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No ano passado comemoramos o quadragésimo aniversário da revolução de Abril com grande destaque nacional. Este ano, prefiro lembrar os quarenta anos sobre as primeiras eleições livres em Portugal depois de uma ditadura de quase meio século. Eleições que só foram possíveis graças à revolução dos cravos, que a todos proporcionou a liberdade de debater, exprimir e defender uma ideologia e uma posição política sobre o que desejavam para o país. Antes de 74, existia um partido e 1,3 milhões de eleitores. Logo a seguir à revolução passaram a existir mais de 6 milhões de eleitores e cerca de uma dezena de partidos políticos na corrida à Assembleia Constituinte. O país cumpriu um dos desígnios de Abril: todos os portugueses maiores de dezoito anos tiveram a liberdade de voto, independentemente do género e da condição social.

Num ano se conseguiu algo que nunca tinha acontecido até então: construiu-se do zero os cadernos eleitorais, as urnas, a logística para que, em todo o país, todos pudessem usar o seu novo direito cívico. A afluência às urnas foi de 91,7% de eleitores.

Volvidos quarenta anos muito mudou. O eleitorado perdeu a energia interventiva de Abril. A política perdeu o seu crédito. Os agentes políticos passaram a ser considerados como mediadores de interesses pessoais, corporativos e a política passou a ser entendida

como forma de assegurar o futuro profissional e o trampolim para outros voos em troca dos favores. Essa pode ser a explicação para que os níveis de abstenção sejam cada vez mais preocupantes. Não é a melhor forma de protesto para a mudança porque nada mudou com uma elevada abstenção. A política nacional continua a ter parte responsável no descrédito junto do eleitorado. A idoneidade dos eleitos ainda é uma zona cinzenta, que esconde sempre uma polémica, uma falta cometida no passado e com isso se procura criar assunto político para ataques entre partidos e oposições. Como pode o eleitorado confiar em quem se propõe a governar quando sabem das faltas que um primeiro-ministro teve em relação ao pagamento de impostos; quando existe favores como os vistos gold; quando existe um ex-primeiro-ministro preso por suspeitas de enriquecimento ilícito? Como podemos deixar que nos governem quando os próprios partidos têm dificuldades de resolver as finanças internas? O povo não acredita na política quando a vida privada é sobreposta às ideias tão necessárias, para que o país saia da crise de rumo em que vive mergulhado. Não se pode ter credibilidade quando as prioridades estão invertidas.

Também antes do 25 de Abril havia cofres cheios; também antes do 25 de Abril a fronteira era o destino de muitos. Tal como hoje, amanhã vamos continuar a conviver com as dificuldades sociais e económicas. Infelizmente, há semelhanças entre os tempos atuais e os tempos da ditadura.

Passados quarenta anos das primeiras eleições livres era bom sinal que estivéssemos em mudança e, apesar de toda a desgraça, existam movimentos novos, partidos com menor expressão ou independentes que possam ganhar lugar no debate público, nacional e regional. Estes poderão ser as forças de incómodo em relação à passividade dos grandes partidos, confortados na sua posição maioritária, e a esperança do eleitorado nas novas ideias e na defesa das populações, quando já não acreditam e não têm outra forma de serem atendidas por quem as governa. É importante que essas forças sejam capazes de se manterem e de corresponderem às expectativas em quem depositou um voto, por acreditar na diferença que ainda é possível existir e assim possam continuar o seu trabalho sem receios que os incomodados, os mais representados, imponham as suas regras e provoquem o silêncio.

Escolhi relembrar as primeiras eleições livres por ser um acontecimento só possível com a revolução de Abril e para relembrar que um voto é muito poderoso e que pode marcar a mudança política. A liberdade é isso mesmo: permitir que por um voto se ganhe e por um se perca dependendo da vontade do povo.

Viva o 25 de Abril! Viva Portugal!

 
 

 

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