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A CARTA DO PAI NATAL

por Manuel Joaquim Sousa, em 13.12.12

Eu sou o Pai Natal. Este velho que todos os anos, por altura do Natal, anda pelo mundo a distribuir os presentes às criancinhas.
Este ano recebi muitas cartas, como sempre, com tantos pedidos que já nem sei muito bem como satisfazer a todos e com tantos pormenores tantas exigências. Eu gosto de satisfazer ao máximo as crianças que se portam bem durante todo o ano, que são muitas, mas que fazem muitos pedidos e que complica toda a logística de transporte. As crianças portuguesas são as mais piegas porque os pais também são piegas (o primeiro-ministro de Portugal tem razão). Às vezes, parece que são os pais que pedem aos filhos para escrever aquelas coisas ou são mesmos eles que escrevem, já que não têm dinheiro para comprar. Tenho de ser sempre eu a dar tudo às crianças; os pais deixam os brinquedos nas prateleiras das grandes superfícies porque acham que são caros. Já nem as campanhas, promoções e outros descontos estão a surtir resultados nas vendas. Sou eu que recebo as reclamações das cadeias de distribuição pela baixa das vendas de brinquedos, sem que eu tenha culpa. Se não levo, os pais zangam-se mais que as crianças.
Todos os anos produzo grandes quantidades de brinquedos, como devem calcular, mas não posso ter em stock porque os pais só nos enviam os pedidos dos filhos com poucos dias de antecedência e torna-se cada vez mais difícil satisfazer esses pedidos em tão pouco tempo. Os pais portugueses são os que se guardam mais para o final (acho que deve ser genético). Pior, não compreendem que se torna difícil e querem que se fabrique de um dia para o outro.
Cada vez mais complicada é esta logística de entrega das prendas. Sempre a correr num grande stress para conseguir chegar a todas as casas. As aldeias agora já não têm crianças, de forma que só faço distribuição nas cidades, as verbas para ir á aldeias foram cortadas. As minhas renas têm andado dentro do limite de velocidade, mesmo no ar, porque a polícia anda sempre à espreita para ver se passa uma multa ao Pai Natal. Além disso, sou obrigado a viajar por zonas de estradas nacionais porque foram criados pórticos no ar para se taxar portagens. Toda esta situação está a atrasar o meu trabalho e acabo, muitas vezes, de distribuir os presentes já de manhã. Consequência: as renas estão muito cansadas, eu fico roto por completo e os meus duendes estão mais mortos que vivos. Sou obrigado a pagamento de horas extras porque não é possível satisfazer todos os pedidos dentro do horário normal de trabalho para o meu pessoal. Coitados dos meus funcionários, não quero que lhes falte nada porque são eles que me valem nesta hora de aflição de tanto trabalho (nem quero imaginar que seria de mim se estes fizessem greve às horas extraordinárias).
Vivo com algumas dificuldades porque grande parte do pessoal é despedido no final do Natal; não tenho mais trabalho durante o ano, a não ser as devoluções e reclamações que os pais se lembram de fazer de algum brinquedo que não esteja a funcionar no seu melhor (pieguisses). Por causa do Ministro das Finanças, até sou obrigado a passar fatura pelos brinquedos que ofereço, para deduzirem em IRS ou para a devolução.

Como veem, a minha vida não está muito facilitada, a crise também me afeta seriamente. Já me sinto velho para estas andanças e não consigo arranjar uma reforma por causa do aumento da idade da reforma e porque como reformado nem dá para sobreviver. Além disso, não há quem queira seguir a minha profissão. Foi colocado um anúncio no IEFP, mas os candidatos não se querem assujeitar a ganhar 83 Cêntimos com subsídio de alimentação e deslocações. A profissão de Pai Natal está nas ruas da amargura e já não é valorizada. Ninguém valoriza o trabalho deste velho que só quer fazer o bem às crianças.
Bem, são horas de ler mais umas cartas e fazer as encomendas aos duendes, para mais um Natal de sacrifício, mas para que as crianças sejam felizes.

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