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NO NATAL LEMBRO-ME SEMPRE O TIO MANEL

por Manuel Joaquim Sousa, em 23.12.14

Já se passaram tantos, mas tantos anos e a memória vem sempre à cabeça nesta época natalícia. Lembro-me do Tio Manel. Era um homem que já não está entre nós há quase vinte anos. Conheci-o já com longa idade. Dele existe a memória de ter sempre um sorriso, que marca a sua cara com as fortes rugas de expressão e aquela boina preta, que comprara na Galiza - ainda naqueles tempos em que as fronteiras eram fechadas. O Tio Manel era o padrasto da minha mãe. Vivia sozinho numa casa pequena, muito velha. Era o fiel de uma empresa de hotéis lá na terra e, se bem me lembro, tinha como trabalho cuidar dos jardins, limpar o parque que existia numa das unidades. A sua casa dentro dos terrenos desses hotéis tenha um canteiro de plantas a toda a sua volta até à entrada que ele tão bem cuidava.
Eu e o meu irmão tínhamos por hábito em dia de consoada ir buscar o tio Manel para vir jantar a nossa casa - o tradicional bacalhau com batatas cozidas e couves. Saímos de casa ao fim da tarde e depressa chegávamos a sua casa que ficava a poucos metros da nossa; eram 15 minutos no nosso passo apressado de traquinas, mas que conseguíamos fazer em cinco minutos porque a meio do caminho saltávamos o muro e descíamos como verdadeiros alpinistas habituados a fazer aquele caminho de tantas as vezes que íamos a casa do Tio Manel. Tínhamos de ir cedo porque gostávamos de conversar com ele e, além disso, era necessário convencê-lo a vir jantar connosco porque tinha na ideia que não queria chatear ninguém. Não chateava. É certo que, às vezes, bebia um copito a mais, mas como eu gostava tanto dele, ficava todo contente em ter o Tio Manel lá em casa. Depois de o convencermos, já a noite tinha caído, lembro-me de que apagava a fogueirinha que acendia dentro de casa para se aquecer, vestia um casaco já muito antigo, de tecido grosso, que mais parecia fazenda, punha a boina na cabeça, apagava a luz e saíamos a caminho de casa. Claro que com a idade o caminho demorava um pouco, mas depressa chegávamos a casa e já o jantar se estava a fazer.
Hoje, a casa que era do tio Manel - depois de muitos anos ao abandono - foi recuperada pela empresa e tornou-se num bar, que cheguei a frequentar. Dos jardins dele nem sombra porque o terreno foi dividido para passar uma estrada.

Hoje o tio Manel não está entre nós, mas fica a memória de ter passado connosco muitas consoadas, num ritual anual que nunca me cansei que acontecesse. Mas em cada história com ele, fica a memória daquele sorriso de um velho de boina que gostava muito de nós.

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A CRÓNICA DAS GORDINHAS

por Manuel Joaquim Sousa, em 15.11.14

Era 26/08/2012 quando publiquei, neste blogue o artigo  "Reescrevo a Crónica de Margarida Rebelo Pinto e Percebo Porquê a Gordinha". Tratava-se de uma crítica a um artigo de Margarida Rebelo Pinto publicado em Setembro de 2010 e que deu muito que falar muito tempo depois. Na altura que o escrevi foi com o intuito de defender a dignidade das gordinhas por causa do insulto de que estavam a ser alvo na sua crónica. A reação foi imediata pelos comentários recebidos. Nunca pensei que, apesar de passados dois anos, este continuasse a ser um post com inúmeras visualizações, senão um dos mais vistos de todo o blogue. Ultimamente a procura voltou a aumentar, talvez porque a escritora tenha lançado um blogue na plataforma do Sapo.

É impressionante a forma como a rede imortaliza os temas e como passados anos ainda existam artigos lidos, talvez porque o tema será sempre intemporal.

Voltei a ler a crónica para lembrar o que tinha escrito na altura e os comentários publicados e a opinião mantém-se. Até poderia ter existido um arrependimento do que foi escrito - por vezes, o calor do momento pode fazer pensar e dizer coisas que mais tarde me arrependo -, mas a opinião mantém-se. Ainda bem. Há pensamentos e posições que na vida têm de continuar a ser mantidas, para bem da coerência que se deseja ter.

