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AS CONVERSAS NO CAFÉ DA TERRA PEQUENA

por Manuel Joaquim Sousa, em 26.11.12

- Olha, quem é aquele que vai ali?
- Pelo carro é o Zé, filho da Maria.
- É mesmo. Vai com a mulher.
- Vão deixar o lixo na reciclagem. É sempre assim, os dois vêm colocar o lixo na reciclagem muitas vezes.
- Quem é aquele que vem acolá, a pé?
- É o Francisquinho.
- Ah! Coitado. Já vai todo tombado.
- A esta hora já deve estar com um copo a mais.

Assim continuam as conversas de Domingo à tarde, lá pelo café do sítio - típico de terras pequenas, onde há que arranjar alguma coisa com que se possa ocupar o tempo, matar o silêncio, já que o tempo de chuva e frio é pouco convidativo para passeios na rua.

Por vezes, o rapaz que veio da cidade, e que vai ao café do sítio para ver os presentes e contar novidades da terra desenvolvida, fica estranho com o teor da conversa a que já não está habituado. Mas, a estranheza passa depressa ou não se lembrasse que sempre assim foi, mesmo nos tempos em que o rapaz por cá vivia.

O jovem rapaz, nos tempos em que vivia cá no sítio pequeno, não gostava nada destas conversas – que iam muito para além de comentar e perguntar quem é aquele, mas estendiam-se para pormenores da vida pessoal e privada de cada um, baseada no “diz que disse” e em julgamentos sem fundamento algum – e criticava, assim como, desejava ver-se fora daquele meio para um outro mais evoluído e desejado. Porém, hoje mantém esse desejo, mas sorri ao lembrar que tudo continua como antes, por mais voltas que o mundo dê.

Na terra pequena, a televisão apenas alimentou mais as conversas de mal dizer e de circunstância com a abundância das telenovelas, dos reality shows e talk shows sobre a vida alheia e cor-de-rosa. O mundo da televisão por cabo chegou, mas os programas tradicionais mantém-se no top das preferências.

Na terra pequena, novidades como as redes sociais espalharam-se da mesma forma que nas cidades, com os mais novos a mostrarem o seu destaque e modernidade. Também estas alimentaram as conversas tradicionais de café sobre a vida de cada um e as fotografias, comentários e afins que andam a circular por esse grupo pequeno. Para os restantes, trata-se da “pouca vergonha” que anda por aí a estragar namoros e que faz essa gente enrolar-se a torto e a direito com qualquer um.

Na terra pequena, tudo continua como antes – aos olhos do jovem da cidade – por mais informação ou evolução que haja. O respeito por esta forma de estar em sociedade faz com que, muitas vezes, entre no café calado e saia mudo, mas pensativo sobre tudo isto.

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AS FREIRAS JÁ NÃO SÃO COMO ANTES...

por Manuel Joaquim Sousa, em 14.11.12

Há momentos e comentários que por vezes nem sei que responder, se é que se pode/deve responder ou então deixar passar com um ligeiro sorriso.

Final do dia, à entrada do prédio, a vizinha (já de alguma idade) a abrir a porta da entrada e segue-se a conversa de ocasião até à porta do elevador:

- Olá! Boa noite!
- Boa noite. Eu estava a entrar e vi uma irmã freira ali na rua e nem a conhecia.
- Ah! Pois…
- Agora já usam as saias (e faz o gesto com as mão no joelho – para dizer saias curtas). Já não é como antes que estavam todas tapadas.
- São outros tempos.
- É como os padres, agora é tudo diferente. São outros tempos (entra no elevador e seguiu a sua vida).

Um diálogo, que mais pareceu um monólogo, muito estranho. Porém, fiquei a pensar na confusão que ia na cabeça da minha vizinha. Será que levou aquilo para a brincadeira (?) ou iria com aquele sentimento de desconsolo e desilusão em relação às transformações das freiras, que agora usam saias mais curtas – em vez de andarem tapadas até aos pés.
Talvez tenha ficado a pensar que estas modas estão a estragar a sociedade e que as freiras já não são como antigamente. Será?
Ou eu é que tenho uma visão muito simplista da vida!

As conversas de circunstância são no mínimo improváveis…

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