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AVÉ CHEIA DE GRAÇA AO BLOCO DE ESQUERDA

por Manuel Joaquim Sousa, em 29.02.16

Finalmente a adoção por casais de mesmo sexo é permitida. Portugal é um país que sai da linha do preconceito em nome do interesse da criança – interesse no sentido de haver oportunidade das crianças serem acolhidas numa família, independentemente da opção sexual dos casais. Trata-se de uma vitória que provocou alguma azia em Belém e algum exagero pelos lados do Bloco de Esquerda – refiro-me ao recente cartaz, polémico cartaz, que não publico, para evitar prolongar a campanha do BE. Primeiro, como católico não tenho qualquer preocupação ou estigma em relação à utilização do nome e imagem de Jesus, ou qualquer outra figura religiosa, em comparações e até no humor – liberdade de expressão com respeito é o meu princípio. Alias, Jesus deve estar mais preocupado e triste com outras questões bem mais tristes e preocupantes, das quais somos responsáveis – em vez do coro de anjos defensores do bom nome e respeito. Segundo, religião e política são áreas de pensamento que não se devem cruzar, de forma a evitar colisão de valores e posições – já por isso vivemos num estado laico e quem nos dera que todos os Estados do mundo fossem laicos. Sendo o BE um partido que sempre procurou separar as águas - política e religião -, deveria ter outra sensibilidade em relação a este assunto do cartaz. Notei em toda a história uma falta de maturidade política e sensibilidade. No próprio partido o cartaz não foi bem aceite, como poderia ser aceite na sociedade sem levantar polémica? É claro que foi um assunto, esporádico e já esquecido, até mesmo nas redes sociais – a vantagem da política nas redes sociais é esta: por maior que seja a contestação, no dia seguinte já todos esqueceram o assunto e estão mais interessados em partilhar outras historietas -, onde a memória política é muito curta e obtusa. Como é um assunto viral e sem consistência para ficar presente, foram evitados problemas internos no BE e aqui abrir a velha caixa de Pandora que existe em relação à sua liderança – em tempos o BE teve um pai e uma mãe, poderia ter dois pais ou duas mães (comparação que poderiam ter utilizado). A associação de que Jesus teve dois pais não é óbvia para a temática de adoção por casais do mesmo sexo – Jesus viveu com um pai adotivo e uma mãe. Poderiam ter escolhido outra comparação e não uma mera provocação que poderia ter um preço elevado à imagem do partido. Deixo essas comparações, associações aos cartoonistas e humoristas, com liberdade de pensar, sem qualquer prisão a ideias políticas – liberdade de expressão e criatividade para estes, que já lhes custa muito caro. Não uso o mesmo slogan “Je suis BE”, da mesma forma que usaria “Je suis Charlie”. De qualquer das formas e desnecessário que se cometam exageros nos comentários e nas reações – gastem a energia em assuntos mais sérios e importantes.

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