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AS GENTES DO NORTE QUEM SÃO?

por Manuel Joaquim Sousa, em 13.09.14

Muitas vezes dizem que as pessoas do Norte são rudes, brutas – dizem mais os que são do Centro e do Sul. É certo. Há um fundo de verdade.
Porque são brutos? São gente da labuta. São os que mais trabalham, embora com salários mais baixos em relação a outras regiões do país. São apelidados de brutos porque são tendencialmente frontais. Cara a cara. Olho no olho. Dizem tudo o que lhes vai dentro. Não enviam recados por ninguém. As gentes do Norte são assim “carago”.
Porém, são pessoas doces, acolhedoras, dão tudo o que têm quando recebem alguém em sua casa – acompanhada da frase repetida vezes sucessivas “pobres, mas honestos”. São gentes deste Portugal que me é tão querido.

Chego ao Porto. Pedalo na bicicleta até a uma esplanada – a mesma de sempre, junto ao Douro pela margem de Gaia. É o sitio ideal para ficar a admirar o centro histórico do Porto que desce até ao rio. Chega uma senhora para me atender – a empregada do costume, de meia idade, morena, cabelos negros, voz forte e pronuncia cerrada.
- Olá bebé. O que queres?
- Bom dia. Uma meia de leite, por favor.
Hui! Que se passou aqui? – pensei – é a primeira vez que sou recebido desta forma, mesmo aqui. Achei estranho uma desconhecida tratar-me por bebé, até porque a minha aparência de bebé já se perdeu há umas décadas.
É assim que está a tratar todos os clientes (turistas) sentados ao lado, tenham eles mais ou menos idade que eu. Estranho tratamento? Sim. Alguém manifestou incómodo? Não. Terão estranhado esta abordagem? Certamente que sim. No fundo todos gostam – acho eu. É diferente. É próximo. É doce. Faz falta nos dias de hoje – a pensar que em muitos locais o atendimento ao público é feito de forma mais sisuda.
Enquanto serve os clientes trata os colegas de forma carinhosa e vai cantando qualquer música que lhe vem à memória, em qualquer idioma – ainda que idiomas inventados e muito próprios.
As gentes do Norte e do Porto são assim: diferentes e próximas. Longe de qualquer código imposto pela aparência. É a sua identidade. São senhores da sua terra e não escondem o calão, nem o berro ao fulano que está do outro lado da rua. Isto é ser verdadeiro. É ser genuíno. Há um orgulho por estas gentes do Norte.
Saia umas Tripas à Moda do Porto, faz favor.

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CARTEIRISTAS ESTÃO A ACABAR. QUEM NOS ROUBA HOJE? Parte 2

por Manuel Joaquim Sousa, em 28.07.14

"Porém, aos olhos da justiça e até da sociedade, o Pedrinho é mais criminoso, arrisca-se a um julgamento rápido e a uma pena de prisão pesada, enquanto que os carteiristas modernos fintam a justiça e facilmente se inocentam perante a opinião pública – são bons samaritanos."

 

O Pedrinho era um jovem que andava sempre com um ar estranho. Tinha um certo ar de quem tomava conta de toda a gente como que à procura de alguma coisa importante para agarrar. O Pedrinho já era conhecido por muitos como o maior carteirista da zona. Por ser conhecido era um rapaz respeitador, pois só roubava quem era de fora daquela zona e aqueles que achava terem muito dinheiro – os outros que pareciam uns pobres ele tinha pena. Tinha uma capacidade de mestre. Ninguém dava por nada. Os seus dedos entravam com uma rapidez nos bolsos dos casacos ou nas carteira abertas como um piscar de olhos. Já eram anos e anos de profissão. Eram muitas as técnicas de assalto. Por incrível que pareça, nunca as pessoas se aperceberam na hora que eram roubadas. Das carteiras que roubava, fazia questão de deixar os documentos visíveis em algumas vitrinas com publicidade ou mesmo junto aos editais da junta de freguesia – achava ser a melhor forma de entregar alguma coisa a quem roubou.

