, muito bem coordenada capaz de o fazer sem o reparo do Conselho dos Guardiões, ainda que não seja impossível. Este Conselho optou por efectuar a recontagem parcial dos votos como forma de acalmar as hostes de ambas as partes e o curso dos acontecimentos, assim como, retirar todas as dúvidas de uma contagem muito rápida dos votos que ditaram uma esmagadora vitória de Ahmadinejad e aclamada sem esperar pelos três dias normais para o anúncio dos resultados.


Todos estes acontecimentos têm uma grande influencia sobre o mundo porque o mundo conhece o grande potencial do Irão e  sua capacidade de influência, em especial sobre as grandes potências asiáticas como a China, Japão, Coreia, Malásia e Rússia com quem existem negociações e trocas comerciais. A Europa e os EUA não podem ficar indiferentes a estas transformações e à margem de negociações com um país de grande potencial económico. O Irão detém alta tecnologia, é o quinto maior produtor mundial de petróleo e de  gás, que são bens essenciais para uma Europa com dependência energéticas e para as grandes potências que necessitam dela para produzir e aumentar as exportações.


Por outro lado, existem outras causas muito preocupantes e que já fizeram tremer os EUA e países do Médio Oriente com determinados anúncios de Ahmadinejad. O Irão tem uma grande capacidade de produção de Energia Nuclear, que tanto pode ser utilizada para fins pacíficos como para a produção de armas de destruição maciça, a verdadeira dor de cabeça que tem preocupado os EUA e o vizinho Israel, que poderia ser aniquilado a qualquer momento (ainda que se julgue pouco provável), não fosse Ahmadinejad defensor que negou a existência do Holocausto e a legitimidade do povo Judeu.


Por estas razões, Mousavi é muito desejado e apesar das incertezas quanto ao futuro, caso fosse o vencedor. Este defendeu posições mais abertas e menos conservadoras como a emancipação da mulher e abolição de todas as leis que a descriminam, a abertura do povo à comunicação e informação. Manifestou também intenção de diálogo com os EUA e critico em relação ao assassínio de Judeus no Holocausto.


No meio deste fogo cruzado entre apoiantes, opositores e manifestações que sobem de tom e que já provocaram oito mortos, o futuro do Irão está em aberto e as expectativas são muitas. O Irão não será mais o mesmo. Fica na dúvida se estas eleições têm a mão de Deus como afirmou o aiatola Ali Khamenei ou a mão de Satã.
 


Manuel de Sousa


manuelsous@vodafone.pt


 


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CAMINHAMOS PARA UM NOVO MUNDO ÁRABE?

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa
manuelsous@vodafone.pt



(artigo publicado no Expresso, edição de 05-03-2011)


Caminhamos para um novo mundo árabe? É a questão que coloco, neste momento, após ter lido em detalhe toda a informação que Expresso publicou na sua edição 2000 e após ter acompanhado todas as notícias, que correram mundo com as imagens das revoltas em diversos países como a Tunísia, Magrebe, Egipto e recentemente na Líbia. Não se sabe ao certo se este movimento de revolta se irá estender a outros países controlados por ditadores ou monarquias envelhecidas e que condicionam a liberdade dos povos.
As revoluções que se foram sucedendo país a país, dia após dia, têm origem numa população que vive cada vez mais pobre, sem possibilidades e oportunidades de encontrar emprego e formas de subsistência, enquanto o poder granjeia em grandes riquezas. Estas mobilizações têm como objectivo manifestarem-se contra a actual situação e impedirem que continue e que nada seja feito pelas populações. São realizadas por jovens que tentam acordar os demais para a situação em que vivem. A proliferação da Internet e das redes sociais como o Facebook e o Twiter são o rastilho, por fazerem passar a mensagem de revolta e o encorajamento de outras pessoas para a luta. Sangue e revolta são as imagens que nos chegam e que têm permitido a queda inevitável dos ditadores, ainda que alguns com maior resistência como no caso do Egipto e da Líbia.
No Egipto a demora da queda do regime provocou forte ansiedade nos manifestantes que esperavam pela demissão de Mubarak a cada intervenção que este fazia à comunicação social. Na Líbia, a este momento, o regime contínua erguido, com Kadhafi no poder, embora cada vez mais isolado e reduzido apenas à cidade de Tripoli, onde ainda vive no seu bunker e onde as forças armadas ainda lhe são fiéis. Recusa-se a demitir, porém, prefere morrer como mártir. Os seus últimos discursos revelam uma aflição em relação ao rumo que a situação nacional se encontra a passar, ao ordenar a morte a todos os manifestantes contra o regime e semeando o pavor de uma guerra civil provocada por si. A atitude de Kadhafi tem sido no sentido de destruir o país e o deixar numa situação mais precária que aquela em que se encontra, numa nova Somália.
Mas, a questão que se coloca é aquela que deu origem a este artigo, Caminhamos para um novo mundo árabe? Talvez sim. Talvez não. O futuro não será igual em todos os países e muito vai depender das alternativas existentes em cada um deles. Nos países em que existir uma oposição estruturada, com referências, ideias concretas para o futuro, referências e movimentos pró-democracia que já existiam durante o regime ainda que silenciadas, sim existe uma esperança no futuro de reconstrução sob um modelo democrático que permita criar oportunidades para todos e que há muito são reclamadas.
Porém, nos países em que o modelo ditatorial não permitiu qualquer organização de oposição e onde todos os movimentos e secções da sociedade foram sempre bem controladas, quer movimentos políticos ou estudantis e outras estruturas onde se iniciam as primeiras revoltas e frentes de luta, nesses não creio que exista uma alternativa para a criação de um futuro democrático. Nestes países, como o caso do Egipto corre-se o risco da queda num novo regime ditatorial.
Portugal, por exemplo, apenas evoluiu para a democracia porque existiam movimentos políticos e estudantis que se haviam organizado antes do 25 de Abril e que seriam a alternativa para uma democracia parlamentar.
Outra questão que me ocorre é, onde ou até onde se estenderá toda a revolta da população nos diversos países do mundo árabe? Em que situação política estarão outros países como a Arábia Saudita e Marrocos à mercê da revolta popular ou mesmo o Irão, onde no passado recente existiram manifestações sérias, mas que não levaram à queda do regime? Também nesses países as populações têm aspirações e necessidades, a ponto destes países tomarem algumas medidas de urgência para evitarem o levantamento de qualquer contestação que agrave ou que provoque uma convulsão política. Mas estarão receptivos a mudar definitivamente? Da parte do Irão são notórias as limitações à Internet ou às redes sociais para evitar a revolta.
A democracia continua a ser o modelo mais desejado e a alternativa à ditadura por muitos defeitos e virtudes que possa ter. Porém, na altura da revolta ou se sabem quais a medidas e orientações a tomar ou se cria um novo regime ditatorial ainda mais sério. Mas, a revolta é um começo para a esperança.


 


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