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AS NOSSAS TRADIÇÕES PERANTE A MORTE

por Manuel Joaquim Sousa, em 02.11.12

Por vezes, penso que as nossas tradições são um pouco mórbidas e deprimentes, por muito respeito que tenha pelas mesmas.


Dia 2 de Novembro, lembramos os fiéis defuntos, aqueles que partiram deste mundo e, segundo a tradição Católica, estarão noutra vida, a eterna.

Em Portugal existe o costume de, nestes dias, se visitar os entes queridos ao cemitério. Estes locais tornam-se sítios de peregrinação e azafama para os familiares. É comum verem-se pessoas a limpar as campas e os jazigos a fundo e a ornamentar com as mais belas e caras flores e com velas, de forma a tornar aquele espaço em algo cuidado e belo - como se os mortos estivessem ali para apreciar e aprovar toda aquela dedicação festiva.


Por vezes penso: se vamos para uma outra vida significa que não estamos ali, então porquê tudo isto? Talvez por ter sido o último local em que vimos ou depositamos aquele ente querido.

Porém, também penso que aquele embelezamento possa ter outra razão de ser porque há quem deseje mostrar que o seu jazigo ou campa esteja bem cuidada e se compare com os demais. Há muito quem goste de passear pelo cemitério, só para ver as campas dos outros e para depois tecer os seus julgamentos morais.

Se existe tanto cuidado, nesta data, com o tratamento dos espaços, que cada um tem no cemitério, qual a razão para que durante o ano estejam ao abandono, sem uma flor, uma vela ou mesmo uma visita?

As nossas tradições apegam-se muito ao luto e ao sofrimento, ainda que se queira acreditar num outro mundo melhor.

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BUSCA DE LUZ NO SEIO DA MORTE

por Manuel Joaquim Sousa, em 01.11.12

 

 

 

Entender o sentimento do Homem e aquilo que lhe vai na alma nem sempre é tarefa fácil, quando este se confunde entre desejos opostos e verdades nem sempre provadas, que imanam do interior, fruto de uma crença, nem sempre interrogada ou interrogada até à exaustão.

Hoje, 1 de Novembro, é dia de todos os Santos, para a crença Católica, um dia em que todos os seres que contribuíram para o bem da humanidade são lembrados de uma forma comum como servos de Deus, orientadores, inspiradores e salvadores do Homem nas suas maleitas. Lembramos a luz e a esperança. A religião cria naqueles que acreditam ou desejam acreditar que existe algo superior e que existe um outro mundo do qual todos farão parte amanhã.

Porém, na noite passada comemorou-se o Halloween, a noite das bruxas, uma noite em que se lembra o lado negro do sobrenatural, ainda que seja uma tradição mais comercial e com predominância das brincadeiras em determinadas sociedades.

Vivemos o bem e o mal de forma tão próxima que se chega a confundir o desejado e a forma como se deseja – costuma-se dizer que os extremos tocam-se (verdade). Porque será que somos assim, tão bipolares? - mais do que julgamos. Desejamos a paz, a luz, sem nos afastarmos das trevas, do negro, da tristeza e do sofrimento. Será que a saudade é a ligação a tudo isto, ou pelo menos a uma parte?

Independentemente da crença que se tenha ou não, todos temos sentimento de saudade, sofrimento por perda, choro perante a morte, velamos o corpo segundo o que acreditamos e temos rituais que dignificam aqueles que partem. Se hoje é dia de todos os Santos, amanhã é dia dos Fieis Defuntos, o dia em que lembramos aqueles que partiram e nos deixaram porque chegou a sua hora. Dia de saudade, de lembrar e puxar o sentimento que ainda existe e que o tempo não conseguiu curar (não deixamos que o tempo cure tudo, para que a essência e a memória dos que partem continue a ser imortal).

Acreditamos na imortalidade do Homem. Crentes ou não crentes acreditam. Os crentes porque acreditam que existe um outro mundo, uma vida diferente da que vivemos cá pela Terra e que é fruto dos nossos atos. Não crentes acreditam na imortalidade do Homem pela memória que fica e pela obra que deixam. Conceitos de imortalidade diferentes, tão próximos porque ambos mantêm viva a alma dos que partem.

Somos seres complexos que criam, idealizam, desejam paz, imortalidade sem nunca esquecerem o lado escuro das trevas, ainda que essa paz seja vivida com sofrimento. Buscamos a luz, sem querem sair da escuridão. Será?

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