Com o passar dos anos, o Pedrinho ia-se queixando das dificuldades em roubar porque as pessoas praticamente já não trazem dinheiro na carteira – só cartões e talões, que de nada lhe servem. Os anos de escola alguma coisa lhe ensinou, mas nunca lhe deu qualquer valor e hoje arrepende-se disso mesmo porque poderia ter investido numa outra forma de ganhar a vida, mesmo que a roubar. Os carteiristas da atualidade ganham muito dinheiro, mas não a roubar pequenas carteiras de gente comum, ou apenas de uma meia dúzia. São profissionais licenciados e doutorados que chegam à alta finança, dos negócios especulativos. Sim, esses são os carteiristas. Alguns com nomes de grandes famílias. Para esta profissão já é digno de classe, como se “brincassem aos pobrezinhos”.

O Pedrinho se aproveitasse os estudos e a sua veia de sacar carteiras, hoje estaria a vestir bons fatos, usaria boa marca de charuto, teria um carro topo de gama e até motorista. Poderia até negociar e preparar os seus assaltos durante almoços em locais de luxo. Certamente que não atuaria sozinho, mas teria toda uma equipa de pessoas a quem entregaria todo o dinheiro para seguir viagem aos paraísos offshore.

Os carteiristas de hoje são de topo, negoceiam milhões e não meros cêntimos ou euros como o Pedrinho que a esta hora abre a mão para contar a meia-dúzia de moedas que conseguiu ao fim de uma manhã, para poder comer a sua sopa.

Porém, aos olhos da justiça e até da sociedade, o Pedrinho é mais criminoso, arrisca-se a um julgamento rápido e a uma pena de prisão pesada, enquanto que os carteiristas modernos fintam a justiça e facilmente se inocentam perante a opinião pública – são bons samaritanos.

O Pedrinho terá sempre a sua vida por um fio e será sempre o carteirista mais conhecido da zona.

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Lá vão os tempos em que o Sr. João corria para casa, vindo do trabalho, com um molho de notas que o seu patrão lhe deu pelo mês duro de trabalho. Era pouco dinheiro como a generalidade dos portugueses ganhava. Chegava a casa e guardava o dinheiro debaixo do colchão. Primeiro contava todas as notas - mais uma vez, agora acompanhado da sua mulher, para terem a certeza do dinheiro abençoado. Aproveitava o momento e fazia uma divisão com os elásticos de borracha para as despesas certas do mês – renda de casa, luz e água -, outra parte para despesas incertas ou do momento e uma última “migalha” para entregar no banco, onde estava uma pequena poupança.

Cada vez que o Sr. João ia à rua levava o seu porta moedas. Ainda que com poucos tostões, estava sempre vigilante e não tirava os olhos das pessoas que se aproximavam, sobretudo aqueles com ar suspeito. No elétrico apertava o bolso com a mão, para que nenhum larápio ou carteirista lhe roubasse o porta moedas num ato de dois dedos.
A sua mulher guardava o dinheiro – fossem as moedas ou as notas – bem dobrado num lenço, que colocava nos bolsos falsos do forro da saia ou no meio dos seios preso ao soutien. Assim se garantia a segurança dessa cambada de carteiristas que pululavam pela cidade.

Nessa altura, já se dizia que o mundo estava perdido e que o país estava de mal a pior com essa “ladroagem”. Pelos vistos assim continua, mesmo com a passagem do tempo.

Hoje o Sr. João é mais velho e tanto ele como a sua esposa já evoluíram para o cartão multibanco, que usam para evitar os carteiristas. Os seus filhos já fazem parte da geração do dinheiro de plástico sob a forma de cartões de crédito, multibanco e afins; são da geração do homebanking e das aplicações no smartphone.

Esta evolução está a levar à extinção dos tradicionais carteiristas da nossa praça, que agora só conseguem sobreviver à custa dos turistas que ainda trazem dinheiro consigo. Se hoje alguém for assalto por um carteirista pouco perde e ele pouco ganha – fica a chatice de ter de se tirar nova documentação e novos cartões de plástico.

