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EU TAMBÉM ME TORNEI CHARLIE E TU?

por Manuel Joaquim Sousa, em 09.01.15

 

A imagem de fundo negro com inscrição “Je suis Charlie” tornou-se, nestes dias, numa das mais partilhadas do mundo através das redes sociais, como manifestação de solidariedade e pesar pelos acontecimentos em França - atentado as instalações do semanário satírico Charlie Hebdo, onde morreram doze pessoas entre funcionários, polícias e corpo redatorial do jornal.

 

Como qualquer atentado, foi horrível. Rápido, bem-sucedido, praticado por jovens com uma preparação fora do normal (embora pouca preparação mental). Foi horrível pelas vidas que se perderam. Foi horrível pelo ataque aos valores mais importantes de França - a liberdade de expressão.

Neste momento crítico, confirmamos que a liberdade de expressão tem um preço muito elevado e serve também para termos consciência disso mesmo. Por vezes, podemos cometer o erro de achar que a liberdade é um direito adquirido. Na realidade, não é um direito porque em todos os países onde se lutou por essa liberdade existiram custos elevados para muitas vidas.

 

A cultura ocidental é muito diferente de outras paragens, de outros países ou povos que vivem em repressão, e o contraste com países de maior liberdade leva à existência de quem festeje estes acontecimentos como uma grande vitória – embora a maior parte do mundo tenha condenado. Só quem vive em França é que consegue perceber a diferença entre o satírico Charlie e a tolerância do povo em aceitar de forma aberta todas as críticas, independentemente dos assuntos e temas que esta toca. Cartoons, sátiras são formas de expressão em relação aos nossos costumes, religiões, política ou sociedade. É saudável convivermos bem com a crítica. É saudável o respeito pela opinião do outro, seja em contexto sério ou satírico. O humor é mesmo assim - ninguém ri do bem, mas do mal do outro e do ridículo a que a espécie humana foi condenada. Brincar com Deus não tem mal algum porque imagem dessas caricaturas ou cartoons é aquela que outros homens, pelos seus atos, fazem passar sem que tenham consciência disso. Se Maomé tem um turbante foi porque a atitude de alguns e os seus atos fizeram outros criar essa imagem. O humor como qualquer forma expressão e arte merece o seu respeito ou a ignorância daqueles que não gostam e não se reveem - nada justifica atentado dia 7 de janeiro.

 

A melhor reação que podemos ter a este ataque é usar como armas: o papel, a caneta, o lápis e todo material de transmissão de opinião que nos vai no pensamento para algum suporte como forma de transmissão e divulgação. Usar estas armas implica coragem, mas são as armas mais fortes. A forma como uma caneta fere é mais profunda, duradoura e imortalizada em tantas almas, que uma arma convencional não consegue matar.

 

Podem aqueles três terroristas vingarem ou achar que vingaram Alá ou Maomé. Na realidade, não foram vingados, mas despertaram nos cidadãos de todo o mundo uma revolta bem pior. Poderão suscitar outros sentimentos mais dolorosos em relação a pessoas, culturas, sem que tenham culpa disso mesmo.

Charlie Hebdo não foi silenciado, mas tornou-se mais forte entre a dor da perda de preciosos elementos. Hoje há muitos mais. Hoje muitos de nós tornaram-se Charlie.

 

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