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A MARCA DE CAIM

por Manuel Joaquim Sousa, em 16.03.11

Por: Manuel de Sousa



O livro «Caim», de José Saramago pode ter provocado uma certa polémica em Portugal pela série de questões que o seu autor levantou perante a Bíblia. Porém, as polémicas, interrogações, teorias em torno de certas personagens bíblicas têm existido por todo o mundo, desde sempre, sobretudo quando são situações nem sempre esclarecidas e que deixam as suas dúvidas para múltiplas interpretações.
Caim é um dessas personagens que ainda hoje suscitam curiosidade e discussão pelo acto de este ter morto o seu irmão Abel e mesmo assim ter sido perdoado por Deus deste acto tão terrorífico.

Porquê o perdão de Deus a Caim? Porque razão passou a ser protegido por Deus, quando Este lhe colocou uma marca para lhe ninguém lhe fizesse mal?
Pensasse que até ali ninguém tivesse morrido, de acordo com a ordem Histórica da Bíblia. Estávamos no inicio dos tempos, ninguém sabia o que era morrer, muito menos sabiam o que era um homicídio. Claro que Caim ficava com grande revolta ao ver Deus aceitar os sacrifícios do seu irmão Abel e desprezar os seus, que os fazia e oferecia com grande sacrifício, pensa-se. Caim terá morto seu irmão como manifestação de raiva e só no final do acto consumado é que se terá apercebido da realidade do crime que cometeu, e que afinal tinha acabado com a vida de alguém, coisa que até aí se desconhecera. Caim terá escondido o corpo do seu irmão ao aperceber-se do que fizera. Deus ao questionar-lhe sobre o paradeiro de Abel, Caim respondeu que não sabia, terá desencadeado a ira de Deus, que se terá revoltado, não pela gravidade do crime, que o Homem desconhecia, mas por este ter escondido o corpo e pelo acto de mentira, negligência e irresponsabilidade. O Senhor poderá não ter tolerado esta atitude que o Homem desenvolveu com grande facilidade. A mesma revolta terá mostrado perante Adão e Eva que comeram do fruto proibido. Comeram do fruto, mas tentaram contrariar a verdade dos factos pela omissão e pela forma de atribuírem culpas a terceiros de forma a inocentar-se.

Tendo Deus perdoado Caim pela morte do irmão, terá este episódio trazer alguma lição para qualquer um de nós? Será que podemos passar a matar os nossos irmãos sem problemas porque seremos perdoados perante a lei divina?
É claro que não se pode generalizar a história sob a pena de provocarmos mais mortandade entre Homens e provocarmos uma espiral de ódio, sangue e morte.
Conta-se que os factos terão ocorrido no berço da civilização, onde se situa o actual Iraque. Nesses tempos, eram frequentes as guerras entre pastores e agricultores, que não tinham forma de se entender. Os agricultores dedicavam-se a vida às plantações, enquanto os pastores precisavam de alimento para os seus animais e por isso deixavam as plantações destruídas. Nesta espiral de violência seriam sucessivas as mortes. A história de Caim terá origem nestas guerras e teria um certo sentido de transmitir arrependimento, fraternidade e concórdia, coisa que até aí não existia. Não estaríamos perante uma descrição de um facto real e que terá acontecido, mas de uma parábola em que os pastores e agricultores aparecem figurados em duas personagens.
Talvez seja por esta razão que as oferendas de Abel tenham sido aceites em lugar das oferendas de Caim. Este é um episódio religioso porque na origem do mundo e do Homem este ainda não tinha capacidades de cultivo da terra e da criação de gado, partindo do pressuposto que Caim e Abel seriam a segunda geração da Humanidade.

Caim é uma personagem que representa um grande enigma para muitos porque existe a incógnita: Qual a marca que Deus cravou neste homem? A marca não foi com a intenção punitiva, mas de protecção. Mas que marca seria, capaz de ser visível aos olhos dos restantes humanos? Como saberiam os restantes seres que aquela seria uma marca de protecção?
Uns dizem que a marca foi colocada no cabelo, pois seria o primeiro Homem ruivo. Não existem provas que o sustentem. Foi também, durante tempos, e ainda defendido por alguns que a marca representa o símbolo do vampirismo. Uma outra teoria sustentada pelos textos mórmon, da igreja de Jesus Cristo dos Santos e dos Últimos Dias, indicam que a marca foi a cor da pele. Este seria negro, sendo Caim o pai da raça negra e a origem do povo africano. Esta é a razão mais conhecida, porém também sem fundamento bíblico e comprovação histórica. Além disso, a descendência de Caim teria de terminar em Noé, na altura do dilúvio.
Apesar disso, a marca de Caim não foi interpretada correctamente. Esta que seria um sinal de protecção foi entendida pelas civilizações como algo de maléfico, aterrorizador, perigoso e condenável. Caim e a sua marca passaram a ser associados à escravidão do povo negro, sujeito a sacrifícios terríveis por serem entendidos como o povo rejeitado e vagueante por terras perdidas.
Por terras perdidas e vagueante tem sido o povo Judeu, a quem durante muito tempo se atribuiu a descendência de Caim e os marcados por Deus. Enquanto que, Abel chegou a ser representado pelo povo Cristão, Caim seria semelhante em relação ao povo Judeu. Esta razão, tem sido invocada para grandes desavenças entre povos e religiões durante séculos. Acredita-se que esta teoria foi sustentada por Hitler ao condenar os Judeus à morte e ao obriga-los a andar perdidos sem quaisquer bens e conduzindo-os para campos de concentração. Este mesmo ditador marcou todo aquele que era Judeu, de forma a ser diferenciado dos restantes.
Não se sabe se o conflito do Médio-Oriente seja também ele fundamentado por esta história bíblica.

As interpretações erradas de uma passagem bíblica, que poderá ser apenas uma história figurada, será a responsável por numerosos crimes e atentados contra a Humanidade, a acreditar nas associações que foram sendo criadas? Será apenas um meio para justificar actos condenáveis? Para ilibar criminosos de seus crimes como Caim se desculpabilizou quando matou o seu irmão?
A marca a que se refere o autor bíblico pouco importa, não poderemos pensar eternamente no que seria, com o perigo de cairmos no mesmo erro, erro esse responsável por monstruosidades e a justificação de actos tão inconsequentes.
O que interessa retirar daqui, será essencialmente uma outra lição, esta mais positiva e capaz de ser mais construtiva para a Humanidade.




manuelsous@vodafone.pt



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