 

Os carteiristas do nosso tempo, passaram para o online. Chamam-se hackers que tentam aceder a códigos dos utilizadores com e-mails estranhos e páginas dos bancos falsas – nunca digite o seu código de acesso na totalidade, nem responda aos e-mails que solicitem os seus dados. Eis a nova forma de roubar. Uma responsabilidade para quem tem as contas e para os bancos, que têm de estar atentos a estes novos carteiristas. Mas, até aí estão com azar. O português comum já voltou a poupar mais; porém, as suas contas continuam vazias e as poupanças pouco rendem porque os bancos pouco valor querem dar ao dinheiro. Existe sim, à disposição dos carteiristas, muitos créditos para liquidar. Há carteiristas que gostam de comprar divida incerta, mas não o carteirista da nossa praça, apenas o que migrou para grande porte e constituiu empresas e sociedades para esse fim. Enredos complicados.

O Sr. João não quer saber destas modernices mesmo que os senhor do banco lhe envie as senhas, lhe diga quais as vantagens na manutenção de conta e mesmo nos benefícios de compra a crédito. O Sr. João ainda tem saudades dos velhos tempos em que corria para casa com o ordenado no bolso para contar com a mulher. Nos tempos que correm esse pode voltar a ser o meio mais seguro, para evitar as famílias de abrutes santos.

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EU GOSTAVA DE SER UM ESPÍRITO SANTO

por Manuel Joaquim Sousa, em 30.06.14

A “estória” do Banco Espírito Santo é daquelas que já nem sabemos como começa e como acaba ou como acabará. É um enredo medonho. É um novelo que nem enrola, nem desenrola. Eu que sou um tipo pequeno – não em estatura, mas em grau de compreensão de questões económicas e de poucas economias – tenho dificuldade em compreender o que se passa no banco e fora dele. Pelos vistos nem se passa nada de mais no Banco, mas sim em todas as empresas que estão à sua volta – parecem prontas a sugar dinheiro. Há que tapar prejuízos. Ainda dizem que as empresas do Estado estão falidas e mal geridas – pelos vistos a gestão danosa estende-se ao grupo privado. Sim, privado e bem privado, de famílias com nome santo e digno. Digno? A olhar pelos pobrezinhos que pululam à volta, e a quem gostam de brincar quando estão de férias.
Tentar entender o Espírito é complexo e filosófico. Este Espírito parece mais que isso. Enquanto eu conto os tostões da minha carteira para pagar um café ou o pão que se encarece faz-me dar voltas à cabeça, outros, os que brincam aos pobrezinhos, se esquecem dos 8,5 milhões para colocar no IRS, foram uns trocos que lhes caíram a mais na conta. Quais 8 milhões que me desafogavam a vida. Até me sentia um Espírito bem Santo. Se eles gostam de brincar aos pobrezinhos com os pobrezinhos, eu gostava de brincar com os ricos. Posso brincar com o dinheiro dos outros, como eles fazem quando estão a falar a sério.
Dizem que “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Parece que na casa santa, de família santa se ralha muito sem se saber quem tem razão - Se calhar não há dinheiro nem pão.

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"AGORA HÁ MAIS MULHERES A FUMAR QUE HOMENS!"

por Manuel Joaquim Sousa, em 06.04.14

“Agora há mais mulheres a fumar que homens” – expressão de um estranho que passa por mim na rua, dita com revolta para quem quisesse ouvir. Razão por ele ter dito aquilo: um grupo de três raparigas – que aparentemente trabalhavam por ali – descontraídas, na rua, a fumar o seu cigarro e na conversa – algo perfeitamente normal e sem causar qualquer incómodo a quem quer que passasse por ali. Pelos vistos, o incómodo seria apenas para este homem que manifestou a sua revolta em relação ao vício do tabaco nas mulheres porque se no lugar delas estivessem três rapazes não teria certamente feito qualquer reparo em voz alta.

Da mesma forma que o homem se sentiu indignado, também aproveito o meu espaço para manifestar alguma revolta por se ter tratado de uma atitude exagerada e até machista – como se as mulheres não tivessem o direito de ter os mesmos vícios que os homens e como se o tabaco fosse capaz de denegrir a personalidade e os fumadores deixem de ser pessoas de bem. Fosse essa a razão para que existam pessoas más no mundo.

Não sou fumador, ao contrário do que possam pensar por estar a defender as ditas jovens que estavam no seu mundo sem provocar qualquer interferência; até as poderia ter ignorado à passagem, não fosse aquela frase do sujeito e o meu inconsciente ter despertado para o cenário daquele instante. Sem dúvida e todos sabem que o tabaco é um vício que faz mal à saúde e à carteira, porém cada um sabe de si. Apenas me preocupo e considero importante que o fumador respeite os espaços fechados e tenha em consideração em respeitar o não-fumador para que possam ambos conviver. Além disso, desde que com as devidas condições na questão de ventilação e aspiração do ar, os estabelecimentos tenham sempre a liberdade de receber os fumadores – a tentativa de irradicação de fumadores dos espaços comerciais que têm condições é simplesmente uma limitação à liberdade de cada um. Reparamos bem que atualmente as entradas dos cafés, restaurantes, espaços comerciais e mesmo na rua se transformaram em autênticos cinzeiros ao ar livre, quando anteriormente estes mesmos espaços públicos eram mais asseados.

Vícios todos têm e todos com consequências para a saúde, para a carteira e que incomodam muitas pessoas. Há um lado irracional no vício, que nem sempre se controla racionalmente, apesar de conhecermos os seus efeitos.

Independentemente disso, a frase deste homem faz-me pensar que a sociedade ainda necessita de uma certa evolução de pensamento porque ainda vive de preconceitos totalmente descabidos e fora do nosso tempo. Que dirá mais este sujeito acerca das mulheres sobre o que não deveriam ter ou fazer como os homens?

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A CULTURA DA MARQUISE

por Manuel Joaquim Sousa, em 21.02.14
Tomo café e olho pela montra para o outro lado da rua, para os diversos prédios desta avenida Bracarense e reparo que em quase todas as fachadas há marquises - a cultura da marquise.

Sim, chamo a isto a cultura da marquise que marcou uma época na construção das habitações - talvez anos 70 e 80. Atualmente é algo que entra em desuso e está fora de moda - há movimentos contra as marquises que pululam nos prédios. Contra mim falo, que também tenho uma marquise lá em casa - e que falta que me faz - para as mais diversas utilidades como ter roupa a secar sem que os vizinhos ou os transeutes vejam o que tenho a secar - fica tão mal a roupa a secar a ser vista da rua.

As marquises foram pensadas como a alternativa também a casas pouco funcionais como lugar para guardar coisas que não podemos em outras divisões ou então como sala de estar para os dias frios e chuvosos - agora há uma senhora que passeia ao longo da sua marquise, a toda a extensão da fachada a ver as suas plantas; Sim, a marquise pode ser simplesmente para guardar as plantas.

E vocês que dizem das vossas marquises?

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O ENCONTRO NA ESTAÇÃO DE COMBOIO: O AMOR VIVE DA SAUDADE.

por Manuel Joaquim Sousa, em 15.02.14

Caminha em passo acelerado pela rua fora com uma determinação que ninguém lhe tira, nem os buracos do passeio a fazem tropeçar como às outras pessoas, nem as pessoas que caminham em sentido contrário lhe travam a rota que mentalmente traçou para si com o objetivo de chegar a um lugar; continua a andar em passo decidido e quando alguém caminha mais à frente, em passo mais lento, desce para o alcatrão e acelera para voltar a subir para o passeio e continuar o seu caminho. Já caminha há longos minutos, por uma cidade apinhada de gente e onde o barulho dos carros, dos autocarros, das ambulâncias jamais são capazes de tirar do seu momento de concentração. Chega a um largo, onde os automóveis fazem fila num para e arranca constante, os táxis chegam e partem a toda a hora e os autocarros são contantes a trazer e a levar pessoas, como se tratassem de mercadorias. Num largo tão movimentado apenas há um pequeno espaço, no passeio, com uns bancos onde se encontram os velhos reformados do costume que passam o seu tempo a admirar toda aquela corria de pessoas que entram e saem daquela estação de comboios. Sim, a mulher caminha em direção à estação de comboios, era aqui que queria chegar neste seu andamento tão apressado.
Passa a entrada principal da estação e olha de frente para o painel dos horários de partidas e chegadas, olha para o seu relógio porque o velho relógio da estação parece ter parado no tempo e só está certo duas vezes ao dia, de seguida olha para as linhas e: não está nenhum comboio – chegou a tempo. Caminha novamente em passo mais lento, chega até ao pé da linha e senta-se num banco à espera, não sabemos do quê - também nós temos de aguardar para perceber qual o motivo desta espera.
O tempo vai passando e a cada minuto mais pessoas vão chegando ao mesmo sítio e ficam na mesma espera. Falta um minuto para as oito da noite e lá ao fundo vem um comboio, ela levanta-se num ápice e acompanha com o seu olhar a sua chegada, sente-se a sua inquietação e um certo estado de ansiedade, como se o coração saltasse por dentro. O comboio chega, abranda o seu ritmo até parar e rapidamente se abrem as portas.

Horas antes, numa outra estação, num outro lado do país, um jovem  está sentado num banco com uma mochila a seus pés; está calmo, com uma aparência tranquila olhando para a linha de comboio e acompanhando com o seu olhar até ao horizonte e a perdê-la de vista. Ao seu lado está um homem com alguma idade, denunciada pelos cabelos brancos, que lê o seu jornal de forma descontraída como se nada passasse à sua volta – de facto nada se passa. O local é calmo, poucas pessoas ali permanecem naquela estação. Entretanto, no sentido oposto, ouve-se um barulho de um comboio que se aproxima e para diante daqueles dois que estão no banco. O jovem e o outro homem levantam-se e entram no comboio. A tarde ainda está a começar e para o jovem há longas horas de viagem pela frente e muitas paragens em vários apeadeiros. O comboio arranca e segue a sua viagem com passagem por diversas terras, lugares cheios de gente e outros em que não se vê viva alma, atravessa por campos, rios e uma série de sítios que a voz do comboio vai mencionando a cada aproximação de paragem e em cada paragem, mas, o jovem deixa de aperceber por onde passa porque fecha os olhos e faz grande parte do trajeto a dormir com os phones nos ouvidos, a ouvir uma música qualquer. Entretanto acorda e repara que já passou algum tempo porque o sol já está a desparecer no horizonte; olha para o relógio e repara que falta pouco para a chegada; movimenta-se no banco para ajeitar as costas e nota-se que a sua tranquilidade vacilou um pouco e um ar de ansiedade está patente no seu rosto. Ao fundo da carruagem está o revisor que vem na sua direção. Boa tarde, o seu bilhete, por favor, há pouco não o quis acordar. O jovem sorriu, agradeceu, meteu a mão ao bolso e tirou o bilhete para o revisor picar. Obrigado – disseram em coro. O revisor lá foi, até à outra carruagem.
A noite já caiu, o destino está muito próximo, já se vê as luzes da cidade lá ao fundo. O jovem fica ansioso, nota-se que agora acordou mesmo. A voz anuncia a chegada da última estação e todos se preparam para sair. Chega o comboio ao destino, numa estação cheia de gente à espera daquele comboio. O jovem pega na sua mochila e ansiosamente espera que a porta abra, que o comboio pare – estes últimos momentos parece que nunca mais terminam. As portas abrem e todos saem.

A mulher vê tanta gente a sair, estica-se em bicos de pés, para encontrar alguém. No meio das pessoas estava um rapaz a fazer a mesma coisa. De repente, os olhares do jovem e da mulher cruzam-se e fixam-se por momentos, segundos, que se tornam uma eternidade, e sente-se a passagem de uma corrente entre os dois, que ambos caminham na direção um do outro como se entre eles não existisse mais ninguém. Chegam ao pé um do outro e abraçam-se intensamente, beijam-se com uma vontade tão grande como se esse estivesse guardado há tanto tempo, para este momento e encontro deste jovens namorados, na estação de comboio. Entre beijos sucessivos curtos e longos, nota-se um crescente alívio da ansiedade que ambos estavam a sentir com a chegada à estação; as suas faces unidas pelos lábios esboçam um grande sorriso e uma grande ternura entre os dois - não há palavras que o consigam descrever este momento e este sentimento que os une, imaginem e sintam.
O mesmo homem de cabelos brancos que estava na paragem, no mesmo banco que o jovem, a ler o jornal é a única pessoa que está a ver este momento e a aprecia-lo com uma grande admiração e um sorriso de saudade como se em outros tempos também tivesse vivido um momento assim. Todas as outras pessoas estavam apressadas demais para reparar neste momento – acham isto muito vulgar. Aquele momento entre os jovens durou ainda algum tempo, tanto tempo que o comboio partiu novamente para trás, para outra viagem e, com a sua ida, aquela linha estava a ficar despida de gente, a ponto de ficarem poucas pessoas para além dos três. O homem de cabelos brancos que apreciava tudo aquilo estava novamente sentado com o jornal na mão, desta vez com ele dobrado, pois ainda estava contagiado pela cena. No momento em que os jovens param de beijar e começam a dizer as primeiras palavras, o homem de cabelos brancos começa a falar: Agora percebo a sua ansiedade meu jovem; quem não estaria ansioso sabendo que iria viver um momento tão intenso como este; recordem sempre deste momento para o resto das vossas vidas, pois será este que vos fará sentir bem, mesmo naqueles dias em que tudo corre mal e andamos caídos; este momento faz ressuscitar muita coisa na relação de duas pessoas e na vida de cada um; o amor é coisa rara nos dias que correm, mas onde existe manifesta-se de uma maneira tão pura e tão simples. Os jovens coraram, mas não esconderam um sorriso de aprovação meio desajeitado. Perguntou o jovem: o senhor estava comigo na outra paragem a ler o jornal e aqui está sentado novamente a ler o jornal, o que espera? O homem, voltou o rosto para o horizonte, sorriu, ficou em silêncio uns instantes e com umas lágrimas escondidas disse: há anos que espero em muitas estações deste país por alguém que julgo não vir mais; aquilo que vocês vivem hoje, vivia eu na minha juventude, esperava três vezes por ano pelo comboio que trazia a mulher da minha vida, mas um dia esse comboio teve um acidente muito grave, morreram todos, e eu perdi-a para sempre; quanta amargura e saudade desde esses tempos; hoje o comboio traz a saudade para que eu ainda consiga viver, pois dela me alimento; o amor vive da saudade.



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FUTEBOL, A CONTEMPLAÇÃO DO MOMENTO

por Manuel Joaquim Sousa, em 11.02.14

Num espaço comum, onde jantou ou almoço – no meu local de trabalho -, estão sete pessoas em absoluto silêncio – entram e saem e continuam em silêncio – coisa que não é normal em dias comuns, em que entram a conversar e comunicam com os que estão nessa copa. Coisa que não é normal em dias comuns - foi o que escrevi -, mas agora, neste momento, não é um dia normal? É, mas é diferente porque na televisão está a passar o dérbi Benfica-Sporting. Essas pessoas, mesmo colegas, estão em silêncio por isso, a sua atenção é para o jogo que passa na televisão.

O silêncio continua, não há troca de palavras – Golo, manifesta um no preciso momento em que o Benfica marca o primeiro – porque o jogo assume a maior importância que qualquer conversa pode ter neste momento. Acho que perante o futebol, qualquer conversa perde qualquer interesse, assim como, a refeição nem parece ser saboreada com o devido interesse que lhe merece porque entre garfadas há espasmos e bocas abertas para a televisão.

O único que parece alheio ao jogo seu eu, que vejo de fora esta cena e tento compreender o interesse das pessoas neste momento. Entram mais pessoas, mas o silêncio continua a reinar e a ser imposto mentalmente por quem já cá está – uns sorrisos contidos, uns murmúrios e nada mais.

Poderia achar que a só a religião pede silêncio ou mesmo o fado que são dignos de contemplação, porém, num país de três “efes”, todos merecem ser interiorizados e venerados da mesma forma, pela importância que têm na genética do nosso povo.
Sim, o futebol é um dos nossos fados, nele está a esperança do país e até a alegria generalizada do povo (não fosse a única cura da depressão coletiva em que vivemos). Sim, o futebol é a religião de muitos, que devotamente rezam em silêncio pelos golos e pela vitória do seu clube. As reações são sempre muito apaixonadas – seja para o bem ou para o mal.

O jogo continua, parece que pouco emocionante, porque o silêncio apenas é quebrado pela conversa de duas colegas que falam do seu dia.

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